quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Almanaques Infantis




E por falar em fim de ano, nada melhor do que recordar o tempo em que os Almanaques eram aguardados ansiosamente por toda a meninada.
Almanaques, para quem não viveu na Era do Rádio, eram edições especiais, daquelas tradicionais revistas publicadas o ano inteiro. Quando chegava o final do ano, as Editoras caprichavam no visual, aumentavam o tamanho das revistas, davam-lhes uma capa dura, brilhante e colorida, e chamavam-nas de Almanaques.
O Almanaque da Vida Infantil era um colírio para os olhos da garotada, com as histórias ingênuas e puras
de Lourolino e Remendado, Raposino, Pituca e outros personagens que encantaram os meus tempos de menino. Essas histórias, nos Almanaques, ganhavam um colorido todo especial, com seus quadrinhos em tamanho maior e com aquela capa lustrosa e cheirosa, com cheiro de Natal.
Quem ainda se lembra de Laura Jane e Tiquinho ? Ela, uma menina comum, ele, um menino miudinho. Quando ela queria ficar do tamanho dele, jogava por sobre a cabeç
a uma areia mágica, e recitava : "Areia da grossa, areia da fina, areia me faça ficar pequenina". A revista era o Mindinho, que no final do ano também tinha o seu maravilhoso Almanaque. E nas suas páginas desfilavam o Hortelino Trocaletra sempre perseguindo o coelho Pernalonga, que comia as cenouras da sua horta, o Gaguinho, o Frajola e o Piu-piu e muitos outros que serão eternamente lembrados na memória do tempo.
Os dois mais antigos Almanaques, dos que fizeram parte da minha infância, foram o do Gibi e do Tico-Tico, este com os antológicos Reco-reco, Bolão e Azeitona. Não dá para esquecer essa turma!
Entre os Almanaques dos herois da época, não posso deixar de mencionar os dois grandes ídolos, cultuados até hoje e jamais esquecidos - o Fantasma e o Mandrake. Quem consegue esquecer da figura do Fantasma, de capa e chapéu, para esconder aq
uele uniforme colado no corpo, que ele usava na selva, junto aos seus amigos pigmeus ! E a Diana Palmer, sua eterna noiva, e o Capeto, o seu cão e fiel companheiro ! E tudo isso, num Almanaque, não com uma só história, como era comum nas revistas de meio de ano, mas com diversas e emocionantes novas histórias.
Um outro heroi inesquecível era o Mandrake, que com um gesto de mão, imobilizava os bandidos, transformava armas em buquês de flores e iludia a todos com o seu mágico poder hipnótico. Acompanhado por seu parceiro, o truculento Lotar, e tendo, a ex
emplo do Fantasma, também uma noiva, a Narda, o Almanaque do Mandrake prendia a nossa respiração e nos transportava a um encantador e inesquecível mundo de fantasias.
Lembro-me também dos mocinhos, os famosos herois do bang-bang, montados em seus cavalos velozes e dominando os bandidos pela rapidez com que sacavam suas armas. Moci
nho que se prezava, nunca matava, só atirava na arma do inimigo, fazendo-a voar longe. Ah, bons tempos aqueles, em que os atos mais violentos eram socos no queixo e tiros certeiros que desarmavam os bandidos !
Aí, Mocinho! era uma revista que desfilava os herois do faroeste das telas
de cinema da época, como Tom Mix, Tex Ritter, Roy Rogers, Gene Autry, Audie Murphy, Hopalong Cassidy, Randolph Scott e muitos, muitos mais. O Almanaque do Aí Mocinho! era uma festa, com tantas histórias numa revista só, deixando-nos a manhã inteira, sentados num canto, calados e com os olhos pregados naquelas páginas eletrizantes.
O Cavaleiro Negro era outra revista que se transformava num elegante Al
manaque, a cada final de ano. O Dr. Heron Robledo e o seu personagem vestido de negro e com uma máscara no rosto, que o transformavam no Cavaleiro Negro, eram acompanhados com uma atenção que ninguém conseguia dispensar aos seus livros de colégio.
A revista do Rocky Lane foi por mim colecionada, desde o primeiro número,
e o seu Almanaque era aguardado com grande expectativa, a cada final de ano, para se incorporar à coleção das edições mensais, cuidadosamente guardadas numa maleta de couro, que havia sido usada por meu pai, até cair em desuso.
E os Almanaques não param por aí, eram muitos e por demais atraentes, deixando a criançada toda alvoroçada, com a chegada de cada final de ano. Super-Homem, Capitão Marvel, O Gibi e outras mais faziam a nossa festa de final de ano, sem fogos coloridos nas telas da TV, sem contagens regressivas e sem TV. Nem mesmo o rádio era ligado para acompanhar a passagem do ano, afinal tudo era muito mais simples naquela época, e o relógio era suficiente para anunciar que um novo ano havia chegado.
Muito antes da meia-noite, a gurizada já estava dormindo, pois ninguém era de ferro, depois de um dia inteiro de brincadeiras, correrias e algazarras. Mas, ao lado da cama, sempre havia um companheiro fiel, que zelava pelo nosso sono e nos despertava logo cedo, no dia seguinte : o exemplar do nosso Almanaque favorito.
Como era fácil ser feliz, naqueles tempos! Como a gente se contentava com tão pouco, e que nos parecia tanto!
Eu sei que não é fácil de se entender como isso era possível, para quem vive nos dias de hoje, em meio a tanto consumismo e insatisfações com o que se tem. Mas, não era assim que a gente sentia nos tempos idos dos anos 50.
E quando os Almanaques já tivessem sido lidos e relidos, ainda existia o consolo de se ligar o rádio e acompanhar mais um capítulo das Aventuras do Anjo e as emocionantes lutas do Jerônimo, o heroi do sertão, contra o seu eterno inimigo, o Caveira. A gente se arrepiava todo,
quando ouvia aquela voz grave ordenando ao seu parceiro de crimes, o Chumbinho : "Chumbinho, apresente o seu relatório". Entrava a música anunciando o fim do capítulo, e deixando-nos ansiosos para ouvir no dia seguinte a tradicional resposta do Chumbinho :"Caveira, Jerônimo não morreu !", seguida da exclamação do Caveira : "Maldição!".
Quem passar pelo sertão, vai ouvir alguém falar do heroi desta canção que eu venho aqui cantar... E ao som da canção que exaltava os feitos do nosso heroi, terminava
mais um capítulo de Jerônimo e o seu fiel amigo, o Moleque Saci.
Era assim que os dias se passavam em nossas vidas de menino, tão repletas de atividades e tão pródigas de conquistas, pelo menos em nossas mentes de criança. Almanaques, herois, revistas em quadrinhos, e como não poderia deixar de ser, os programas radiofônicos, com nossos herois ocupando a nossa imaginação e nos ajudando a sonhar! Era assim que cada ano chegava ao fim, nos meus tempos de criança, quando vivíamos na Era do Rádio.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Nos tempos de Papai Noel

