terça-feira, 17 de novembro de 2009

Um saxofone em hi-fi com Sandoval Dias

Na Era do Rádio, anúncio era reclame, dança era bolero e música para dançar era a que saía do sonoro saxofone de Sandoval Dias.
Ah, meu nostálgico leitor, eu também concordo que essas danças m
odernas, em respeito aos grandes dançarinos, como Fred e Ginger, Gene Kelly e Cyd Charisse, deveriam ser chamadas de outros nomes, menos danças.
E poucos músicos brasileiros souberam conduzir com tamanha maestria a linha melódica de uma dança, como Sandoval Dias com o seu sax-tenor. As festas ficav
am mais românticas ao som do bolero que saía do sax de Sandoval. Os casais suspiravam baixinho, e se deixavam levar pelo salão, no embalo suave e sereno do conjunto de Sandoval Dias.
Muito poucos músicos souberam marcar de forma tão harmoniosa o ritmo da música dançante, como Sandoval.
O disco que analiso hoje, Um saxofone em hi-fi, considero o melhor de toda a discografia de Sandoval Dias, em parte por uma seleção de primeira linha, mas principalmente pelas interpretações de altíssimo nível desse mestre da música dançante.

Na capa, o charme da artista de cinema da época, Jayne Mansfield, uma rival da Marylin, mas que nunca chegou a ameaçar a fama da mais famosa loura do cinema.
O meu tio Sandoval costumava lançar seus LPs com mulheres nas capas, mas isso não era uma jogada comercial só dele, mas de quase todos que lançavam dis
cos dançantes naquela época.
A mulher era um chamativo a mais, para a venda dos álbuns fonográficos. Mas, tenho certeza que, se alguém comprou este disco somente por causa da estrela da capa, foi agraciado com um dos melhores discos da época.

As interpretações para No Rancho Fundo e Pensando em ti são fenomenais. No entanto, nada se compara à magistral técnica com que a música Czardas é interpretada, quando o sax de Sandoval parece esquecer que é um instrumento de palheta, e se transforma num virtuoso violino.
Os violinistas se sentem desafiados, diante dessa obra musical difícil de ser executada, e não são poucos que tropeçam em suas variações melódicas, que ex
igem muita sincronia de movimentos.
O sax de Sandoval parece desconhecer todas essas aparent
es dificuldades, e oferece-nos uma oportunidade rara de ouvir o que um músico é capaz de fazer com o seu instrumento, quando ele sabe o que faz. Num determinado trecho, quando todos os músicos se sentem mais desafiados, pela vibração constante e muito veloz que tem de ser imprimida a interpretação, é ali que Sandoval se sente mais à vontade e dá uma lição de destreza e técnica apurada, fazendo o baile parar, para que todos possam apreciar e acompanhar melhor a beleza do som da música.
Uma vez, tive essa experiência num baile em que tocava o
famoso 7 de Ouros, quando os pares foram parando de dançar e olhando para o palco, embevecidos pelo que estavam ouvindo, até que coroaram o final da apresentação com uma interminável salva de palmas.
Sandoval Dias tinha essa genialidade para tirar do saxofone dourado,
uma sonoridade melodiosa que não parecia vir de um instrumento musical, mas de um coral de anjos celestiais.
Em nenhum outro de seus LPs, Sandoval Dias foi tão brilhante qua
nto neste Um saxofone em hi-fi. As músicas que compõem o disco são Pensando em ti, Love Letters in the Sand, Maria La ô, Encabulado, Dejame en paz, Neptuno, Nereidas, No Rancho Fundo, Autumn Leaves, Czardas, Around the World e Deixa o meu coração cantar.
Sambas, boleros, choros, fox, são diversos os ritmos, mas to
dos feitos para dançar.
Era assim que se animava as festas, na Era do Rádio. Uma radio-vitrola ou eletrola, uns discos LPs e música dançante da melhor qualidade.
A vizinhança não reclamava, mas, pelo contrário, pedia para que tocasse um pouco mais alto. E o som suave e melódico atravessava a janela, percorria o jardim e che
gava aos ouvidos do vizinho da casa ao lado, que de olhos fechados tirava uma casquinha da festa que não pôde ir, mas que pôde receber em casa.
Era assim que se dançava na Era do Rádio. Todos se sentiam um pouco Fred e um pouco Ginger.
E ao fundo, a virtuose de Sandoval Dias e seu sax dourado.








sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Nos tempos idos em que propaganda era reclame

No início da semana, respondi uma pesquisa escolar sobre os hábitos e costumes dos jovens nos anos 50 e 60.
O menino Augusto, muito maduro para a sua idade, queria saber sobre rádio, cinema, televisão e propaganda. A pesquisa era sobre uma época em que, nem
ele, nem sua professora que propôs a pesquisa, tem a mínima idéia do quanto era diferente de tudo que existe nos dias de hoje.
Aproveito as lembranças, e as transporto para este meu museu de memórias.
Naqueles tempos idos dos anos 50 e 60, a vida era mais romântica e o tempo passava bem mais lentamente.

