sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

O início da invasão americana


Desde o primeiro dia do mês de setembro do ano de 1939, o mundo estava em guerra, com parte da Europa sendo ocupada pelas tropas alemãs. No dia 7 de dezembro de 1941, o Repórter Esso, "testemunha ocular da história", na voz do seu mais fiel locutor, o radialista Heron Domingues, anunciava que os japoneses haviam bombardeado a base militar americana de Pearl Harbor.
No dia primeiro de janeiro de 1942, em outra edição extraordinária, o Repórter Esso anunciaria que as tropas norte-americanas entravam na guerra. Os Estados Unidos da América do Norte, por causa do bombardeio japonês a Pearl Harbor, declararam guerra ao Japão e aos seus aliados Itália e Alemanha, provocando o maior conflito mundial de todos os tempos.

Esses fatos não fazem parte das minhas memórias de guri, já que o meu na
scimento só viria a ocorrer dois anos mais tarde, em fevereiro de 1944. Mas, as lembranças desses acontecimentos, que me chegaram por relatos e leituras, servem como preâmbulo para a introdução de meus comentários sobre uma das publicações mais famosas no mundo inteiro, a revista SELEÇÕES do Reader's Digest.
Transcorrido apenas um mês depois da entrada dos Estados Unidos na guerra
chega ao Brasil, no mês de fevereiro de 1942, a revista SELEÇÕES, que havia sido lançada em seu país de origem no ano anterior, com a intenção de oferecer "artigos de interêsse permanente condensado em formato de livro", como constava literalmente na página 1, do primeiro número publicado no Brasil.
Os povos no mundo inteiro, pelo menos daquelas nações que apoiavam os exércitos aliados, passaram a consumir com entusiasmo, e um exagerado patriotismo, os artigos repletos de exortações nacionalistas das páginas de SELEÇÕES.
O nº 1 da edição brasileira foi lançado ao preço de 2$000, valor monetário que se lia como dois mil réis, e teve na sua primeira página um artigo assinado pelo famoso romancista escocês A.J.Cronin, autor de clássicos como O Castelo do Homem sem Alma e A Cidadela.
Em su
a Edição de Livros, uma seção que se tornou famosa com o tempo, a revista contou a história de Madame Curie, a cientista polonesa, que junto com o marido, descobriu o rádio, um elemento químico de enorme importância no estudo da radioatividade.
No alto de sua capa, SELEÇÕES anunciava uma tiragem mundial de 5.000.000 de exemplares, o que certamente deveria ser um número astronômico para a época. Naquele momento estava tendo início a invasão americana no Brasil. Uma invasão sem soldados, nem tanques, mas que atingiria com grande eficiência as nossas ingênuas defesas, inflingindo grandes perdas às nossas raízes históricas e à nossa retaguarda cultural.

Naquele fevereiro de 1942, certamente não tivemos uma edição extraordinária do Repórter Esso, noticiando uma invasão sócio-cultural norte-americana ao Brasil, nem ouviu-se tiros e estrondos de bombas ameaçando os lares brasileiros. As consequências daquela guerra só foram sentidas anos mais tarde, quando percebeu-se que "o modo de vida americano" havia tomado conta de nossas vidas e ocupado nossas mentes e nossos hábitos.
A grande realidade é que
, desde que os norte-americanos entraram na guerra, eles passaram a ser vistos como grandes heróis, imbatíveis e quase imortais. A partir daí, as pessoas começaram a confundir os interesses do povo brasileiro com os do povo norte-americano, achando que tudo era a mesma coisa.

As revistas em quadrinhos exaltavam o poder da nação norte-americana e os feitos dos seus soldados. Surgiram super-heróis que expressavam todo esse poder, e que passaram a ser símbolos da liberdade e da justiça, idolatrados a partir da infância. Certos gibis da época, como Capitão América e outros, incutiam em nossas mentes infantis que, o que era bom para os Estados Unidos era bom para o Brasil.
Na capa do primeiro número, em sua edição norte-americana, o Capitão América, simbolizando a própria nação norte-americana, apar
ece dando um soco em Hitler, num simbolismo que dispensa qualquer comentário.

Cada revista tinha o seu público alvo muito bem definido.
O Capitão América vendia a imagem da força do povo norte-americano às crian
ças do mundo inteiro que, sem terem noção do que estavam fazendo, passaram a imitar tudo que ele viesse a dizer e a fazer. Enquanto as crianças eram seduzidas com as artimanhas em quadrinhos, dessa sutil e engenhosa propaganda, os adultos eram atraídos para a leitura de artigos e textos condensados, que exaltavam a sociedade e as instituições norte-americanas, idolatrando suas figuras históricas.
As SELEÇÕES exerceram uma função notável de propaganda subliminar, incutindo nas mentes da classe média brasileira que os Estados Unidos da América s
eriam a nação em que todos deveriam confiar, para que se sentissem seguros e protegidos.
Essa política de boa vizinhança, na qual se deveria aceitar tudo que viesse do vizinho, sem questionar direitos ou valores, tomou conta da minha infância e me fez crescer ouvindo meus pais exaltarem o modelo
americano, desprezando todos os países que se insurgissem contra a liderança incondicional dos Estados Unidos.
Os meus heróis eram "cowboys", que não tinham nada a ver com a minha realidade infantil. Roy Rogers, Gene Autry, Rocky Lane, Hopalong Cassidy, Ken Maynardi, Rex Allen, eram nomes estranhos aos nossos ouvidos, porém figuras admiradas nos desenhos das revistas. As piadas eram estrangeiras, mas nós aprendíamos a rir delas, nem que fosse para estar sempre na moda. Gabby Hayes era um velhote manhoso e esperto, que fazia a gurizada rir com suas atitudes e trejeitos, que tinham tudo a ver com o jeito norte-americano de provocar o riso, e que foi sendo incutido em nossas mentes, como a melhor maneira de fazer graça. Annie Oakley era a mulher corajosa, que tinha uma pontaria certeira, montava a cavalo melhor do que muito homem e que possuía uma beleza de fazer inveja a qualquer menina.
Com isso, imitav
a-se o herói e a heroína que não tinham nada a ver com a nossa forma de vida. A figura de Búfalo Bill era exaltada como o corajoso batedor que matava índios maus, mas só os maus, e que eram quase todos, segundo o que a história nos contava.
Esses gibis e as revistas de SELEÇÕES fizeram parte da minha infância e juventude, sem que eu me desse conta das falsas verdades que eu vinha consumindo, como se fôssem padrões ideais de comportamento.
As mensagens de adulação ao povo brasileiro tomaram conta das principais propagandas, durante os primeiros números de SELEÇÕES, fato que, na época, ninguém se dava conta, já que estávamos em plena guerra, na qual o inimigo comum,
o nazismo de Hitler, tinha de ser combatido e eliminado a qualquer preço.
As propagandas nas páginas de SELEÇÕES eram mensagens de conteúdo político, buscando seduzir o povo brasileiro, fazendo-o acreditar que cada uma das empresas anunciantes era parte do poderio americano, que tinha como ideal pr
oteger as nações amigas.
A Westinghouse usava o título Em defesa da Liberdade, e afirmava : " A Westinghouse, empresa que assenta nos alicerces do espírito inventivo, reconhece na liberdade humana o maior fator capaz de, só por si, levar ao caminho do progresso a humanidade...Os produtos saídos das fábricas da Westinghouse são produtos da liberdade".
A Bausch & Lomb usava a
imagem de Simon Bolívar, sob o título O Libertador que Não se Libertou, alegando que ele "como latino-americano típico, escravizou-se para benefício daqueles a quem tinha libertado".
A RCA Victor falava aos "Bons Vizinhos em contacto mais íntimo que nunca", e prosseguia afirmando que a solidariedade deste hemisfério é agora mais vital do que nunca.
A Royal, a máquina de escrever nº 1 do mundo, dizia "fomos
sempre bons vizinhos do Brasil !"
A
Zenith homenageia Santos Dumont, que todos nós sabemos que não é considerado pelos Estados Unidos como o Pai da Aviação, com uma frase feita com nítidos interesses comerciais " O mundo renderá preito eterno à memória do audacioso Santos Dumont, filho imortal do Brasil."
A classe mais rica tinha o anúncio do novo Studebaker Skyway 1942, prometendo conforto e economia de combustível, o que era fundamental em tempo de guerra.

