sábado, 1 de janeiro de 2011

MATINÊ E FITA EM SÉRIE

Meus nostálgicos leitores, matinê e fita em série eram programas habituais de toda semana na vida das crianças na Era do Rádio. Televisão não havia, ou estava só começando. Jogos eletrônicos e computador, nem uma coisa nem outra.
Durante a semana, pelada na rua; no domingo, matinê no cinema. Esses programas eram sagrados na minha época de menino. Um filme diferente pedia, às vezes, um programa diferente. E, neste caso, lá íamos nós ao cinema com minha mãe, eu e meu irmão, numa quarta ou quinta-feira, deixando o meu time de pelada desfalcado do seu goleador.
Na pelada, eu era o artilheiro, não havia goleiro que evitasse o gol, quando eu partia para o ataque. Na hora do par ou ímpar, eu era sempre o primeiro ou segundo escolhido. Por isso, quando surgia um programa diferente, durante a semana, meus companheiros de pelada sentiam a minha ausência. E, eu não nego que também sentia a falta deles.
Quem viveu na Era do Rádio sabe muito bem que ir ao cinema era um acontecimento na vida de qualquer garoto. Além do filme, havia todo o cerimonial do deslocamento, pegando bonde, chupando dropes de hortelã e se esticando na poltrona, gozando, algumas vezes, do prazer de um ar refrigerado. Era um senhor programa!
Minha mãe convocava a mim e ao meu irmão, e lá íamos nós para a sessão matinê, que queria dizer o mesmo que sessão da tarde. Cine Bonsucesso, um cineminha pequeno, sem muito conforto, mas muito simpático, foi onde assistimos O Cangaceiro.
Nesse dia, eu voltei do cinema deslumbrado e emocionado. A cena final custou a sair da minha mente, com o mocinho da história abandonando o cangaço a pé, enquanto o bando atirava em sua direção. Lampião desafiara o traidor do bando a caminhar, sem correr. Se conseguisse sair ileso aos tiros, estava livre.
A platéia em silêncio torcia para que ele pudesse se safar daquela, e, quem sabe, ficar com a professorinha que havia sido seqüestrada pelo bando do Lampião. Triste ilusão, o nosso herói ficou estirado no chão, enquanto as lágrimas rolavam pelos rostos da platéia desiludida com o desfecho trágico do filme. E, ao fundo, a nostalgia da canção Mulher Rendeira.
Confesso-vos, caros leitores, custei muito a esquecer as cenas finais do filme, afinal os garotos do meu tempo não estavam acostumados com essas desgraças de hoje em dia. “Olé, mulher rendeira, olé, mulher rendá. Tu me ensina a fazer renda, que eu te ensino a namorá”. Uma tarde inesquecível!
Cine São Pedro, na Penha, um cinema grandiosos, com colunas enormes na entrada. Lá fomos nós, assistir Luzes da Cidade com Carlitos. O filme é aquele em que ele está dormindo em cima de uma estátua que vai ser inaugurada. Quando descobrem o monumento, lá está o famoso e eterno vagabundo a ressonar sobre a estátua. A criançada ria, e adorava cada uma das palhaçadas que ele fazia, fugindo de perseguições, dando pontapés nos seus perseguidores e debochando de todos.
Esse não me marcou tanto quanto O Cangaceiro, mas cada qual na sua, um drama para fazer a platéia chorar, uma comédia, que nos fazia cansar de tanto rir. Voltávamos para casa, entusiasmados com o passeio. Descíamos do bonde Penha, que nos deixava pertinho da Estação de Trem, onde atravessávamos a linha, na altura da cancela, e íamos em direção à Praça das Nações, e dali tomávamos o rumo da Rua Bonsucesso.
Aos domingos, era dia de fita em série – novela para criança. A cada final de semana, um trechinho da história, com o mocinho envolvido em todo tipo de perigo, principalmente nos finais dos capítulos. Quando se imaginava que, ele não sairia vivo, eis que, na semana seguinte, ela espana a poeira da calça, e sai ileso sem nenhum arranhão.
A platéia, ocupada quase somente por crianças, vibrava e assobiava, comemorando as bravatas do herói. E novos perigos se sucediam, deixando o nosso herói, mais uma vez, em maus lençóis, até o capítulo seguinte. O cinema era o Paraíso, na Praça das Nações, em Bonsucesso, que ficava lotado nas matinês de domingo.
O meu gosto por cinema vem desde criança, quando era levado por minha mãe a ver filmes e fita em série, dias de semana e domingos, conforme ela programasse o seu dia. Minha mãe era muito programada, mas sabia surpreender os filhos com convites inesperados que poderiam ir desde uma sessão de cinema, até uma ida ao parque ou à noite a um espetáculo de circo.
Na Leopoldina, onde eu morava, cinema era o que não faltava, e a todos eu freqüentava com a assiduidade de um amante da magia das telas, nas quais eu me projetava e vivia com os atores dramas, tragédias, comédias e ficções científicas.
Perto da minha casa, eu podia contar com dois cinemas, o Paraíso e o Bonsucesso, e mais tarde com um terceiro o Cine Melo. Num bairro bem próximo, em Ramos, eram mais três, os cinemas disponíveis - Cine Ramos, Rosário e Mauá. O Ramos era um poeirinha, como chamávamos na época os cinemas pequenos, sem conforto e que não passava os filmes em lançamento. O Rosário era um belo e espaçoso cinema, enquanto o Cine Mauá era conhecido pelo grande conforto que oferecia, com um ar refrigerado de deixar a todos enregelados, e com um teto lindo, com nuvens e estrelinhas.
Entre Ramos e Penha, ficava o bairro de Olaria, onde existiam dois cinemas, o Cine Santa Helena, um cinema antigo que passou a se chamar Cine Olaria, e o moderno Leopoldina, que era novo e confortável, mas não possuía ar refrigerado, apenas um sistema de exaustão e ventilação. O Cine Leopoldina compensava essa deficiência com programação dupla, dois filmes por sessão, ao mesmo preço dos demais.
O mais moderno a ser construído na região foi o Cine Higienópolis, de tamanho médio e muito aconchegante, com uma refrigeração perfeita e cadeiras confortáveis. O cinema era arredondado e a tela acompanhava o formato circular das paredes, oferecendo uma visão panorâmica, em qualquer lugar que se sentasse. Era uma referência para a criançada dos bairros vizinhos, pois aos domingos tinha uma tradicional sessão infantil com desenhos animados de Tom e Jerry.
O último construído naquela área mais próxima a minha casa foi o Rio Palace, um cinema com um relativo luxo e com um amplo salão de projeção. Ele ficava numa galeria e passou a fazer parte das minhas tardes de cinema somente quando eu já era adolescente.
O meu amor por cinema começou na infância e se estende até hoje. Cinema, música e literatura são três paixões que trago desde a juventude, e que me transportam para um tempo em que filme se via no cinema, livro era impresso em papel e música era ouvida num aparelho de rádio.
Essa afirmação surpreende a geração moderna que assiste os filmes na TV, lê livros na tela do computador e ouve músicas num aparelhinho minúsculo que programa centenas de músicas que são ouvidas através de um egoísta par de mini-fones.
A tecnologia é uma conquista admirável, mas tudo isso tirou grande parte do encanto que a vida nos proporcionava, no meu tempo de infância. Isto porque eu tive o privilégio de ter vivido numa época de muito sonho e romantismo, a chamada Era do Rádio.