A programação radiofônica consistia em programas de auditório, musicais ou humorísticos, noticiários e rádio-teatro. A televisão dava os seus primeiros passos, e só viria a se firmar mesmo no final dos anos 60.
Os programas de auditório, comandados por grandes nomes do rádio, como César de Alencar, César Ladeira e Manoel Barcelos, lideravam as pesquisas da é
poca. Cantores, como Emilinha, Marlene, Dalva, Ângela Maria, Carmélia Alves, Linda e Dircinha Batista, Nélson Gonçalves, Jorge Goulart, Cauby Peixoto e os ainda mais antigos, Chico Alves, Carmem Miranda, Orlando Silva e Sílvio Caldas, eram os grandes nomes da música popular brasileira daqueles tempos.
Os programas de auditório arrastavam multidões ao delírio, co
nfrontando fãs clubes e criando uma rivalidade que, às vezes, resultava em conflitos entre as diversas facções.
O César de Alencar, no seu Programa de sábado, promovia a cantora Emilinha, enquanto o Manoel Barcelos tomava partido da Marlene. E no meio dessa luta pela liderança de audiência, enfrentavam-se as fanáticas e frenéticas fanzocas, que eram capazes d
e tudo para promover a sua cantora favorita.
Os programas naquela época eram patrocinados por uma única marca de produto, criando uma concorrência comercial entre os patrocinadores, que os associavam aos artistas de seus programas.
As Pastilhas Valda patrocinavam um quadro do Programa César d
e Alencar, em que aparecia a Emilinha. O refrão que anunciava o produto acabava sendo utilizado para saudar a entrada de Emilinha no palco, criando um vínculo de enorme alcance promocional para a venda daquele produto.
"Pastilhas Valda, Pastilhas Valda, Emilinha é a maior..."

Carmem Miranda usava sabonete Lever, que era " o preferido por
9 entre 10 estrelas do cinema". Dalva de Oliveira usava o Leite de Rosas. Eu já não lembro o que a Marlene e a Ângela Maria usavam, mas não fugiriam muito dos tradicionais produtos de beleza, que eram os grandes anunciantes Na Era do Rádio.

"O creme dental Colgate e o sabonete Palmolive têm o prazer de apresentar", e lá ía para o ar mais um capítulo da novela das 8.
"Cem por cento financiado pela Perfumaria Myrta Sociedade Anônima, ergue-se em qualquer ponto da cidade maravilhosa...", e tinha início mais um programa humorístico Balança mas não cai.

Durante a semana, às tardes, enquanto fazia os meus deveres de colégio, eu acompanhava a programação do rádio-teatro da Tupi e da Nacional, que fazia parte da rotina semanal de minha mãe. Eu sempre tive uma surpreendente capacidade de processar na mente, ao mesmo tempo, duas, três ou mais informações, sem que uma interferisse na outra.
E era isso que acontecia, enquanto meu lápis percorria as folhas do caderno, a minha mente prestava atenção aos dramas relatados no rádio e, se fosse preciso, ainda pensava no que fazer mais tarde ou no dia seguinte.
Dentro da minha mente, tudo ía ocupando o seu devido lugar. O resultado de um problema, aqui, o diálogo romântico ou trágico, ali. E, mais adiante, o agendamento do final de semana, ou a programação de um cinema no dia seguinte.
Teatro das 4 e Presídio de Mulheres eram programas diários, que contavam histórias cheias de dramaticidade, sobre o cotidiano da vida familiar ou de um presídio feminino.

Antes disso, minha mãe gostava dos programas musicais do Manoel Barcelos e do César Ladeira. E eram imperdíveis os programas do casal Yara Sales e Heber de Boscoli, "Trem da Alegria" e "A Felicidade bate à sua porta".
Todos eles com seus anunciantes próprios, que associavam a marca ao programa.

Naquele tempo, propaganda era chamada de reclame. Assim, er
a comum que o apresentador, ele mesmo ou através de um jingle musical, fizesse o reclame da firma ou do produto que patrocinava o programa.

Existia um reclame que ficou famoso nos bo
ndes da época, e que anunciavam " Veja, ilustre passageiro, o belo tipo fagueiro, que o senhor tem ao seu lado. Mas, no entanto, acredite, quase morreu de bronquite, salvou-o o Rhum Cresostado". Era impossível não decorar esse versinho, pois em todo bonde que se viajasse, lá estava aquela placa na nossa frente. Eu nunca tomei o Rhum Creosotado, talvez por seu teor alcóolico, que certamente era forte demais para uma criança, mas jamais me esqueci de suas propriedades na cura das doenças pulmonares.

Os reclames eram todos muito ingênuos, se comparados com a sofisticação de hoje em dia. Os produtos anunciados em revistas eram os mesmos ouvidos nas rádios. A principal revista da época, onde se podia encontrar todos os principais lançamentos e novidades, era a Seleções de Readers Digest, uma publicação americana, que fez um sucesso enorme entre nós, na época da guerra e no período de pós-guerra.