A invasão norte-americana ao nosso território começou ali, naquele ano de 1942, quando a propaganda de guerra entrou em nossos lares, as ingênuas famílias de classe média, que passaram a educar seus filhos segundo os padrões e conceitos convenientes aos interesses da sociedade norte-americana.
Com o passar do tempo, a guerra acabou, os territórios foram libertados, mas a população mundial jamais recuperou a sua plena liberdade. A invasão prosseguiu pelos anos seguintes e, ainda hoje, quase todos os povos do mundo sofrem com a inter
ferência dos interesses norte-americanos em seus hábitos de consumo. Lanchonetes, supermercados, lojas de departamentos, cartões de crédito, crediários, modas, modernismos, shopings, financiamentos, crédito fácil e outros vírus menos famosos, mas não menos perigosos, continuam contaminando a saúde de nossa sociedade, ainda atrelada aos interesses norte-americanos.
Na Era do Rádio, o lançamento da revista SELEÇÕES foi visto como um grande progresso no acesso às informações sobre o que se passava no mundo lá fora. O Repórter Esso noticiava os fatos da guerra, e nós, nos aprofundávamos sobre os acontecimentos, lendo SELEÇÕES.
Era no rádio que todos buscavam notícias sobre os bombardeios nazistas sobre Londres, mas era em SELEÇÕES que se buscava entender os motivos da guerra.
Era no rádio que se encontrava entretenimento para se esquecer que havia uma guerra, mas era em SELEÇÕES que se encontravam as piadas mais atuais nomundi inteiro.
Eu nasci no ano anterior ao do fim da guerra. Meus pais enfrentaram racionamentos e medos de um colapso de alimentos, que pudesse pôr em risco o futuro da família. Meus pais viveram momentos de aflição, entre as expectativas de novas batalhas e a proximid
ade da minha chegada a este mundo.
As estações de rádio só falavam da guerra, das batalhas e dos mortos.
Uma notícia, porém, deixou de ser dada, a da invasão norte-americana ao território brasileiro, com o lançamento de uma panfletagem americanista que se estende até os dia de hoje, cuja precursora foi a revista SELEÇÕES Reader's Digest.
Quando isso começou, eu ainda nem havia nascido, mas foi num mês de carnaval, do ano de 1942, ano em que os blocos de rua e os corsos saíram cantando "Ai, que saudades da Amélia", "Aos pés da cruz", "Emília", "Nega do cabelo duro" e "Praça Onze".
Dessa vez, eu acho que mergulhei demais no passado, mas, afinal de contas, esse espaço é da Era do Rádio, que começou bem antes de eu ter nascido. E, afinal de contas, tudo que aconteceu naquele ano de 1942 afetou de alguma forma a minha vida mais tarde. Ainda bem que, apesar da guerra, existia o rádio para alegrar o ambiente, e em fevereiro sempre tinha o carnaval com suas marchinhas, serpentinas, confetes e a inesquecível lança-perfume.
Quando eu nasci tinha uma guerra, mas ainda bem que nasci na Era do Rádio.





quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Sandoval Dias - Em ritmo de bolero nº 1

Sandoval Dias, um dos grandes saxofonistas da Era do Rádio, entrou na minha vida no dia 6 de março de 1948, quando se casou com tia Amélia, irmã de minha mãe. Havia poucos dias que eu completara 4 anos de idade, uma criança é verdade, mas com todos os meus neurônios de plantão, registrando, na memória, a festa do casamento, na casa do meu avô.
Naquela época, eu ainda não tinha idéia do quanto meu tio Sandoval iria deixar o seu selo musical em minha discoteca.
A minha memória me arrasta para o batizado da minha prima, quase um ano depois, quando passamos o domingo na casa do meu tio. A minha mente não se esqueceu até hoje do êxtase pro
vocado pela visão do sax dourado que tio Sandoval trazia pendurado ao pescoço.
A família pode ouvir naquele dia, em plena sala de visitas, o som suave e romântico daquele sax-tenor, que juntava notas e sentimentos, em ritmo de bolero.
O meu tio era um virtuoso em instrumentos de sopro, de uma técnica esmerada e intimista, fosse a música um clássico ou popular. Mas, poucos músicos tinham como
ele a intimidade com o som dançante, o bolero em particular.
As lembranças do meu convívio com tio Sandoval irão sendo, aos poucos, relatadas aqui, sempre em ritmo de bolero. E, ao mesmo tempo, vou divulgando o seu trabalho e a sua história, pois Sandoval Dias não recebeu da crítica, até hoje, todo o reconhecimento do seu valor, ao contrário do que acontece com os aficionados da música instrumental, que só têm palavras de elogios à sua carreira musical.
Mas, pouco, muito pouco, se encon
tra na história do rádio, a respeito da carreira e do talento musical de Sandoval Dias.
Meu tio era baiano, e como dizia o cômico Mário Tupinambá, "sô menino, baiano burro nasce morto", com ele fazendo eco, o não menos baiano, e bem mais conhecido Zé Trindade. Pois é, meu tio Sandoval também era baiano, e muito inteligent
e e talentoso. Muito jovem, foi para o Rio de Janeiro, onde decidiu aprender, com seu pai, a tocar trompete, mas logo se encantou com o sax tenor, e não o largou mais.
Não
demorou muito a se destacar no meio artístico, participando das principais orquestras do Rio, tocando em cassinos e estações de rádio. Em 1941, meu tio ingressou na Rádio Nacional, onde permaneceu por 20 anos, até que, em 1961, se transferiu para a Rádio MEC, ocupando a função de claronista, na Orquestra Sinfônica Nacional do MEC, sob a regência do Maestro Eliazar de Carvalho.
Os seus primeiros discos foram editados na época em que trabalhava na Rádio Nacional, pela gravadora Philips do Brasil, de quem foi contratado como artista exclusivo, por um período de 5 anos. Os LP´s gravados por tio Sandoval foram 14 ao todo, além de alguns discos 78 rotações, quase todos muito tocados na época, em festas e reuniões dançantes.
Todo mundo se lembra de Waldir Calmon e os seus "Feito para dançar". De Ray Conniff, então, a turma do meu tempo não conseque esquecer. Quem nas décadas de 50 e 60 não dançou ao ritmo bem marcado da orquestra de Ray Conniff ? Ninguém consegue esquecer a sua primeira dança, assim como diversas outras primeiras vezes, e, sem dúvida, a dança há de ter sido embalada por um daqueles famosos LP's S'alguma coisa...S'Wonderful, S'Marvelous, S'Nice, S'Concert, S'Hollywood, S'Music, S'Love. Que loucura, dançar ao som da orquestra de Ray Conniff !
O entusiasmo não era menor, quando a dança era embalada em ritmo de boleros por Sandoval Dias e seu Conjunto, o que, até hoje, não é esquecido pelos verdadeiros amantes da dança e do bolero, o que, no meu tempo, era quase uma redundância. Não se concebia, na Era do Rádio, um baile sem o ritmo do bolero. Os principais e mais famosos cantores cantavam boleros. As orquestras mais tocadas no rádio tocavam boleros.
Sandoval Dias foi, certamente, senão o maior executor de boleros, um dos melhores. O seu fraseado suave e
aveludado, soprado na palheta do sax, embalava os pares enamorados, ao ritmo de boleros.
A revista Radiolândia publicou, em 1958, um artigo em que Sandoval foi considerado um dos 5 "cobras" em hi-fi, ao lado de Paulo Moura, Cipó, Darci Barbosa e o pianista José Marinho. Ele tocou ao lado de Pixinguinha, fez parceria musical com Altamiro Carrilho e se apresentou com a orquestra de Zacarias, que era seu vizinho, na avenida Paris, em Bonsucesso, onde moravam na década de 50.
O músico Sandoval Dias foi não só um instrumentista de música popular, mas também um solista de música clássica. Ele solava um bolero ou um samba com raros requintes de harmonia, e com a mesma maestria atingia sonoridades perfeitas tocando um Bethoven, Mozart, Bach ou Villalobos. O seu fraseado clássico e intimista se transform
ava, muitas vezes, num toque ousado e acelerado, como em sua interpretação para Czardas, um desafio para qualquer violinista, e muito mais para a embocadura de um saxofonista.
A interpretação de
Sandoval para Czardas é antológica, e só ela seria suficiente para alçá-lo à condição de um dos maiores músicos da sua época. Czardas faz parte do LP "Um saxofone em hi-fi", na época em que hi-fi era o suprasumo da qualidade de som, a altafidelidade que todos buscavam em seus aparelhos de som.
Sandoval Dias faleceu em 1993, mas ainda hoje está vivo na memória de muitos daqueles que, como eu, nasceram
, cresceram e namoraram na Era do Rádio, sonhando e dançando em ritmo de bolero.



sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Num domingo qualquer

Num domingo qualquer, perdido no tempo, mas gravado na memória, lá estava o rádio do vizinho ligado no tradicional programa dominical, que tinha como prefixo musical a valsa Branca.
A vila onde eu morava se enchia do sons que jamais seriam
esquecidos, por retratarem uma época em que música era sinônimo de melodia e ritmo tinha que ter harmonia. Os acordes suaves e melodiosos da valsa de Zéquinha de Abreu não podiam jamais ter ganho versos, pois a sua cadência harmônica não devia ser ofuscada por palavras ou vozes. A versão que era tocada no rádio era instrumental e não me deixava desviar a atenção de cada nota lançada no ar.
Naqueles tempos, as músicas de carnaval marcavam as épocas, não deixando muito espaço na memória, para as canções de meio de ano, como eram conhecidas aquelas que não eram gravadas para os carnavais.
Branca foi uma exceção na minha vida, não havia como esquecê-la, ela se impregnou nas minhas lembranças e repercutiu com tamanha profundidade em minha mente que, até hoje, não posso ouvi-la sem recuar no tempo, até um domingo qualquer da minha infância, nos anos 50.
Num desses domingos, me ficou retid
a uma outra lembrança, esta de cunho futebolístico, que até hoje relembro com certa emoção.
A televisão naquela época estava engatinhando, e poucos tinham o privilégio de possuir um aparelho de TV em casa. A TV Tupi alimentava a telinha com filmes, pequenos musicais, desenhos animados e umas partidas de futebol, reunindo n
as salas das famílias mais abastadas, crianças de olhinhos brilhantes e boquiabertas, com sorrisos congelados no rosto, como se estivessem hipnotizadas.
As pessoas do meu bairro que possuíam aparelhos de televisão eram consideradas ricas, pelos padrões da época. Ricas, elas não eram, mas seriam bem mais do que re
mediadas, como costumáva-se classificar a classe média.
Ricas, ou bem de vida, essas famílias eram simples e acessíveis, abrindo suas portas para os curiosos vizinhos, que se deslumbravam com programas ingênuos e desenhos animados recheados de cantorias e danças, que não eram o nosso sonho de consumo, mas que passavam sem restrições pela censura das c
rianças, inclusive dos garotos.
A Betty Boop cantava e dançava. Os Sobrinhos do Capitão faziam coro berrando uma melodia sem graça, que levava a criançada ao riso fácil. Virginia Lane, com suas pernas de fora, encantava os velhinhos sassaricando na Porta da Colombo e os nem tão velhos vizinhos da minha rua, que babavam diante de mais um E
spetáculos Tonelux.
Os jogadores de futebol eram mitos, vistos e admirados à distância pela meninada da minha rua, pois a televisão não os expunha abertamente como nos dias de hoje, pois os jogos televisionados só eram assistidos por muito poucos. O contato mais próximo que tínhamos com nossos ídolos era do alto da arquibancada ou esprimido contra o alambrado do campo do Bonsucesso, quando era dele o mando de campo.
Num desses domingos, quando o Bonsucesso receberia o Fluminense, os carros começaram a chegar, trazendo o público que vinha assistir o jogo. Como eu morava numa rua próxima ao campo do Bonsucesso, os automóveis iam estacionando ao longo do meio-fio, por toda a extensão da rua. De repente, quem sai de dentro de um desses carros que acabara de estacionar ? Nem mais, nem menos, do que o goleiro Castilho e o zagueiro Pinheiro. A proximidade daqueles dois craques, jogadores da seleção brasileira, me deixou em estado de graça, apesar de bater no meu peito um coração flamenguista.
A emoção não era clubista, nem fanática, como acontece nos dias de hoje, quando torcedores de clubes rivais se enfrentam e se agridem, a troco de nada. A garotada do meu tempo de menino admirava e respeitava os craques dos times adversários, como Ademir, Jair, Barbosa, Castilho, Píndaro e Pinheiro. Esses eram festejados e colocados nos mesmos pedestais de Dequinha, Rubens, Benitez e Evaristo, os meus ídolos rubro-negros.
A sensação de ter chegado tão perto dos craques tricolores ficou na minha memória, e a imagem dos dois, depois de sairem do carro e seguirem em frente, conversando naturalmente, como qualquer ser mortal, ainda permanece viva até hoje.
Dali até o campo do Bonsucesso era um caminhar curto e breve, e lá foram os dois, enormes e musculosos, dando a
mim, um garotola de menos de 10 anos, um sentimento de nanico. A fama dos atletas e a emoção que senti aumentaram, na certa, alguns metros de suas alturas, tornando-os maiores e mais fortes do que eram. Mas, as crianças registram os acontecimentos pelos olhos dos sonhos e das fantasias de seus infantis devaneios, pouco se importando com a realidade e a lógica dos adultos.
Voltei para casa, a fim de me preparar para ir ao jogo, na certeza de que veria a partida do Bonsucesso contra o Fluminense com outros olhos. Em campo, pelo lado tricolor, Castilho, Píndaro e Pinheiro. Julião, Bibi e Gonçalo, na defesa do rubro-anil leopoldinense. Nos altofalantes do estádio da Avenida Teixeira de Castro, o hino que fazia com que a pequena, porém valorosa torcida, vibrasse de orgulho do seu segundo time. Todos torciam para um time grande, tendo o Bonsucesso como seu segundo clube do coração.
"Para a torcida rubro-anil palmas eu peço...em cada esquina quem domina é o Bonsucesso".
A valsa Branca me embalava as manhãs de
domingo, o hino do Bonsucesso me fazia um aguerrido torcedor na parte da tarde. À noite, bem à noite, cansado e feliz da vida, o melhor a fazer era dormir cedo, pois no dia seguinte tinha escola.
Assim era na Era do Rádio, quando tudo começava e acabava com música. E feli
cidade era produto de fácil consumo, sem custar caro, nem dar muito trabalho.

domingo, 5 de outubro de 2008

Que saudade da professorinha !