Este Natal me fez lembrar os meus Natais de criança, quando Papai Noel ainda era vivo.
A família se confraternizou e
se presenteou, reunida na sala sob a iluminação de velas, não por decoração, mas por falta de opção. A CEMIG presenteou-nos com um longo apagão, daqueles que parece não ter mais fim.
O lado bom da escuridão foi a improvisação, à luz de velas e lanterna, com direito a holofote nos embrulhos, enquanto se desembrulhavam os pacotes.
Aquela alegria em torno de cada presente, todos baratinhos e originais, causando espanto e risos, me transportaram para os Natais da minha infância.
A minha ansiedade de criança era incontrolável à e
spera de Papai Noel, mesmo não tendo a menor idéia de como ele iria entrar na minha casa, já que onde eu morava não havia chaminé. Mas, as crianças da nossa época não perdiam tempo com esses detalhes banais, que só atrapalhariam as suas imensas fantasias.
Houve um Natal em que, sem conseguir pegar no sono, pensei ter ouvido um bar
ulho na sala, e lá encontrei meus pais em atitude suspeita. Ao me verem surgir, eles me disseram que quase que eu havia encontrado Papai Noel, que tinha passado por ali, mas que iria voltar mais tarde, ou coisa parecida.
A gente aceitava todas aquelas mentirinhas inocentes, pois sabia que era mais emocionante as
sim do que sair garimpando uma verdade desnecessária, que só provocaria o fim de um majestoso sonho infantil.
Por onde Papai Noel entra na nossa casa, mamãe? Como ele sabe dos presentes que eu quero ganhar, hein, pai? A que horas que ele costuma passar? Será que eu não posso ficar esperando por ele? Essas e outras questões surgiam e eram respondidas por nossos pais, de forma bastante convincente, e sem comprometer as suas imagens junto aos filhos.