A ingenuidade, porém, tornavam-nos muito mai
s objetivos e fáceis de serem entendidos, bem diferente dos anúncios modernos. Hoje em dia, o marketing sofisticado cria uma sucessão de imagens em alta velocidade, e tenta associá-las a um produto ou marca, o que , nem sempre, é bem compreendido pelo observador. Mas, o que importa mesmo é promover a Agência que produziu a peça artística, ficando o anunciante com os méritos de ter contratado uma empresa conceituada, que já ganhou uma porção de prêmios.

Antigamente, na Era do Rádio, os reclames tentavam de modo muito direto vender marcas ou produtos. Nos tempos modernos, as Agências de Publicidade procuram valorizar os seus anunciantes com peças publicitárias de imenso conteúdo criativo e valor artístico, mesmo que com isso provoque um verdadeiro quebra-cabeças, para que se descubra de que produto está falando.

As empresas da Era do Rádio, talvez tenham ganho tanto dinheiro com seus produtos, promovidos por aqueles ingênuos reclames, que puderam dar-se ao luxo de pagar as Agências para complicarem bastante a mensagem, enquanto tentam fazer o seu cinema de arte.

Ou, quem sabe, se os reclames, naqueles tempos idos, eram mais ingênuos, porque os seus criadores também eram pessoas mais simples e os consumidores adoravam usar produtos que eles entendessem bem para que serviam.
Era assim que a gente vivia na Era do Rádio. Quem quisesse consumir
arte, ouvia o rádio. Quem quisesse consumir um produto, prestava atenção no reclame, e ponto final.
Tudo era mais simples, mais direto,
mais às claras...na Era do Rádio.


quarta-feira, 10 de junho de 2009

Jogo de botões pela calçada

Nos meus tempos de criança, a exemplo do Ataulfo Alves, eu também brincava com jogo de botões, só que não era pelas calçadas, mas no chão de taco do meu quarto.
O meu time de botões era tratado a talco e flanela, para escorr
egar melhor, em contato com a paleta. O chão era varrido e recebia umas boas escovadelas com o escovão de encerar a casa, num tempo em que não se sonhava com a enceradeira elétrica. A bola era de cortiça, esculturada a partir de rolhas de garrafa. Se o jogo fosse à noite, havia um refletor potente, com o uso de um abajur metálico articulado, que havia sido utilitário do consultório de dentista do meu pai.

O meu principal time de botões era o Canto do Rio, já que o meu irmão caçula não abria mão de escolher os seus times preferidos, dentre eles o nosso Flamengo. Cabia a mim, os 6 clubes rejeitados por meu irmão, para a disputa do Campeonato Carioca, que na época era disputado por 12 clubes. Os meus 6 times de botão eram o Canto do Rio, que está na foto ao lado, com a bolinha de rolha à frente, o Bonsucesso, o Botafogo, o Bangu, o Olaria e o Fluminense.
A escalação do Canto do
Rio era Luciano na zaga direita, mas do zagueiro esquerdo eu não me lembro; a linha média era formada por Dodoca, Floriano e Zé Maria; e o ataque tinha o Jairo na ponta- direita, o Fernando na meia- direita, o Zequinha de centro-avante, o Amaro como o meia-esquerda, e o ponteiro esquerdo também não me veio à memória.
O Luciano era um beque acavalado
, como chamávamos quando se colava um botão sobre o outro. O outro beque, que está ao lado dele, e de quem não me recordo o nome, era feito de plástico derretido em forminha de empada. E o ponteiro esquerdo, cujo nome também não estou lembrado, era um coquinho, como se costumava chamar os que eram feitos de casca de coco.

O interessante é que os jogos eram todos irradiados, por quem estivesse na vez de paletar os seus botões. E tudo era feito aos gritos, no melhor estilo dos locutores esportivos, culminando com o famoso berro do GOL, quando a bolinha de rolha beijava a rede.
A balisa era feita no capricho, e recebia cuidados especiais, como traves bem lixadas e rede de filó. O filó fazia com que a bola fosse
amortecida no momento do gol, e permanecesse dentro da baliza, no fundo da rede. Tudo tinha que ser o mais próximo possível, do que acontecia num jogo de futebol de verdade.

Os jogadores de botão do meu tempo não admitiam balizas de plástico com rede de plástico duro, e muito menos b
olinha de plástico, que não quicava como as nossas fantásticas bolas de rolha.
A
industrialização dos times de botão e os adereços utilizados mais tarde descaracterizaram o espetáculo proporcionado por nossas partidas de botões, em tudo semelhantes a um autêntico jogo de futebol.



Alguns jogadores mais sofisticados construíam campos de madeira, as chamadas mesas de botão. Um dos meus amigos, o Tim, um rubro-negro fanático, p
ossuía a melhor mesa do bairro, onde o mando de campo era um fator determinante, para a sua invencibilidade jogando em casa.