"Que saudade da professorinha que me ensinou o beabá!"
Lá estava ela, na entrada da sala de aula, à minha espera. Meia dúzia de degraus me separavam da professorinha e do início da minha alfabetização. O sorriso dela me acalmou e me deu a certeza de que eu era bem vindo.
O ano era o de 1951, ano seguinte ao do fracasso do nosso futebol diante dos uruguaios. Isto me acompanhou durante toda a infância e boa parte da minha adolescência. A perda da Copa de 50 passou a ser referência de uma época.
E lá estava eu, um menino encabulado, frente ao portal da sua alfabetização, com sua pasta de couro guardando apenas um caderno, um lápis com borracha e um apontador. A merenda estava acomodada num canto da pasta, protegida por um guardanapo de pano que escondia um pão com ovo e uma maçã.
D.Palmira deu-me as boas vindas, e eu logo senti que ia ser fácil aprender a ler com aquela professora de voz mansa e gestos suaves. O Colégio tinha nome do santo xará dos meus avós, Santo Antônio, e ficava na rua Baturité, uma ruela pequena no bairro de Bonsucesso. Ali estudei até concluir a 4ª série, ganhando medalhas a cada final de ano, que eram colocadas no meu peito pela professorinha, orgulhosa do seu melhor aluno.
Aprendi tudo com muita facilid
ade, lendo e escrevendo, fazendo caligrafia e tirando nota 10 nos ditados e interpretações.
As carteiras eram duplas e as pastas ficavam pousadas numa prateleira debaixo da mesa, onde muitos iam em busca de cola, quando era dia de prova. Sentavam dois alunos em cada carteira, e era um tal de espichar os olhos na tentativa de saber o que o colega havia respondido para esta ou para aquela pergunta. Alguns esticavam a mão por baixo da carteira, t
entando abrir o livro, e se eram pegos ficavam sem a prova e com uma nota zero na caderneta.
O cheiro do couro da minha pastinha humilde, eu ainda o sinto, como naqueles primeiros dias de aula, quando tudo era novo na minha vida e eu não tinha noção da i
mportância que aqueles momentos representariam para o meu futuro
No recreio, os meninos de um lado e as meninas do outro brincavam de
casamento japonês onde ,ora uns, ora outros, buscavam criar um casal ideal, escolhendo com quem gostariam de casar. As meninas eram muito mais ousadas, e os meninos meio encabulados se deixavam arrastar pelo braço das sedutoras conquistadoras.
Como disse o nosso saudoso Ataulfo Alv
es, eu fico a me perguntar "onde andará Mariazinha, meu primeiro amor, onde andará?" Não importa o nome dela, todos nós tivemos uma Mariazinha, que foi o nosso primeiro amor. Terezinhas, Vanices e Marlenes atravessaram o meu caminho de menino, moldando a figura da Mariazinha, exaltada na canção do Ataulfo.
Namoro mesmo, nem pensar! Suspiros, coração apertado, um gaguejar incômodo, eram sinais suficientes para se ouvir o coro :"tá namorando". Garoto nenhum assumia o seu amor, muito menos que estava namorando. Os amores eram platônicos, m
as tão platônicos, que não se tocava nem na mão da musa inspiradora dos nossos sonhos.
A nossa literatura romântica ficava restrita ao livro escolar "Meu Tesouro" e às revistas Vida Infantil e Vida Juvenil, com seus caprichados almanaques de final de ano. Os Sobrinhos do Capitão eram mais admirados por aqueles guris mais safados e moleques, que adoravam as confusões provocados pelos heróis da história. O meu gosto se voltava mais para o Pituca, um macaco levado mas não muito, e Lourolino e Remendado, um papagaio esperto e um
a tartaruga molenga, mas cheia de macetes.
Os adultos da época liam "O Cruzeiro", que trazia a figura cruel e tirana, mas simpática e
maliciosa, do inesquecível Amigo da Onça. As crianças encontravam nas páginas da revista os maiores escândalos e os comentados crimes da sociedade, como o casamento do homem branco com a índia Diacuí e o badalado crime do Sacopã, envolvendo o tenente Bandeira. Os nossos olhinhos se arregalavam com as fotos sem censura, mostrando os seios à mostra da Diacuí e os detalhes do romance proibido do tenente acusado de assassinar sua amante Marina.
A literatura infantil ficava por aí, pelo menos nos meus dois primeiros anos escolares, enquanto a pelada na rua depois das aulas era o lazer imperdível do dia-a-dia. A vida transcorria como se tudo se repetisse, num melancólico e insosso cenário de subúrbio, que nos dias de hoje receberia toda sorte de crítica de psicólogos e pedagogos, mas que para a nossa meninice era o Paraíso na Terra.
Todo esse enredo que fazia parte de um roteiro repleto de magia tinha, como tudo que acontecia na Era do Rádio, o seu fundo musical. Do rádio lá de casa, ouvia-se a vedete Virginia Lane cantando Sassaricando, com seu comentário apimentado sobre os velhos na porta da Colombo que estariam sassaricando. Um escândalo ! Do rádio do vizinho, chegava a voz de Marlene, numa prévia para o carnaval de 1952, abrindo a voz para anunciar que lá vem Maria com uma lata d'água na cabeça.
O tempo passava e a gente nem notava, só pensando no dia seguinte, que certamente seria melhor do que o de hoje, que já foi muito bom. Assim as coisas aconteciam na Era do Rádio, com músicas de fundo e uma insustentável leveza no ar...


domingo, 28 de setembro de 2008

O pregão que mexia com as bolsas

-Vaaassoureiroooooo.
Este pregão era um prenúncio de uma queda nas bolsas. Nada que interferisse em ações ou dólares, apenas uma pequena retirada de alguns mil réis das bolsas dos moradores da minha rua.
O vassoureiro era uma figura tradicional dos meus tempos de criança, perambulando pelas ruas do bairro e apregoando as suas mercadorias.
As donas-de-casa sempre guardavam algumas economias para investir na compra de vassouras e espanadores.
Não havia supermercados naquela época, e mesmo os armazéns não conseguiam competir com o tradicional vassoureiro. Aquele pregão mexia com as bolsas das madames, que iam até o portão, assim que ouviam o pregão e, sem temer perdas, investiam na limpeza da casa.
Um outro pregão tradicional naqueles meus tempos de menino era o do garrafeiro. O que circulava pela minha rua, apregoando a compra de garrafas vazias, era um senhor português rechonchudo, que lembrava um Papai Noel de aparência descuidada, com o seu saco nas costas.
O pregão do garrafeiro, ao contrário do vassoureiro, trazia retorno imediato dos investimentos, à medida que as garrafas oferecidas eram bem aceitas pelo garrafeiro. Nem todas garrafas eram negócios garantidos, o garrafeiro como qualquer investidor escolhia onde o investimento era mais seguro. As donas-de-casa regateavam os valores ofertados, tentando valorizar suas garrafas, e recuperar assim os gastos que tinham com o vassoureiro.
As bolsas na década de 50 continham as reservas da família, e as ações mais valorizadas eram as que equilibravam os orçamentos domésticos, por isto um trocado conseguido na venda de garrafas vazias podia ajudar na compra de vassouras.
Os pregões não ficavam só por conta de vassoureiros ou garrafeiros, muitos outros corretores tentavam vender seus títulos na Bolsa de Mercadorias, que eram as ruas de terra do bairro onde eu morava. Aquelas mesmas ruas que eram feitas todas de chão, e que levantavam um poeirão, quando passava um automóvel.
O vendedor de frutas apregoava suas laranjas, maçãs e bananas. A vaca leiteira buzinava e convocava a vizinhança para a compra do leite, em garrafas de vidro ou leiteiras de alumínio. O baiano, vestido de branco, carregava seus manjares, cocadas e cuscuz, e apregoava a excelência dos produtos. O tripeiro com seu cavalo branco, e a passos lentos, ia tentando convencer a todos para que investissem nas peças de fígado, rins e tripas, que ele mantinha bem conservadas, numa caixa cheia de gelo.
Esses pregões eram os que mexiam nas bolsas e nos bolsos, nos idos da década de 50, durante a romântica e sonhadora Era do Rádio.
A meninada acompanhava aquele comércio do bairro com uma certa curiosidade, mas sem se envolver muito com os investimentos e as ações da família, que ficavam por conta das mães, tias e avós, que eram as encarregadas de lidar com os pregões.
Mergulhado na leitura dos gibis da época, eu ouvia ao longe os pregões, mas não desgrudava os meus olhinhos dos quadrinhos do Fantasma, do Mandrake e dos mocinhos que combatiam os bandidos nas páginas e nas fantasias dos meus sonhos. O que mexia mesmo comigo era o barulho da bola de borracha quicando nas rua, e a gritaria da turma me chamando para a pelada. Esse pregão me atraía mais do que qualquer outro, e lá ía eu investir o meu tempo nas ações de rua, driblando, chutando e gritando gol.
Minha mãe ocupada nos seus afazeres domésticos, cozinhava o almoço, costurava as nossas roupas ou encerava a casa. O rádio, bem, o rádio era o testemunho de todos esses pregões e ações, transmitindo notícias, tocando músicas e irradiando jogos.
Durante o dia, ouvia-se a Rádio Nacional ou a Tupi, que também tinha os seus programas musicais, como o Cacique no Ar, com orquestra, coral e artistas, apresentando-se ao vivo, e fazendo o seu pregão musical. À noite, Nacional e Mayrink Veiga eram as preferidas, com as novelas, as crônicas e os programas humorísticos.
Entre um Amendoim Torradinho, na voz da Ângela Maria, e um Beijinho Doce, com a Adelaide Chiozzo, nós íamos registrando na alma, aqueles momentos inesquecíveis da Era do Rádio.
Só mesmo quem viveu aquele tempo, pode saber do que estou falando.
À tarde, já de banho tomado, e ouvindo ao longe um chorinho, vindo dos altofalantes do parque de diversões, eu cercava a carrocinha da Kibon, e escolhia um Tom-bom de limão, um Kalu de abacaxi, um Jajá de côco ou um Chica-bom de chocolate. Se o dia estivesse mais frio, a pedida era o Eskibon, uma delícia de chocolate, embalado numa caixinha.
Bons tempos aqueles, em que os pregões mexiam com as bolsas, mas não provocavam crises, nem causavam depressões.