A lembrança daqueles brinquedos muito simples, mas que me provocavam uma sensação de enorme euforia, surgiu na minha mente, quando me dei conta de que a mesma reação estava ocorrendo em nós adultos, a cada novo presente que era entregue e desembrulhado. Os presentes eram simples, a maioria comprada em lojas de 1 e 99, mas todos eram muito criativos e combinavam com os gostos e perfis de cada um de nós.

Viajei no tempo, e me senti ao lado de Papai Noel, dentro do seu trenó, vendo lá do alto a casa em que nós morávamos, na rua Bonsucesso. A sensação era de que eu iria ver, a qualquer momento, meus pais colocando os presentes na sala, debaixo da janela, com o Papai Noel me dizendo que era assim que o sistema funcionava.
O Papai Noel era somente o símbolo de tudo que nossos pais representavam na celebração do Natal. Quem passava o ano inteiro ouvindo os desejos dos filhos, tentando desco
brir o presente com que cada um sonhava, eram os pais. Na noite da véspera do Natal, o Papai Noel viajava pelos céus, abençoando os presentes e deixando por conta dos pais fazê-los chegar às mãos de seus filhos.
Assim eu e Flora ensinamos aos nossos filhos, jamais fantasiando que Papai Noel e
ntraria por um canto da casa e colocaria os presentes junto da árvore iluminada. Mas, também jamais negando a sua existência, mantendo viva a tradição do bom velhinho, que se ocupa o ano inteiro de preparar os presentes que serão distribuídos no Natal. Com isso, nossos filhos, desde crianças, sempre falaram de Papai Noel, sabendo que éramos nós que representávamos aquele bom velhinho, na entrega dos presentes. E isso, sem dúvida, repercute até os dias de hoje.

Lembrei-me daquele pião metálico, todo colorido, que tinha de ser "bombeado" como se a gente enchesse um pneu de bicicleta, para que ele ficasse girando e emitindo um zunido maravilhoso e que ainda ressoa até os dias de hoje. E as pedrinhas de madeira, para montar castelos, casas e igrejas ! E o pega-varetas, o jogo de ping pong, o iô iô e o dominó, quanta emoção ! E o caleidoscópio, com aquelas figuras coloridas e mágicas, que loucura !


Mas, nada se comparou ao ano em que ganhei uma bola de couro. O cheiro daquele "courinho", como chamávamos as bolas de couro naquela época, até hoje está presente na minha memória.
Que som maravilhoso, o quicar da bola no chão ! Que sentimento de poder
, quando no dia seguinte, apareci na rua com a bola debaixo do braço ! Nem me importa, o triste fim que ela levou, cortada em pedacinhos, por uma vizinha que não gostou da reação dos meus colegas de pelada, que agiram com certa violência, quando ela ameaçou não devolver a bola que caíra na casa dela.
A tristeza da perda não foi nada, quando comparada com o deslumbramento de ter abraçado, cheirado e acariciado aquela que foi a minha primeira bola de couro... e última.

Nada se compara, nos dias de hoje, à euforia das crianças daquela época, na manhã do dia de Natal, cada uma exibindo o seu troféu. Presentes simples, mas que tinham
um significado inestimável, para quem passava o ano inteiro aguardando aquele momento de ganhar o presente da sua vida. Era assim que se pensava e sentia, diante da proximidade do Natal. A gente colocava todo o entusiasmo na lista dos presentes e ficava na expectativa da entrega de cada um deles, como uma questão de vida e morte.

As canções de Natal embalavam os nossos sonhos, antes, durante e depois da
entrega dos presentes. Na Era do Rádio, cada época do ano tinha uma programação especial, para o Natal, o Carnaval e até para a Semana Santa. As estações de rádio não tinham essas programações despersonalizadas, como o que se vê nos dias de hoje. As músicas tocadas eram de acordo com as épocas e seguiam toda uma tradição protocolar, no Natal ouvia-se músicas natalinas, no período de Carnaval, as marchas, sambas e ranchos, e na Semana Santa, as músicas eram clássicas.