Lembro-me que, na Copa de 50, s
ob a orientação do meu tio Adhemar, criamos diversos times de botões, representando as seleções, dentre as quais, Espanha, Uruguai, Iugoslávia, Itália e logicamente Brasil. Todos os botões tiveram os nomes dos jogadores colados, para que não tivéssemos dificuldades em reconhecê-los com seus nomes estrangeiros. Os goleiros foram emcapados com as cores das bandeiras dos países. Uma beleza !

O Campeonato Carioca era disputado anualmente, por mim e meu irmão, cada qual com os seus 6 times de botões. Havia também jogos de seleção, em que misturávamos nossos jogadores, Torneio Rio-São Paulo, quando criávamos times paulistas e distribuíamos entre nós, sendo o Guarani, o time de predileção do meu irmão, e o Juventus, o meu preferido.

E assim passávamos o nosso tempo de criança, ajoelhados no chão do quarto, marcando gols com as mãos nos botões, ou de pé, no meio da rua, fazendo os nossos gols com os pés ou de cabeça.
Com o pensamento no futebol e o ouvido grudado no rádio,
s sonhávamos com o que o Cozzi dizia estar acontecendo na cancha, como também era chamado o campo de jogo. O Cozzi era o grande locutor Oduvaldo Cozzi, que possuía um linguajar clássico, e que descrevia uma partida de futebol como um poeta, diante da sua musa inspiradora.
Em nossos jogos de botão imitávamos os nossos locutores favoritos, o meu era o Cozzi, mas outros preferiam o Jorge Curi ou o Waldyr Amaral. E assim, nos sentíamos personagens famosos da história do futebol, como treinadores de nossos botões e locutores vibrantes que descreviam as façanhas desses jogadores.

O rádio era a nossa inspiração, pois era através dele que acompanhávamos o andamento das partidas de futebol, como se lá estivéssemos pessoalmente, imaginando o que acontecia dentro do gramado. No intervalo, ouvíamos os comentaristas falare
m das táticas usadas, e tentávamos entendê-las bem, para aplicá-las em nossas equipes de botões.

Quando não eram as músicas, eram jogos de futebol que os rádios transmitiam, deixando marcas inesquecíveis que ainda trago na memória, dos meus tempos de criança. O rádio era aquele nosso companheiro fiel e inseparável, nos tempos idos, quando tivemos o privilégio de conviver com a saudosa Era do Rádio.

















sexta-feira, 29 de maio de 2009

Carteiras de cigarro









O rádio do vizinho tocava Pobres de Paris, enquanto agachado junto à entrada da vila, eu jogava cara ou coroa, apostando carteiras de cigarro.
O cassino se formava, sem nenhuma ostentação
maior do que uma simples moeda que faria o papel da roleta. Ela girava sobre a calçada e decidia a sorte de cada rodada de apostas.
O dinheiro eram carteiras de cigarro, que a garotada colhia nas ruas, e guardava em maços que se assemelhavam bastante às cédulas da época.
No lugar das notas d
e 1, 5, 10 ou 100 cruzeiros usava-se carteiras de cigarro com cotações variadas, que obedeciam as oscilações do câmbio das esquinas. Algumas marcas de cigarro valiam muito pouco, pois eram facilmente encontradas. Outras, bem mais raras, valiam mais, e assim se estabelecia um câmbio livre, em que as cotações variavam ao sabor das ofertas e procuras do mercado infantil.
Astória, Caporal Douradinho, Lincoln, Continental, Hollywood e outras marcas populares tinham uma baixa cotação entre a meninada, mas se aparecia cigarro americano na praça, todos faziam suas apostas, na tentativa de tomar posse daquela raridade. Mas, não era nada fácil. O dono da marca pedia alto para casar aquela jóia rara numa rodada de apostas.
Os valores eram livres, dependendo do interesse da turma de tomar posse das valiosas carteiras
de cigarros americanos. Pall Mall, Lucky Strike e outros títulos estrangeiros inflacionavam o mercado, com seus valores absurdos, estipulados por seus donos, na tentativa de quebrar a banca, provocando a cobiça dos demais jogadores.
Se o maço de cigarro era todo el
e escrito em inglês, a sua cotação era de 1 para 50, 100 ou até mais de outras marcas. Os menos valorizados serviam só mesmo para passar tempo, casando-se na base de 1 x 1. A verdade é que, quando surgiam aquelas marcas raras ou até desconhecidas, os negócios eram decididos sem a tradicional cara ou coroa, mas na base das trocas negociadas, em que cada interessado dava o seu lance, num autêntico leilão.
Tudo isso era organizado e executado pela criançada, sem interferências dos adultos. Cada guri tinha o seu cofre, com suas reservas cambiais e suas cotações bem administradas. Os locais, onde se davam as trocas e os jogos, eram as esquinas, as calçadas e debaixo dos postes, à noite. Não se esperava que a Prefeitura construísse um parquinho para servir de ponto de encontro, nem que patrocinasse alguma competição com oferta de prêmios.
A garotada sempre criava as suas próprias regras e jamais se recorria a um adulto para decidir quem estava com a razão. O gru
po se reunia e decidia ali mesmo, quem deveria pagar e a quem caberia receber, e não se discutia mais. Se alguém ousasse se rebelar contra a decisão, estava fora das futuras rodadas de negociações.
O nosso tempo era todo ocupado, não se tinha espaço para bocejar de tédio, nem lastimar da falta do que fazer. Se era tempo de negociar com carteiras de cigarros, todos se preparavam em casa, e já saíam para a rua, com suas reservas em caixas ou sacos, prontinhas para serem lançadas à sorte, num canto da calçada ou na próxima esquina.
Os jogos eram quase sempre pela manhã ou no início da tarde, para não atrapalhar o jogo de pelada, que se iniciava invariavelmente lá pelas 3 da tarde e se encerrava no início da noite.
Assim gastávamos o nosso tempo, em coleções, trocas, competições e nas tradicionais peladas de rua. A garotada brincava, gritava e comemorava cada conquista, fosse ela, na pipa, na bola de gude, nas figurinhas, nas carteiras de cigarro ou no gol da pelada da tarde.
A alegria da molecada estava sempre no ar, acompanhada muitas vezes dos chorinhos do Parque de Diversões, ou dos sucessos que, Jorge Goulart com sua Laura ou Ataulfo com sua Amélia, cantavam e encantavam toda a vizinhança.
Aquele era um tempo diferente, sem medos, sem vírus, sem milícias, sem drogas. O rádio dava o tom e a gente procurava não desafinar. Tudo era alegria e fantasia, que muitos podem ver como nostalgia, mas que, na minha memória, não passa de uma época de magia, que deixou saudades e que ficou conhecida como a Era do Rádio.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