11 comentários:

Isabela Guedes disse...

Caro Gilberto,
que beleza de blog: É o RESGATE À MEMÓRIA DO RÁDIO, ou melhor digitando, é o próprio rádio "vivo" e recaixutado pela web.

Sou jornalista, tenho 29 anos de vida e AMANTE do rádio esportivo, sobretudo, da Rádio Nacional carioca(eu cheguei ao teu blog, pq buscava uma logo da RN e o senhor homenageou-a no 74º aniversário.

Gostaria por meio desta, que o senhor conhecesse o meu blog(que retrata a memória do rádio esportivo, com áudios, vídeos e histórias).

Seja Bem Vindo ao Blog do Rádio Carioca

http://blogdoradiocarioca.blogspot.com

Um grande abraço,

Isabela Guedes

Gilberto Gonçalves disse...

Oi, Isabela!
A minha resposta e o agradecimento estão no seu comentário feito na postagem sobre o meu tio Sandoval Dias.
Agradeço mais uma vez pela visita.
Abraços.
Gilberto.

Flora Maria disse...

Meu querido:
Vendo essas fotos tão antigas lembrei dos meus tempos de criança/adolescente quando, assim como você, eu era apaixonada (e ainda sou) por cinema ! Quantos filmes romanticos assisti, e saí suspirando do cinema, sentindo-me a mocinha da história...

Doces lembranças de ótimos tempos da Era do Rádio.

Beijo

Gilberto Gonçalves disse...

Minha querida, Flora:
Nos filmes que assitimos juntos, você sempre era a mocinha, e era eu que saía do cinema suspirando.
Nós assistimos belos filmes e demos maravilhosos suspiros.
Ainda hoje, diante da TV, nossos suspiros continuam. E você ainda é a minha mocinha preferida.
Beijos.
Gilberto.

Isabela Guedes disse...