A gente vivia, por isso mesmo, ao som do rádio, em ritmos diferentes, de acordo com cada época do ano. Pode parecer estranho para quem está acostumado à programação global de hoje em dia, mas era tudo muito natural para nós que vivemos a nosso infância na Era do Rádio.



quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Folguedos sem data

"Alô, alô, senhores aviadores que cruzam os céus do Brasil, aqui fala Jorge Veiga, diretamente da Rádio Nacional. Estações do interior, queiram dar os seus prefixos para guia das nossas aeronaves".
O som vinha do rádio do vizinho, sintonizado na rádio Nacional. A voz era de Jorge Veiga, que antes de qualquer apresentação, sempre recitava o mesmo refrão,
criado por Floriano Faissal, numa época em que as ondas sonoras das estações de rádio serviam para orientar os pilotos que percorriam os nossos céus mais azuis.
"Doutor de anedotas e de champanhotas, estou acontecendo no café soçaite...", a voz meio rouca do sambista tomava conta da calçada, por onde a molecada brincava, pés no ch
ão e cabeça no ar.

Havia um calendário no inconsciente coletivo da meninada que, no tempo c
erto, fazia com que todos fossem para as ruas com a brincadeira da época na cabeça, como se tudo tivesse sido combinado de véspera.
Pipa, pião, bola de gude, bafo-bafo e outras brincadeiras da moda tomavam conta das ruas por uns tempos, num rodízio constante, que parecia engendrado por uma mente articuladora dos folguedos infantis. Mas, hoje, quero falar dos folguedos sem data, daqueles que surgiam, de repente, vindos não se sabe de onde e nem por que.

Esses folguedos eram articulações meio misteriosas, dos quais somente participavam alguns iniciados, que respeitavam rigorosamente suas regras, apesar delas nunca terem sido escritas ou reveladas publicamente.
Existiam comunidades que se formavam entre os moradores de cada rua, assim co
mo grupos que se fechavam dentro dessas comunidades. A turma da rua Bonsucesso formava uma comunidade à parte da turma da Francisca Hayden e da Bias Fortes. Pareciam povos diferentes, vivendo em localidades distantes, com hábitos e costumes regionais. E, no entanto, eram ruas que se encontravam num largo, onde aconteciam as grandes peladas de domingo.
Uns, da rua Francisca Hayden, se tratavam por "coisórios", e tinham seus dialet
os próprios. Os da rua Bias Fortes eram mais fechados e bem mais ensimesmados. Os da rua Bonsucesso, onde eu morava, tinham também suas esquisitices, cultuadas, não por todos, mas por alguns grupos.
- Mandrake aí ! Com esse grito, os membros de um desses grupos se obrigavam a ficar parados onde estivessem, até que ouvissem a nova ordem: Pode sair, licença !
A licença era o salvo conduto para ficar a salvo de uma ordem semelhante à que havia obrigado os demais a permanecerem estáticos, sem se mexer. Mandrake era o mágico das histórias em quadrinhos, que hipnotizava os vilões e fazia-os ver objetos mudando de formas e ficarem assustados, permanecendo estáticos, até serem presos.
Outra dessas brincadeiras sem data, e que podia aparecer e desaparecer, sem previsão de época, era o buxuxu. Dentro do grupo, quem sentasse, e não gritasse : "Buxuxu licença!", corria o risco de levar um soco no meio da coxa, e não podia reclamar. Brincadeira meio bruta, às vezes bem violenta, mas coisas de garoto, que não têm muita explicação.
- Tato aí ! Quem estivesse comendo algum coisa teria de dar um pedaço ao que gritou. Para se preservar dessa parceria indesejável, era preciso gritar, ao ver um do grupo :"Tato, licença!". Coisas que os garotos levavam a sério, como se fizessem parte de uma fraternidade secreta, na qual todos têm os seus deveres e obediências, que não podiam ser rejeitados ou questionados.

Enquanto os folguedos sem data iam acontecendo, as brincadeiras de época se sucediam, ocupando a mente da meninada, que não tinha muito tempo para pensar besteira, além dessas besteirinhas que eram as próprias brincadeiras e folguedos da nossa época.