O imortal talento de Sandoval Dias

Há 103 anos atrás, no dia 4 de maio de 1906, nascia em Salvador, na Bahia, o grande músico e uma das criaturas mais inventivas e pioneiras que conheci, o saxofonista e meu tio, Sandoval Dias.
Tendo casado com minha tia Amélia, em 6 de março de 1948, quando eu só tinha 4 anos de idade, tio Sandoval marcou a minha infância com seus hábitos pioneiros, para o menino criado na vida simples de uma família de classe média da época.

A sua condição de artista da Rádio Nacional, na Era do Rádio, já o tornava um ídolo de minha meninice, alguém que trouxe a fama do estrelato para dentro da família. Se não era bem assim, não era outra a visão que eu tinha do meu tio músico.
O seu saxofone dourado parecia, aos meus olhos de criança, uma peça de um inestimável valor, que avalizava e engrandecia a sua condição artística e musical. E se, de repente, numa reunião em família, meu tio punha-se a tocar, aí mesmo é que os meus sonhos de grandeza não tinham mais fim.

Tio Sandoval introduziu hábitos e valores, na vida da família, que eram absolutamente revolucionários para aqueles idos tempos do final da década de 40 e início dos anos 50.
Máquina de filmar e projetor reproduziam na tela os encontros em família, os batizados dos filhos, os nossos aniversários ou simples reuniões de domingo, em torno da mesa farta com a casa cheia.