segunda-feira, 15 de setembro de 2008

As ruas do meu tempo eram todas feitas de chão

"As ruas de Curvelo são todas feitas de chão, quando passa um automóvel alevanta um poeirão". "A poeira de Curvelo não faz mal pra ninguém não, de pulmão lá ninguém morre, o que mata é o coração".
Com esses versos nostálgicos e reveladores do seu jeito mineiro de ser, o compositor Luiz Cláudio recorda a sua cidade natal.
Pegando carona num trem bom que não dá pra deixar passar, eu me atrevo a plagiar esse canto mineiro, incorporando a sua imagem aos meus cantos de criança.
As ruas do meu tempo também eram todas feitas de chão, e nelas a garotada batia a sua pelada a toda hora do dia. As ruas do meu bairro alevantavam uma poeirada danada, no meio da gritaria.
Mas, se um automóvel, de repente, apontava na esquina alevantando uma poeira diferente, um grito interrompia a pelada - "olha a rádio"- e era um corre-corre medonho, para se esconder da polícia e salvar a bola do jogo, que era carregada pelo mais afoito e veloz da turma.
A rádio era como se chamava na intimidade o carro da rádio-patrulha que policiava as ruas naqueles tempos, e que tinha uma implicância doentia com o inocente jogo de pelada nas nossas ruas de chão.
A gurizada, como o camelô da música do Billy Blanco, vivia com um olho na esquina e outro olho no freguês. Um drible daqui, um toque dali, um passe cruzado, uma cabeçada certeira e, antes de comemorar o gol, uma espiada ligeira para se certificar de que a barra estava limpa, e que era só correr para o abraço.
Naquele cenário poeirento das ruas do meu tempo, vivia-se todo o encantamento das ingênuas brincadeiras da nossa infância. A meninada não esperava que os adultos criassem fórmulas que estimulassem o seu imaginário. As brincadeiras eram todas elas "made in bairro", e ninguém se atreveria a contaminar a criatividade local com ritos sofisticados que negassem a tradição bairrística.
Não se reclamava da falta do que fazer, nem se esperava que uma autoridade qualquer criasse um dispositivo que estimulasse a garotada a sair atrás do seu sonho de criança. Os sonhos eram gerados espontaneamente e carregados para todo lado onde houvesse um espaço para brincar e parceiros para compartilhar.
Se o tempo era de bola de gude, andava-se para cima e para baixo com os bolsos cheios de bolinhas, desafiando um ao outro, para um simples jogo de mata-mata ou para um mais sofisticado, como búlica, zépio ou triângulo. Se era tempo de vento, então guardava-se as bolas de gude, e levantava-se as pipas, com todos os dispositivos de guerra, linha 10, cortante e rabiola bem feita, para que as manobras no ar fossem perfeitas, no momento de embolar.
Quando o tempo do vento estava por terminar, começavam novos desafios, no jogo de pica-pau, nas competições de cotoco e no cara ou coroa, valendo carteiras de cigarro ou figurinhas.
O pica-pau era um jogo extremamente criativo, composto de um pedaço maior de cabo de vassoura, que servia de bastão, e de um pedaço menor que era afinado nas duas pontas, como se faz ponta num lápis. A peça menor era pousada numa pequena cavidade do chão de terra, para receber a primeira tacada. O bastão tocava numa das pontas do pica-pau, como era chamada a peça menor, e com isso ela subia até uma certa altura onde era novamente tocada pelo bastão, desta vez com mais força, a fim de lançá-la à distância, e quanto mais longe fosse atirado o pica-pau, maior pontuação se conseguia.
O jogo de cotoco também era produzido a partir de cabos de vassoura, que eram cortados em pequenos toquinhos, que serviriam de jogadores, dez ao todo, dispostos nas tradicionais posições do futebol, como se costumava fazer com os botões. Havia uma baliza bem maior que a dos botões, defendida por um goleiro feito de um pedaço de madeira, à semelhança das caixas de fósforo que eram utilizadas no jogo de botões. A bola era de ping-pong e a paleta era um palito de sorvete que acertava a bolinha, em direção ao gol, depois de fazer tabelinhas com os jogadores de cotoco do mesmo time. Se a bola tocasse num cotoco do outro time, o jogador daquele time assumia o comando das paletadas. As regras eram simples e permitiam que todos se habilitassem a ter o seu time de cotocos, alguns mais caprichados, pintados na cor do seu time, mas o que contava mesmo era a técnica de dar o toque certo com a força
e a direção perfeitas. Goooool!!! Esse era o objetivo a ser atingido.
Mas, também se andava de velocípede e pati
nete. Crescendo-se, passava-se para os patins e a bicicleta. E nesse meio tempo, brincava-se de tudo que a nossa vocação permitisse. Pulava-se corda e amarelhinha, e se jogava pião. Garrafão, bandeira, carniça, chicotinho queimado e o pomposo "tudo que seu mestre mandar, faremos todos, e se não fizer, levaremos bolo".
Nos momentos de repouso, quando não se corria atrás de uma bola, ou um atrás do outro, curtia-se os gibis com os heróis da época. Mandrake, Fantasma, Super-Homem, Tocha-Humana, Homem Borracha e os mocinhos Roy Rogers, Gene Autry, Hopalong Cassidy e Rocky
Lane.
Os miúdos se deliciavam com Vida Infantil e Vida Juvenil, que contavam histó
rias do Lourolino e Remendado, Pituca, Reco-Reco, Bolão e Azeitona, Os sobrinhos do capitão e por aí afora.
O meu pai era atacado, ao chegar do trabalho, por mim e po
r meu irmão, que tentávamos capturar o jornal O Globo, que ele trazia debaixo do braço, tudo por causa das tiras de quadrinhos do Ferdinando Buscapé e da Violeta, do Pafúncio e da Marocas, Rex Morgan, Kerry Drake, Dick Tracy com seu radinho de pulso e outras figuras mágicas, que fizeram da minha infância uma colcha de recordações, com a qual eu me cubro até hoje, quando sinto o frio da iniqüidade que vem tomando conta da vida dos jovens de hoje em dia.
Há muito conhecimento e infinitas informações, há tec
nologia e ciência ao alcance de todos, há uma onda de expansão incrível do poder mental desta atual geração, mas há também uma carência enorme de sentimentos, emoções e sobretudo simplicidade para extrair o conteúdo espiritual de cada momento da vida, que é único, pessoal e intransferível.
O rádio era o pano de fundo daquela época, e nada se fazia sem que uma música se tornasse o elo definitivo entre o fato em si e as emoções provocadas. As modinhas de carnaval marcavam as épocas, os sucessos românticos fixavam o
s fatos na memória e os cantores marcavam com suas vozes os ecos que ressoariam por toda a vida em nossas mentes e corações.
"Lata d'água na cabeça, lá vai Maria"
, cantava Marlene. "Tomara que chova 3 dias sem parar", era a invocação da Emilinha. "Hoje é dia dos namorados, toda a Terra está em flor, só se vê menina e moça de braço dado com o seu amor", era o hino dos enamorados na voz de Blecaute.