Bandeira, garrafão e carniça eram brincadeiras noturnas, durante o ano inteiro, sem data marcada. Essas eram brincadeiras de menino, e só para meninos, do tipo "menina não entra".
Estátua, anel e chicotinho queimado eram brincadeiras mista
s, que envolviam meninos e meninas, enquanto roda, pular corda e casamento japonês eram adoradas pelas meninas, e mal vistas pelos meninos. Coisas de homem e de mulher, que começavam bem cedo, desde os folguedos de rua e de quintal, e que afastavam os sexos para só voltar a reaproximá-los lá pela adolescência, quando a sexualidade começava a lançar suas iscas.

Era assim que acontecia naqueles tempos idos, quando vivíamos os anos 50, uma época mágica de Mandrakes e buxuxus, de pique bandeira e garrafão, e quando em qualquer terreno baldio ou meio de rua podia-se ver duas pedras marcando o gol, da pelada que ia acontecer no meio da tarde.

Na rua, a meninada, e nos lares, o rádio ligado na programação vespertina. "Alô, alô, senhores aviadores..." Era assim que, a gente brincava e se divertia muito, na Era do Rádio.


terça-feira, 17 de novembro de 2009

Um saxofone em hi-fi com Sandoval Dias

Na Era do Rádio, anúncio era reclame, dança era bolero e música para dançar era a que saía do sonoro saxofone de Sandoval Dias.
Ah, meu nostálgico leitor, eu também concordo que essas danças m
odernas, em respeito aos grandes dançarinos, como Fred e Ginger, Gene Kelly e Cyd Charisse, deveriam ser chamadas de outros nomes, menos danças.
E poucos músicos brasileiros souberam conduzir com tamanha maestria a linha melódica de uma dança, como Sandoval Dias com o seu sax-tenor. As festas ficav
am mais românticas ao som do bolero que saía do sax de Sandoval. Os casais suspiravam baixinho, e se deixavam levar pelo salão, no embalo suave e sereno do conjunto de Sandoval Dias.
Muito poucos músicos souberam marcar de forma tão harmoniosa o ritmo da música dançante, como Sandoval.
O disco que analiso hoje, Um saxofone em hi-fi, considero o melhor de toda a discografia de Sandoval Dias, em parte por uma seleção de primeira linha, mas principalmente pelas interpretações de altíssimo nível desse mestre da música dançante.

Na capa, o charme da artista de cinema da época, Jayne Mansfield, uma rival da Marylin, mas que nunca chegou a ameaçar a fama da mais famosa loura do cinema.
O meu tio Sandoval costumava lançar seus LPs com mulheres nas capas, mas isso não era uma jogada comercial só dele, mas de quase todos que lançavam dis
cos dançantes naquela época.
A mulher era um chamativo a mais, para a venda dos álbuns fonográficos. Mas, tenho certeza que, se alguém comprou este disco somente por causa da estrela da capa, foi agraciado com um dos melhores discos da época.

As interpretações para No Rancho Fundo e Pensando em ti são fenomenais. No entanto, nada se compara à magistral técnica com que a música Czardas é interpretada, quando o sax de Sandoval parece esquecer que é um instrumento de palheta, e se transforma num virtuoso violino.
Os violinistas se sentem desafiados, diante dessa obra musical difícil de ser executada, e não são poucos que tropeçam em suas variações melódicas, que ex
igem muita sincronia de movimentos.
O sax de Sandoval parece desconhecer todas essas aparent
es dificuldades, e oferece-nos uma oportunidade rara de ouvir o que um músico é capaz de fazer com o seu instrumento, quando ele sabe o que faz. Num determinado trecho, quando todos os músicos se sentem mais desafiados, pela vibração constante e muito veloz que tem de ser imprimida a interpretação, é ali que Sandoval se sente mais à vontade e dá uma lição de destreza e técnica apurada, fazendo o baile parar, para que todos possam apreciar e acompanhar melhor a beleza do som da música.
Uma vez, tive essa experiência num baile em que tocava o
famoso 7 de Ouros, quando os pares foram parando de dançar e olhando para o palco, embevecidos pelo que estavam ouvindo, até que coroaram o final da apresentação com uma interminável salva de palmas.
Sandoval Dias tinha essa genialidade para tirar do saxofone dourado,
uma sonoridade melodiosa que não parecia vir de um instrumento musical, mas de um coral de anjos celestiais.
Em nenhum outro de seus LPs, Sandoval Dias foi tão brilhante qua
nto neste Um saxofone em hi-fi. As músicas que compõem o disco são Pensando em ti, Love Letters in the Sand, Maria La ô, Encabulado, Dejame en paz, Neptuno, Nereidas, No Rancho Fundo, Autumn Leaves, Czardas, Around the World e Deixa o meu coração cantar.
Sambas, boleros, choros, fox, são diversos os ritmos, mas to
dos feitos para dançar.
Era assim que se animava as festas, na Era do Rádio. Uma radio-vitrola ou eletrola, uns discos LPs e música dançante da melhor qualidade.
A vizinhança não reclamava, mas, pelo contrário, pedia para que tocasse um pouco mais alto. E o som suave e melódico atravessava a janela, percorria o jardim e che
gava aos ouvidos do vizinho da casa ao lado, que de olhos fechados tirava uma casquinha da festa que não pôde ir, mas que pôde receber em casa.
Era assim que se dançava na Era do Rádio. Todos se sentiam um pouco Fred e um pouco Ginger.
E ao fundo, a virtuose de Sandoval Dias e seu sax dourado.








sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Nos tempos idos em que propaganda era reclame

No início da semana, respondi uma pesquisa escolar sobre os hábitos e costumes dos jovens nos anos 50 e 60.
O menino Augusto, muito maduro para a sua idade, queria saber sobre rádio, cinema, televisão e propaganda. A pesquisa era sobre uma época em que, nem
ele, nem sua professora que propôs a pesquisa, tem a mínima idéia do quanto era diferente de tudo que existe nos dias de hoje.
Aproveito as lembranças, e as transporto para este meu museu de memórias.
Naqueles tempos idos dos anos 50 e 60, a vida era mais romântica e o tempo passava bem mais lentamente.

A programação radiofônica consistia em programas de auditório, musicais ou humorísticos, noticiários e rádio-teatro. A televisão dava os seus primeiros passos, e só viria a se firmar mesmo no final dos anos 60.
Os programas de auditório, comandados por grandes nomes do rádio, como César de Alencar, César Ladeira e Manoel Barcelos, lideravam as pesquisas da é
poca. Cantores, como Emilinha, Marlene, Dalva, Ângela Maria, Carmélia Alves, Linda e Dircinha Batista, Nélson Gonçalves, Jorge Goulart, Cauby Peixoto e os ainda mais antigos, Chico Alves, Carmem Miranda, Orlando Silva e Sílvio Caldas, eram os grandes nomes da música popular brasileira daqueles tempos.
Os programas de auditório arrastavam multidões ao delírio, co
nfrontando fãs clubes e criando uma rivalidade que, às vezes, resultava em conflitos entre as diversas facções.
O César de Alencar, no seu Programa de sábado, promovia a cantora Emilinha, enquanto o Manoel Barcelos tomava partido da Marlene. E no meio dessa luta pela liderança de audiência, enfrentavam-se as fanáticas e frenéticas fanzocas, que eram capazes d
e tudo para promover a sua cantora favorita.
Os programas naquela época eram patrocinados por uma única marca de produto, criando uma concorrência comercial entre os patrocinadores, que os associavam aos artistas de seus programas.
As Pastilhas Valda patrocinavam um quadro do Programa César d
e Alencar, em que aparecia a Emilinha. O refrão que anunciava o produto acabava sendo utilizado para saudar a entrada de Emilinha no palco, criando um vínculo de enorme alcance promocional para a venda daquele produto.
"Pastilhas Valda, Pastilhas Valda, Emilinha é a maior..."

Carmem Miranda usava sabonete Lever, que era " o preferido por
9 entre 10 estrelas do cinema". Dalva de Oliveira usava o Leite de Rosas. Eu já não lembro o que a Marlene e a Ângela Maria usavam, mas não fugiriam muito dos tradicionais produtos de beleza, que eram os grandes anunciantes Na Era do Rádio.

"O creme dental Colgate e o sabonete Palmolive têm o prazer de apresentar", e lá ía para o ar mais um capítulo da novela das 8.
"Cem por cento financiado pela Perfumaria Myrta Sociedade Anônima, ergue-se em qualquer ponto da cidade maravilhosa...", e tinha início mais um programa humorístico Balança mas não cai.