Lembro-me de uma noite em que a vizinhança pôde assistir a uma sessão de cinema, num telão que meu tio estendeu do outro lado rua, onde projetou desenhos animados do Popeye e Olívia Palito e comédias do Gordo e o Magro e do Carlitos. Isso, numa época em que não havia televisão e que os cinemas ainda não haviam começado a se espalhar pelos bairros, como veio a acontecer nas décadas de 60 e 70.
A criançada ficava deslumbrada, diante daquele projetor com seus carre
téis mágicos, girando e projetando imagens, que eram lançadas através de um foco de luz numa tela branca. A emoção de poder escolher o filme que queríamos assistir, e ver os personagens que só conhecíamos das tiras de jornal ou das poucas revistinhas infantis da época, era algo indescritível e inteiramente despropositado para os tempos modernos.
E o que dizer do fato de poder assistir a própria imagem na tela,
brincando com os primos ou correndo atrás do Cipó, o cão do meu tio, que ganhou o nome em homenagem ao amigo e músico!
A casa de Paquetá, para finais de semana, foi outra iniciativa revolucion
ária do meu tio Sandoval, para aquela época, e principalmente para aquela família com uma vida rotineira e previsível.
As casas de Paquetá, lembro-me de duas delas, e nem sei se houve
outras, marcaram a minha infância, deixando lembranças que ainda hoje me fazem suspirar de saudade. As sextas-feiras à noite, ansiosas e quase angustiantes, pareciam não ter fim, encumpridando as madrugadas e criando uma expectativa deliciosa para a chegada das manhãs de sábado. O cheiro de maresia da Praça XV, o ronco do motor das lanchas ou o suave contato das pás das barcas com as águas da baía, deixavam o meu coração aos saltos, enquanto eu sorvia o frescor da manhã, a caminho de Paquetá.
As férias em Lambari foram mais uma criação do meu tio Sandoval, que con
seguiu convencer os meus pais a passarem uma semana num hotelzinho familiar e aconchegante, naquela aprazível estância hidromineral do sul de Minas. A experiência foi maravilhosa, e me deixou em estado de graça, por viajar de trem maria-fumaça, chegando à noite no hotel, e sendo acolhido com muito carinho pelos proprietários, que logo pude perceber, tinham o meu tio em alta conta.
Aprendi a admirar o tio Sandoval por esses pequenos detalhes fa
miliares, que ele, como poucos, sabia valorizar e usufruir com alegria e descontração. A sensação é que tudo era muito fácil para ser conseguido, ele parecia ter um jeitinho todo especial para descomplicar tudo e extrair prazer das coisas mais simples.
Essa recordações, e o sentimento de que o tio Sandoval foi tão impo
rtante para a minha vida, quanto o músico Sandoval, para a musicalidade brasileira, fizeram-me escrever este texto, em que presto-lhe uma homenagem pelos 103 anos do seu nascimento.
E ao som dos Boêmios, conjunto em que tocou, durante a década de 60, vou encerrando esse rosário de belas recordações da minha infância, quando
tudo começava e acabava com música.
Afinal de contas, vivi e convivi com as rotinas musicais da Era do Rádio, e ainda tive o privilégio de fazer parte do cotidiano de um dos protagonistas daquela época, o grande sax-tenor Sandoval Dias.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Sandoval Dias por Sandoval Dias

Sandoval Dias, um dos "cobras" dentre os músicos da Era do Rádio no Brasil, como foi chamado pela Revista Radiolândia, nasceu na Bahia, em 4 de maio de 1906.
Publico a declaração de próprio punho do meu tio Sandoval, em que ele, de forma simples, como era o seu estilo, conta de modo sucinto, a sua trajetória musical.
"Vim para o Rio ainda muito jovem e resolvi aprender música com meu pai, e tocando trompete, instrumento que soprei por pouco tempo, passando para o saxofone-tenor com o qual me dei muito bem, pois com pouco tempo de estudos me revelei um bom instrumentista, e fui logo convidado para participar das melhores orquestras do Rio, atuando em todos os cassinos e estações de rádio.
Em 1941, ingressei na rádio Nacional do Rio como solista de saxofone-tenor, onde permaneci at
é 1961(20 anos), quando fui transferido para a Rádio Ministério da Educação e Cultura(MEC).
Depois de uma pequena prova, ocupei o cargo de claronista(clarinete-baixo) na Orquestra Sinfônica Nacional do MEC, sob a regência do Maestro Eliazar de Carvalho.
Na época em que trabalhei na Rádio Nacional, fui também contratado exclusivo da Philips do Brasil, para gravações fonográficas durante cinco anos."

De acordo com informações prestadas por minha prima, Tio Sandoval gravou 14 LPs e diversos discos de 78rpm. Ainda contando com minha prima, como fonte de informação, os LPs seriam Um saxofone em hi-fi, Um saxofone depois da meia-noite, Dançando com Sandoval Dias, OK para dançar, Dançando com o sucesso, Sandoval Dias e seu sax dançante, Sandoval Dias e seu sax romântico, Música de Maysa, Ao encontro da música, Boleros, Ritmo de bolero, Um saxofone em ritmo de bolero, Um saxofone em ritmo de bolero nº 2 e o Brasiliana nº 7 e 8.
Em futuras postagens, pretendo comentar sobr
e cada LP, falando da seleção musical e de suas interpretaçõe, algumas delas memoráveis, como sua sensacional performance, numa das faixas do LP Um saxofone em hi-fi, interpretando Czardas, música que sempre foi um desafio para os violinistas e que se rendeu à técnica extraordinária de Sandoval e seu sax-tenor. Esta interpretação é imperdível para os amantes da música instrumental, e justifica o elevado conceito que Sandoval Dias sempre desfrutou entre os grandes maestros de sua época.