E assim como em Curvelo, onde nasceu o Luiz Cláudio, o galo também cantava no meu quintal, não sei se da meia-noite pro dia, ou se já pela manhã , quando eu me dava conta que o sol entrava pela minha janela. O touro não berrava no meio da vacaria, mas o meu coração parecia sempre apertado a cada novo dia. A poeira lá fora me esperava, o coração batia forte. A turma da pelada estava me chamando, e era preciso ir correndo, porque tal qual o mineiro, esse pessoal chama a gente e vai andando.
E eu não queria perder nada, pois tudo era gostoso de ser vivido.
E enquanto tomava o café da manhã, a Dalva cantava Kalu, uma orquestra atacava Os pobres de Paris e eu me dava conta que o rádio era o verdadeiro relógio dos meus tempos. Hoje ninguém nem acredita, mas era assim que as coisas aconteciam nos meus tempos de criança, quando se vivia na Era do Rádio.















sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Esse Norte é de morte

"Eu quero é rosetar".
Essa frase polêmica foi tema de uma jocosa história contada por Chico Anysio no seu ingênuo, porém sempre brilhante, programa Esse Norte é de morte.
Este era mais um daqueles inesquecíveis momentos, da programação noturna da Rádio Mayrink Veiga, quando o humor ficava por conta de comediantes geniais, dentre os quais o insuperável Zé Trindade.
Com um sotaque baiano e um jeito matreiro de lidar com os fatos, o Zé era uma figuraça, e sua voz provocava gargalhadas, mesmo quando repetia as mesmas frases já manjadas - "como disse, como disse?" - "mulheres, cheguei" - "dandá pra ganhar tentém", e por aí afora.
Era noite de uma quinta-feira, e o rádio estava sintonizado na Rádio Mayrink Veiga, quando o apresentador anunciou mais um Esse Norte é de morte, um programa que contava histórias do Norte, como era mais conhecido naquela época o Nordeste.
O script era de um dos mais ilustres filhos desse Norte, que fica meio para os lados do Leste, natural de Maranguape, chamado Chico Anysio.
A história daquela noite era simples como todas que, a cada semana, eram contadas pelo próprio Chico, que as relatava como se verdadeiras fossem, e nós acreditávamos, pois a crença ajudava a gargalhada fácil, que era a única intenção dos que sintonizavam o rádio naquela emissora.
A Rádio Mayrink Veiga, lá pelos idos da década de 50, era sinônimo de riso e diversão pois, noite após noite, havia um programa humorístico para a diversão das famílias.
Às segundas, era a vez do Vai da Valsa, às terças, Levertimentos, às quartas, não me recordo do programa, talvez fosse PRK-30, às quintas, Esse Norte é de morte e às sextas, bem às sextas, a atenção estava voltada para a Rádio Nacional, com o seu antológico Balança mas não cai.
Voltemos à história narrada no programa, e que tem como pano de fundo a frase "eu quero é rosetar". E nem preciso dizer quem era que repetia a todo instante, com aquele sotaque baiano e cheio de picardia, a frase que deixou as senhoras de Maranguape em pé de guerra.
O Zé era um caminhoneiro que resolveu escrever uma frase no parachoque do seu caminhão, pois afinal de contas, como ele dizia sorrindo, todos os caminhões trazem uma frase nos seus parachoques, e o dele não podia ficar sem dizer nada. E quando ele resolveu dizer "eu quero é rosetar", a cidade veio abaixo, procurou o prefeito, para que obrigasse o caminhoneiro a apagar aquela frase ofensiva, um verdadeiro palavrão. Onde já se viu, dizer que quer rosetar, na frente de senhoras decentes, e diante de crianças que não poderiam ficar expostas a essas frases obscenas.
O prefeito chamou o caminhoneiro, e pediu-lhe que mudasse a frase do parachoque do seu caminhão. Que ele colocasse uma frase menos pesada, sem aquele tom agressivo e desrespeitoso que estava maculando as famílias de Maranguape.
O caminhoneiro, naquele tom arrastado de falar do nosso saudoso Zé Trindade, argumentou com o prefeito que não havia nada de mal no fato dele querer rosetar, aquele era um direito do qual não abriria mão. E alegava ele, para fortalecer seus argumentos que, afinal de contas, ninguém nem sabia o que era rosetar. Nem ele mesmo sabia o que era rosetar, mas havia algo naquela afirmação que mexia com ele, e ele não iria tirar aquela frase do seu caminhão.
As mulheres foram ao padre da Matriz de Maranguape, e apelaram para o poder do vigário que, naquele tempo, era bem maior do que o do prefeito. O padre argumentou que não via nenhuma intenção maldosa na frase, mas se comprometeu a conversar com o caminhoneiro, e convencê-lo a escolher uma outra que as senhoras considerassem menos escabrosa. E assim fez.
O caminhoneiro pediu a benção ao vigário, se confessou um homem temente a Deus que jamais se negaria a atender um pedido da Igreja, e depois de muitas tentativas, entregou os pontos, e prometeu ao padre mudar a frase.
No domingo, durante a missa, o padre tranquilizou o povo da cidade, informando que a frase repudiada pelas senhoras e pelas famílias zelosas pela decência da paróquia seria apagada do parachoque do caminhão de nosso caminhoneiro, teimoso é verdade, mas um homem de bem. As palavras do padre caíram nas almas das paroquianas como um bálsamo sagrado, que as aliviava do convívio com o pecado, que para elas era a expressão mais clara da presença daquela afirmação maldosa à vista do povo da cidade.
Imagine, se um cidadão decente diz na frente de uma senhora que ele quer rosetar !
Mas, alguns homens ainda se atreveram a perguntar ao padre, o que era rosetar. O padre não soube responder, mas achou melhor, saindo pela tangente, dizer que não era coisa boa. As mulheres iam mais além, e afirmaram em alto e bom tom que era coisa do demônio. Os homens, meio que de lado, ouviam tudo, encolhiam os ombros, e preferiam não dar opinião.
Terminada a missa, o povo está saindo da igreja, quando se ouviu ao longe o ruído do caminhão do nosso frustrado roseteiro. Os olhos se voltaram para a estrada, onde se via a poeira levantar. Todos se puseram a tentar ler a nova frase escrita no parachoque.
Ah, foi uma exclamação geral, quase uma indignação coletiva, quando se ouviu a voz do Zé Trindade, com aquele sabor característico de quem adora uma molecagem, dizer a nova frase que agora ia estampada no parachoque do seu caminhão.
"Continuo querendo".
A voz de Chico Anysio fechava o programa com um comentário alusivo ao modo diferente de ser do povo do Norte, e convidava a todos que voltassem a sintonizar na próxima semana , no mesmo dia e no mesmo horário, para ouvirem uma outra história daquele Norte que é de morte.
A família achava graça, era uma história ingênua, é verdade, mas de um humor inteligente e com a malícia de quem sabe contar histórias. O rádio era desligado, pois era hora de dormir. Dormia-se cedo, lá pelas 10 horas, no máximo 10 e meia.
Quantos da nossa época não foram para a cama com aquela frase na cabeça, repetida inúmeras vezes pelo sotaque baiano do Zé Trindade, imaginando o que seria rosetar. Será que rosetar era uma coisa ruim ? Seria bom rosetar ?
A vida continuava, após cada programa, e depois de cada noite, deixando na memória da gente traços de um humor que valia a pena recordar. As risadinhas sarcásticas com o sabor de molecagem, que antecediam as tiradas de humor do Zé Trindade, permaneceriam em nossas memórias e atravessariam os tempos, para jamais serem esquecidas.
A eternidade parece ter tido o seu início naquela época, quando tudo começava num programa de rádio, para jamais ser esquecido. Assim era a Era do Rádio, um tempo que se foi, mas que permanece para sempre gravado na mente dos que tiveram o privilégio de pertencer àquela geração.







