Oie Gilberto, lhe enviei uma mensagem no Blog do Rádio Carioca.

Teria como vc mencionar o Blog do Rádio Carioca no teu blog?

http://blogdoradiocarioca.blogspot.com

Um abraço,

Isabela Guedes

Gilberto Gonçalves disse...

Oi, Isabela:
Aguarde, que vou encaixar o seu blog numa postagem sobre esporte. Está bem assim?
Gostei do seu estilo, e terei o máximo prazer em divulgar o blog.
Um abraço.
Gilberto.

Isabela Guedes disse...

Mto obrigada.

Bjos,
Isabela.

GERSON A ALMEIDA disse...

Amigo, me levaste aos tempos de menino. Nasci e me criei em Ramos, me lembro bem dos cinemas que frequentei. O Ramos como disse era um "pueirinha", só filmes na sua maioria, filmes da Atlântida, sem ar condicionado, cadeiras de madeira. O Rosário era bem maior, com iluminação nas paredes laterais coloridas, cadeiras duras e sem ar condionado. O Mauá, era o luxo do bairro, teto com nuvens e iluminado, com festival Tom e Jerry. Me fez voltar a minha infância. Obrigado.

Gilberto Gonçalves disse...

Meu caro Gerson:
Nasci e me criei em Bonsucesso, mas meu pai teve seus consultórios em Ramos. Ele era dentista, e seu primeiro consultório foi no Edifício Isa, na esquina da Uranos com a rua Euclides Faria.
O bonde era o meio de transporte da minha preferência, e em minhas tardes de cinema, pegava o bonde na Avenida dos Democráticos, em Bonsucesso, e ia curtir meus filmes, num dos cinemas citados.
Relembrar tudo isso, também me faz um bem enorme.
Um forte abraço.
Gilberto.

Alexandre Taissum disse...

Caro Gilberto Gonçalves, seu Blog é ótimo!
Eu gosto muito de relembrar os momentos, os lugares e as pessoas que fizeram parte do meu passado, me sinto bem quando encontro pessoas que também gostam e acredito que aqui, na sua página, encontrarei muitas outras que, como eu, fixam olhares para o nada em busca das imagens turvas que vivenciamos ainda quando jovens.
Além de cultivar com muita saudade as minhas lembranças, também gostava de ouvir as histórias que meu pai contava. Ele explorava muito as suas lembranças e me apresentava boa parte delas, porém, se dedicava a contar-me melhor as que tinha sobre os bondes e sobre os cinemas, aos quais, alguns eu não cheguei a conhecer em funcionamento.
Além de todos os Cinemas que você mencionou, ele falava muito do Cine Oriente, que situava-se em Olaria, na Rua Alfredo Barcelos, entre o atual Bradesco e o extinto Bamerindus. Hoje no local, a teimosa edificação ainda resiste em pé.
Não sei a idade do Cinema São Geraldo, que também ficava na Rua Alfredo Barcelos, mas do lado oposto da via férrea. Este cinema (S. Geraldo) eu frequentei e era um reconhecido poeirinha.
Tenho 56 anos e de todos esses Cinemas que ficavam entre Ramos e Penha, eu só não frequentei o São Pedro (Penha), o Oriente (Olaria) e o Mauá (Ramos), pois já eram extintos na minha época.
Amigo, eu te desejo muita sorte, muito sucesso e excesso de lembranças e argumentos para tocar seu Blog rumo à sua finalidade, que não resta dúvidas de ser "um filme das nossas histórias".
Obrigado!

Gilberto Gonçalves disse...

Meu caro, Alexandre:
O passado é a estrutura da construção de nossas vidas.
Quem, como eu, teve uma infância e juventude feliz, não pode se permitir ignorar os ambientes que contribuíram para esse sentimento.
Este blog foi criado com essa intenção de valorizar um tempo, que eu não deixei para trás, mas que carrego comigo pela vida afora.
Espero que possa se encontrar consigo mesmo, em cada postagem, pois sentimentos não têm idade.
Eu coloquei nas minhas postagens, um pouco das minhas lembranças e muito das emoções.
E, sem dúvida, os cinemas da Leopoldina fazem parte da minha história.
O Cine Oriente não me é de todo estranho, mas não frequentei. O mesmo se dá com o São Geraldo. Mas, O Paraíso e o Bonsucesso, em Bonsucesso, o Rio Palace,o Ramos, o Rosário e o Mauá, em Ramos, o Santa Helena, que se tornou Olaria, e o Leopoldina, em Olaria, e o São Pedro, na Penha foram frequentados infinitas vezes.
Grato por trocar comigo essas figurinhas do passado.
Um forte abraço.
Gilberto.