Sandoval Dias participou das grandes orquestras da Era do Rádio, dentre elas a de Fon-fon, Chiquinho, Zacarias e muitas outras, sob as regências de nomes famosos como Lyrio Panicalli, Eliazar de Carvalho e Radamés Gnatalli.
Radamés considerava Sandoval um dos grandes músicos do seu tempo, e para ele compôs uma música num estilo erudito, que Radamés preferia chamar de música de concerto, a Brasiliana nº 7, tendo gravado essa música junto com Sandoval e com sua irmã Aída Gnattalli, num duo ao piano. De Radamés, Sandoval também gravou Amigo Pedro e Pé ante Pé, e que são citadas como obras importantes de autoria de Radamés Gnatalli, que, no entanto, não podem ser comparadas com a grandeza musical da Brasiliana, dedicada a Sandoval.
No site de Leo Gandelman, um dos grandes saxofonistas modernos, o músico Henrique Cazes comenta a admiração que Radamés nutria por Sandoval e Zé B
odega, como grandes saxofonistas que eram, e ressalta a restrição que Sandoval sofria de seus contemporâneos, por não haver aderido às influências jazzísticas.
Ouvindo-se os LPs de Sandoval Dias, pode-se comprov
ar sua preferência por canções românticas e dançantes, nas quais se sentia muito à vontade para impor o seu fraseado suave e envolvente, repleto de emoção. O jazz, sem dúvida, não o atraía, nem como estilo musical, nem como forma de extravasar a sua criatividade artística, como costuma ocorrer nas famosas "jam-sessions". Se foi esse desprezo pelo jazz que atrapalhou a sua fama, talvez ninguém possa afirmar com certeza, e nem vale a pena especular. Entendo que o verdadeiro artista tem seu espaço, qualquer que seja a sua preferência musical, desde que possúa talento e sentimento para expor a sua arte. E isso não se pode negar a Sandoval Dias e seu sax-tenor.

Na década de 60, Sandoval dias participou do grupo "Os Boêmios" da Rádio MEC, ao lado de Homero Gelmim (violino), Eugênio Martins (flauta), Gabriel Henriques (baixo) Artur Duarte e Carlos Lentini (violão), Waldemar Melo (cavaquinho) e Cabore (percussão). O repertório do grupo era de música popular brasileira, misturando sambas, chorinhos, sambas-canções e valsas, com um estilo nobre de interpretar, digno dos músicos componentes de orquestra sinfônica e que compunham o grupo.

Na década de 70, Sandoval Dias aposentou-se, e passou a se dedicar à regência de Bandas, em Cordeiro e Nova Friburgo, e mais tarde, veio a assumir a função de Maestro da Banda Civil do Rio de Janeiro, função que exerceu até o ano de 1993, quando veio a falecer, no dia 6 de setembro.

Tendo como fundo musical a maravilhosa seleção do LP Um saxofone em hi-fi, que tem na capa a foto da Jayne Mansfield, vestindo um baby-doll preto, coisas da época para atrair o comprador, eu mergulhei no tempo, para escrever este texto. E nesse mergulho profundo, me vieram à lembrança saudosas recordações de uma época romântica e musical, quando tudo o que se fazia era alimentado por um fundo musical, que vinha de um aparelho de rádio.
Enquanto escrevia, eu recordei, entre outras, No Rancho Fundo, Autumn Leaves, Pensando em Ti, Around the World e a já comentada e exaltada Czardas. Era com fundos musicais que se vivia naqueles tempos idos, como costuma dizer a minha Flora, tão saudosa quanto eu daqueles inesquecíveis momentos vividos na Era do Rádio.















sábado, 14 de março de 2009

Vamos trocar figurinhas ?

Esta postagem é dedicada à minha leitora Myriam Esteves e à sua sobrinha Regina, que, ao se depararem com o Na Era do Rádio, souberam dar valor ao seu conteúdo. Encantada com a matéria sobre as balas Ruth, a Myriam descobriu meu telefone e relembrou comigo outras coleções de figurinhas, que fizeram parte de nossa infância.
A Myriam mencionou, no meio da conversa, as balas Hollandezas, que ela colecionara quando menina, e eu confessei-lhe a minha ignorância, por nunca ter ouvido falar naquelas balas. Nessa hora é que eu descobri que conversava com uma mulher, no mínimo, 10 anos mais velha do que eu, ligada na internet e interessada nessa mesma cultura popular. Que maravilha !
Desliguei o telefone, e pus-me a pesquisar sobre as Hollandezas, e descobri bem mais do que pensei, e do que, talvez, a própria Myriam pudesse imaginar que houvesse ocorrido, naqueles seus tempos de menina.
As balas Hollandezas e suas figurinhas foram lançadas em 1934, e a partir daí ocorreu uma "febre" de colecionadores, que chegou a gerar polêmica na sociedade da época. O jornal A Tribuna de Santos fez uma matéria de capa, em sua edição de 7 de novembro de 1934, com o título "Balas Hollandesas - a coqueluche da cidade". Na matéria, o jornal começou uma série de reportagens condenando o que chamava de perda de tempo e de um pseudo passa-tempo, que beneficiava a uns poucos espertalhões que lucravam com o comércio das figurinhas mais difíceis.
O jornal relatava a loucura que tomara conta de
homens, mulheres e crianças, que se reuniam em praças e esquinas, buscando conseguir as figurinhas que faltavam para completar o álbum.
As balas Hollandezas, que não são d
o meu tempo, foram as grandes precursoras das balas Ruth, essas, sim, da minha época, e que me acompanharam numa bela fase da minha infância.