sábado, 26 de julho de 2008

O "happy hour" dos anos 50

Sexta-feira, 8 horas e 35 minutos de um dia qualquer dos anos 50, os rádios sintonizados na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, as famílias reunidas em silêncio aguardavam que a voz do locutor Wilton Franco invadisse os seus lares anunciando que "ergue-se em qualquer parte da cidade maravilhosa o Edifício Balança, Balança, Balança..." e o primo pobre Brandão Filho arrematava "...mas não cai".

Na era do rádio, "happy hour" não era uma reunião nas noites de sexta-feira num barzinho qualquer, para se tomar cerveja. Depois do trabalho, todos se apressavam para chegar logo em casa, tomar seu banho com calma, jantar, esperar o encerramento da Voz do Brasil, para só então ligar o rádio, ouvir a novela das 8 e se deliciar enfim com o humor brejeiro e ingênuo das piadas de Max Nunes e Paulo Gracindo.
O patrocínio era da Perfumaria Mirta Sociedade Anônima e os moradores do Edifício Balança mas não cai eram os comediantes da Rádio Nacional, que viviam situações cotidianas, quase sempre inspiradas nos acontecimentos da semana.
O Primo Rico e o Primo Pobre faziam a sua crítica social, com muito humor e inteligência. O Peladinho exaltava o seu amor pelo mengo, enviando suas mensagens para seus jogadores favoritos, como o Dr. Rubis, que era o alvo principal dos seus elogios e de suas críticas. "Mengo tu é o maior" ou "Mengo tu é uma desgraceira" se alternavam à medida que o mengo ganhasse ou perdesse.
Depois das lágrimas vertidas, após mais um capítulo de "O Direito de Nascer",
a família gargalhava unida com o som que vinha dos apartamentos localizados no Edifício Balança mas não cai. As dores e preocupações da Mamãe Dolores eram compensadas pelo riso fácil provocado pelo primo pobre, que tentava convencer o primo rico a soltar uma grana para matar a fome do seu pirralho, de quem o primo era padrinho.

Os estúdios da Rádio Nacional se tornaram um mundo à parte, ao longo daqueles já longinqüos anos 50, por criarem imagens nas mentes dos ouvintes que não há como reproduzir nos dias de hoje, pois cada qual viajava em mundos imaginários pessoais, que só têm registros na memória daqueles que viveram na era do rádio.
As músicas de abertura eram precedidas por locutores de vozes impostadas, que anunciavam o nome do patrocinador e dos autores dos programas ou das novelas. Os anunciantes, como os sabonetes Lever, Palmolive e Eucalol, e mais o trio maravilhoso Regina, eram apresentados com destaque, mas logo depois eram anunciados os nomes dos autores dos "scripts", fazendo-os conhecidos de todos, como acontecia com Moysés Weltman, autor do seriado "Jerônimo, o herói do sertão", e Álvaro Rangel, que escrevia as histórias das "Aventuras do Anjo".
Enquanto os meus pais se preparavam para o jantar, com a mãe na cozinha, batendo as panelas, e o pai na sala, mastigando torradas, os meus ouvidos estavam grudados no rádio, atento às ações do Anjo e do seu amigo Metralha.
Às 6 horas e 25 minutos, de segunda a sexta, ouvia-se aquele aviso sinistro : "Meliantes, tremei ! No ar, as Aventuras do Anjo". Durante os próximos 10 minutos, a minha fértil imaginação seguia os passos do Anjo e de seu parceiro, ou melhor, as vozes de Álvaro Aguiar e de Osvaldo Elias, que interpretavam o Anjo e seu enrolado parceiro Metralha.
Das 6 e 35 até às 7, era a vez do Jerônimo, do Moleque Saci e da Aninha, a noiva de Jerônimo. Milton Rangel, Cauê Filho e Ísis de Oliveira interpretavam as histórias do herói do sertão, que vivia às turras com o Caveira e seu capanga Chumbinho. O Caveira arquitetava planos diabólicos para liquidar com Jerônimo, que sempre escapava ileso, como todo mocinho que se preza.
"Chumbinho apresente o seu relatório", cobrava o Caveira. E Chumbinho sempre repetia : "Caveira, Jerônimo escapou mais uma vez". Caveira não tinha outra forma d
e manifestar a sua contrariedade, senão repetindo : "Maldição !".
Os tiros, os cascos dos cavalos à galope, o barulho do vento, o som das cachoeiras e dos rios se misturavam no ar, enquanto os atores dialogavam no estúdio, contando com a participação indispensável do sonoplasta, o responsável por inventar aparelhos que reproduzissem os sons naturais.
Os ensaios eram feitos em torno de uma mesa, antes do programa ir ao ar, e não havia como remendar um erro que viesse a ser cometido, pois toda a programação era transmitida ao vivo.
Mas, a nossa noite começava logo ao cair da tarde, com a leitura da oração da Ave-Maria, por Júlio Louzada, um momento sagrado em que até as crianças interrompiam seus folguedos para fazer o sinal da cruz.
A seguir, vinha a Pausa para Meditação, com temas adultos de amores e traições, quando o mesmo Julio Louzada, que antes rezara para a Virgem Maria, ainda imbuído de uma certa aura sagrada, tentava dar conselhos e amenizar as dores das ouvintes desconsoladas com seus parceiros, que escreviam para o programa pedindo ajuda.
A gurizada esperava, então ansiosa, para que aquelas desgraças amorosas se acabassem, e dessem espaço para a chegada do Anjo e do Metralha.
A noite só terminava para os mais velhos, depois das 10 ou das 11 da noite, com as duas últimas edições do Repórter Esso. A confiabilidade representada pela voz de Heron
Domingues fez do Repórter Esso, o noticiário oficial do povo brasileiro, de modo que uma notícia só tinha crédito se fosse anunciada pelo Repórter Esso, e na voz de Heron Domingues.