As balas Ruth foram lançadas em 1950, oferecendo prêmios para quem enchesse o álbum. Eram bicicletas, bolas de futebol e outros sonhos de consumo da garotada do
meu tempo. A história comprova que saía muito mais barato ir na loja e comprar os prêmios ofertados, do que tentar ganhá-los comprando balas. E quem estava se importando com os prêmios ? O sonho de qualquer criança da época era completar o álbum com as 360 figurinhas diferentes, que viviam escondidas nas embalagens das balas Ruth. Essa empreitada chegou a ser considerada, por muitos, quase impossível, pois haviam 4 figurinhas muito difíceis de serem conseguidas : a do Açucar, a da Casa de Madeira, a da Locomotiva de 1877 e a do Shakespeare.
A ansiedade por encher cada página do álbum é indescritível para os padrões atuais. Cada bala desembrulhada e o surgimento de uma figurinha que faltava no álbum era motivo de pulos e gritos, que as crianças de hoje em dia não conseguiriam entender, e nem ver motivos para tanto. Mas, na Era do Rádio não tinha joguinho eletrônico, não se gastava tanto tempo diante de uma tela de computador tentando matar um inimigo ou roubar algum tesouro protegido por seres descomunais de feições horrorosas.
A alegria da garotada era uma boa pelada em rua de terra, jogo de botõ
es pela calçada, álbuns de figurinhas para colecionar, parque de diversões em fim de tarde e matinês em cinemas ou circos, em sábados e domingos. A televisão estava começando, e só os bacanas é que tinham poder de compra para possuir uma Zenith, Emerson ou RCA, as marcas da época.
As minhas coleções eram as imagens que eu mais prezava, e abrir um álbum e encontrar uma página completa era muito melhor que esperar o vizinho ligar a televisão para ver a Virginia Lane, de pernas de fora, comandando os Espetáculos Tonelux, ou mesmo um desenho animado do Popeye ou do Mickey.
A meninada do meu tempo gostava mesmo era de coleções. Colecion
ava-se tudo, desde figurinhas e carteiras de cigarro, até chapinhas de cerveja e gibis. E tudo era motivo para negociações de trocas e desafios para jogo, com a intenção de conquistar aquela peça faltante na nossa coleção.
Lembro-me perfeitamente de meus álbuns de Artistas de Cinema e de Jogadores de Futebol, que compunham, com o das balas Ruth, a tríade perfeita das m
inhas coleções sagradas de figurinhas.
As figurinhas dos artistas e dos jogadores não vinham enroladas em bala, mas dentro de pacotinhos fechados, e eram vendidas em bancas de jornal. Dentre as figuras dos jogadores tinham as famosas e disputadas figurinhas carimbadas, que eram difíceis de serem conseguidas e alcançavam altas cotações na bolsa de trocas. Creio que muitos desconhecem ser esta a origem do termo "figurinha carimbada", ainda hoje usada para designar uma pessoa difícil de ser encontrada, ou muito cotada na roda de amigos.

Os nossos pais também tiveram a sua época de figurinhas, que não era
m coladas em álbuns, mas guardadas como cartas de baralho, em caixinhas de papelão, caixas de charutos ou naquelas mimosas caixinhas de madeira do Matte Leão. Eram as Estampas Eucalol, que surgiram no meio da década de 20 e permaneceram no mercado até meados dos anos 60. Dessas, eu não tive coleções, mas tive contato com algumas delas, guardadas por meus pais, de forma meio descompromissada, sem pretensões a reuni-las numa coleção.
Das balas Hollandezas, eu não lembrava; para as Estampas Eucalol, eu não ligava, mas as Balas Ruth foram inesquecíveis, e têm o seu sabor retido, até os dias de hoje, na minha memória gustativa.
A minha outra memória, a visual, jamais conseguiu esque
cer os momentos em que, sentado a mesa da sala, eu colava as figurinhas no álbum, enquanto minha mãe costurava do meu lado, ouvindo os programas da tarde, na Rádio Nacional. De repente, tenho a sensação de estar ouvindo a Dalva de Oliveira começando a cantar Kalu, após os últimos acordes de Os Pobres de Paris, enquanto minha mãe cantarola junto com a Dalva, sem grandes pretensão, mas com muita emoção.
Assim era a infância dos meninos do meu tempo, talvez sabendo menos do que as crianças de hoje em dia, mas, seguramente, realizando mais, muito mais mesmo. A garotada da minha época tinha o seu calendário próprio, era cheia de iniciativas e não ficava esperando que os adultos providenciassem áreas de lazer ou construíssem campos de esporte. Nós liderávamos as nossas brincadeiras e não admitíamos as interferências dos adultos.
Eu sei que hoje é diferente, as crianças estão mais politizadas, e sabem cobrar as promessas dos governantes. Mas, talvez lhes faltem aquele espírito de liderança, para escolher onde e o que desejam fazer. São os tempos, sem dúvida, os tempos mudaram. E, afinal de contas, a geração atual não teve oportunidade de viver os sonhos que eu sonhei e levar a vida que eu vivi, pois eu nasci na Era do Rádio.