Assim eram aqueles meus tempos de menino, com jogo de botões pela calçada, com saudades da professorinha que me ensinou o beabá, quando eu era feliz ... e sabia.







sexta-feira, 18 de julho de 2008

Ninguém imagina a pressão nos alçapões

Nos meus tempos de criança, menino amante do futebol, alçapão não era uma armadilha para pegar pássaros, mas um pequeno estádio de futebol, onde ganhar do dono da casa era um combate de sangue, suor e lágrimas.
Eu morava muito perto de um desses alçapões, o da Avenida Teixeira de Castro, campo do Bonsucesso, onde assisti, em belas tardes de domingo, grandes zebras, co
m derrotas de Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo.
Ganhar do Bonsucesso, no alçapão de Teixeira de Castro não era tarefa fácil.
Um outro alçapão muito próximo dali era o da rua Bariri, campo do Olaria, onde uma vez o center half Olavo correu o cam
po todo atrás do juiz para agredi-lo, e mais tarde foi punido por isto com uma suspensão de 1 ano.
A torcida rubro-anil enchia as sociais de Teixeira de Castro e torcia como se o Bonsucesso fosse o seu time do coração, mas muitos mudavam de lado quando os adversários eram Flamengo, Fluminense, Vasco ou Botafogo.
A garotada recitava de cor e salteado as escalações dos clubes que fizeram história, nos meus tempos de menino. Passados mais de 50 anos, ainda sou capaz de lembrar uma das melhores equipes do Bonsucesso que pude ver atuar.
Julião, Bibi e Gonçalo Décio, Pacheco e Paulo Milton,Geraldo, Valter Prado, Jair e Nilo.
Com esta formação, o Bonsucesso venceu o Botafogo e o Vasco
, empatou com o Flamengo, e só perdeu para o Fluminense por 1x0, devido a um lance inusitado, em que o goleiro Julião, depois de defender um cruzamento, colocou a bola no chão, pensando que o juiz havia marcado uma falta. O centroavante do Fluminense Valdo, um matador imperdoável, não perdeu tempo, tocou a bola para dentro do gol, e foi comemorar com a torcida.
Nas tardes de domingo, assim que avistava a marquise do estádio enfeitada com as bandeiras de todos os clubes, num visual mágico, eu me deixava excitar e era tomado por uma ansiedade incontrolável, à medida que me aproximava do campo. A minha caminhada era a pé, já que morava bem perto do campo, na rua Bonsucesso, que desembocava logo no início da Teixeira de Castro.
O grito da torcida, o apito do juiz, o hino do Bonsucesso, tocado antes do jogo, eram sinfonias inacabadas, que pareciam se eternizar ao longo da semana, à espera do domingo seguinte, quando todo esse ritual se repetia.
O clímax do campeonato se dava com a visita do nosso time do coração ao alçapão perto da nossa casa.
Nessas ocasiões, torcia-se sem constrangimentos pelo time visitante, pois na era do rádio o que prevalecia era o amor que devotávamos ao nosso clube e o direito de expressá-lo sem medo de violências.
A camisa do Flamengo vestida por meus ídolos, cultuados em figurinhas e nos times de botões, fazia disparar o meu coração, e me deixava engasgado de emoção.

Garcia, Tomires e Pavão Jadir, Dequinha e Jordan Joel, Rubens, Índio, Benitez e Esquerdinha.
E aquele ataque inesquecível, formado por Joel, Moacir, Henrique, Dida e Babá, como se poderia esquecer !!!
Quando o time do Flamengo pisava o gramado de Teixeira de Castro, correndo como era tradição na época, os meus olhinhos brilhavam como se eu estivesse diante de um grupo de deuses.
Os alçapões de Teixeira de Castro, Bariri e Conselheiro Galvão, que ainda não havia mencionado, e que era o estádio do Madureira, nos permitiam ver os jogadores de muito perto, e quase tocá-los. E isto era emocionante para um bando de guris, numa era em que não existiam televisões, e os jogos eram acompanhados pelo rádio e no dia seguinte conferidos pelos jornais
, que estampavam fotografias de um gol ou de uma bela defesa do goleiro.
Ao vivo, só indo ao campo de jogo. E para uma visão mais próxima dos nossos ídolos, só se espremendo nos alambrados que cercavam os campos e aguardando a bola sair pela lateral, junto ao local onde a gente conseguia se enfiar.

A magia do futebol acabou, e só lembranças permaneceram nas mentes daquelas crianças que conheceram de perto a pressão exercida a cada domingo, dentro dos alçapões, quando os times grandes corriam o risco de cair na armadilha do time pequeno que jogava em casa.
Com o surgimento dos grandes estádios, a partir do Maracanã, tudo mudou. Hoje em dia, ninguém
pode imaginar como era a pressão sofrida nos alçapões dos subúrbios.

sábado, 28 de junho de 2008

A simplicidade na arte de ser feliz


"Tá com medo tabaréu, é de linha de carretel".

Com esse desafio, a molecada na rua provocava o dono da pipa que fugia do embate, com medo de cruzar.

Quem se preocupava por saber o que era tabaréu ? Aquele era um grito de guerra repetido por todos, como um guerreiro fazendo pouco de um inimigo confuso, sem traquejo e despreparado para a batalha.

A linha de carretel era uma alusão ao cordonê, um barbante resistente que muitos utilizavam para cortar e aparar as pipas alheias, e que era imbatível na hora de embolar.
A linha de carretel era a tradicional linha 10, que quase todos usavam, muitas vezes envolvida em cerol ou cortante, para se tornar afiada e cortar a linha dos que cruzavam em seus caminhos.
Entre o inverno e a primavera, quando o vento se fazia mais presente nos céus do Rio de Janeiro, as pipas vagavam por entre nuvens, tenteando, dando de bico e voando. Como uma cobrinha elas tenteavam para a direita e para a esquerda. Como um raio, elas mergulhavam em direção ao chão, dando de bico, e voltavam a alçar vôo em direção às nuvens, como um avião de caça, durante as batalhas aéreas.
Assim, passávamos as tardes, manuseando pipas e carretéis de linha, que tinham técnicas apuradas de serem enrolados, num traçado em torno de um eixo de bambu que era enfiado de um lado ao outro do carretel.
Quanta ingenuidade naquelas violentas batalhas travadas nos céus do nosso bairro !
Quanto orgulho em cortar e aparar a pipa do inimigo !
Era indescritível a sensação de delírio, quando após uma série interminável de manobras, a nossa linha cortava a linha do outro, fazendo com que sua pipa fosse embora levada pelo vento, enquanto no seu rastro se lançava uma turba de meninos a fim de capturar a pipa que voou.
No fim de tarde, já de banho tomado, ficava-se no portão à espera da janta.
O som do parque de diversões que ficava montado lá na esquina trazia aos nossos ouvidos a melancolia de um chorinho ou o ritmo carnavalesco de uma marchinha. Na Era do Rádio, não se poderia imaginar uma lembrança a ser guardada sem um registro musical, sem um som mágico que num futuro distante nos conduziria de volta àqueles tempos de menino.
A roda gigante toda iluminada convidava-nos a espiar lá do alto, as ruas do bairro com suas casas simples de luz mortiça. Como pano de fundo, o morro enfeitado de luzinhas suaves, vindas dos postes e das janelas das casas humildes, mas que em nada se assemelhavam aos barracos de hoje em dia. O bonde iluminado circulava em direção a Ramos ou a caminho de Higienópolis. E, de repente, um trem bonito, com máquina
soltando fumaça puxando vagões de madeira, levava os trabalhadores de volta para casa.
Aos sábados, podíamos ter a alegria de saber que haveria um show de marionetes no parque, e lá íamos eu e o meu irmão assistir os bonecos representando o Lobo Mau e o Chapeuzinho Vermelho ou o Blecaute cantando "Hoje é Dia dos Namorados".
Às 6 horas, todos ligavam seus rádios para ouvir com respeito, na voz de Júlio Louzada, a oração da Ave Maria, o que era mais uma tradição do que um ato de fé.
Meu pai costumava chegar do trabalho, em torno desse horário, trazendo debaixo do braço o jornal O Globo, que era disputado por mim e por meu irmão, ansiosos por ler as nossas histórias em quadrinhos, publicadas em tiras e acompanhadas com o mesmo fervor com que os adultos se ligavam na novela O Direito de Nascer, uma unanimidade nacional daquela época.
Na minha casa, o jantar era servido rigorosamente às 7, quando todos se sentavam à mesa, orquestrados por minha mãe que nos servia, como era costume na época, em regime de prato feito.
Novela das 8, um programa humorístico da Nacional ou da Mayrink Veiga e um jogo de futebol noturno, quando jogasse o Flamengo, e lá íamos todos para a cama. Assim terminava mais um dia de rotina, um dia simples, que precisava de muito pouco para me fazer feliz.