Durante a semana, às tardes, enquanto fazia os meus deveres de colégio, eu acompanhava a programação do rádio-teatro da Tupi e da Nacional, que fazia parte da rotina semanal de minha mãe. Eu sempre tive uma surpreendente capacidade de processar na mente, ao mesmo tempo, duas, três ou mais informações, sem que uma interferisse na outra.
E era isso que acontecia, enquanto meu lápis percorria as folhas do caderno, a minha mente prestava atenção aos dramas relatados no rádio e, se fosse preciso, ainda pensava no que fazer mais tarde ou no dia seguinte.
Dentro da minha mente, tudo ía ocupando o seu devido lugar. O resultado de um problema, aqui, o diálogo romântico ou trágico, ali. E, mais adiante, o agendamento do final de semana, ou a programação de um cinema no dia seguinte.
Teatro das 4 e Presídio de Mulheres eram programas diários, que contavam histórias cheias de dramaticidade, sobre o cotidiano da vida familiar ou de um presídio feminino.

Antes disso, minha mãe gostava dos programas musicais do Manoel Barcelos e do César Ladeira. E eram imperdíveis os programas do casal Yara Sales e Heber de Boscoli, "Trem da Alegria" e "A Felicidade bate à sua porta".
Todos eles com seus anunciantes próprios, que associavam a marca ao programa.

Naquele tempo, propaganda era chamada de reclame. Assim, er
a comum que o apresentador, ele mesmo ou através de um jingle musical, fizesse o reclame da firma ou do produto que patrocinava o programa.

Existia um reclame que ficou famoso nos bo
ndes da época, e que anunciavam " Veja, ilustre passageiro, o belo tipo fagueiro, que o senhor tem ao seu lado. Mas, no entanto, acredite, quase morreu de bronquite, salvou-o o Rhum Cresostado". Era impossível não decorar esse versinho, pois em todo bonde que se viajasse, lá estava aquela placa na nossa frente. Eu nunca tomei o Rhum Creosotado, talvez por seu teor alcóolico, que certamente era forte demais para uma criança, mas jamais me esqueci de suas propriedades na cura das doenças pulmonares.

Os reclames eram todos muito ingênuos, se comparados com a sofisticação de hoje em dia. Os produtos anunciados em revistas eram os mesmos ouvidos nas rádios. A principal revista da época, onde se podia encontrar todos os principais lançamentos e novidades, era a Seleções de Readers Digest, uma publicação americana, que fez um sucesso enorme entre nós, na época da guerra e no período de pós-guerra.

A ingenuidade, porém, tornavam-nos muito mai
s objetivos e fáceis de serem entendidos, bem diferente dos anúncios modernos. Hoje em dia, o marketing sofisticado cria uma sucessão de imagens em alta velocidade, e tenta associá-las a um produto ou marca, o que , nem sempre, é bem compreendido pelo observador. Mas, o que importa mesmo é promover a Agência que produziu a peça artística, ficando o anunciante com os méritos de ter contratado uma empresa conceituada, que já ganhou uma porção de prêmios.

Antigamente, na Era do Rádio, os reclames tentavam de modo muito direto vender marcas ou produtos. Nos tempos modernos, as Agências de Publicidade procuram valorizar os seus anunciantes com peças publicitárias de imenso conteúdo criativo e valor artístico, mesmo que com isso provoque um verdadeiro quebra-cabeças, para que se descubra de que produto está falando.

As empresas da Era do Rádio, talvez tenham ganho tanto dinheiro com seus produtos, promovidos por aqueles ingênuos reclames, que puderam dar-se ao luxo de pagar as Agências para complicarem bastante a mensagem, enquanto tentam fazer o seu cinema de arte.

Ou, quem sabe, se os reclames, naqueles tempos idos, eram mais ingênuos, porque os seus criadores também eram pessoas mais simples e os consumidores adoravam usar produtos que eles entendessem bem para que serviam.
Era assim que a gente vivia na Era do Rádio. Quem quisesse consumir
arte, ouvia o rádio. Quem quisesse consumir um produto, prestava atenção no reclame, e ponto final.
Tudo era mais simples, mais direto,
mais às claras...na Era do Rádio.


quarta-feira, 10 de junho de 2009

Jogo de botões pela calçada

Nos meus tempos de criança, a exemplo do Ataulfo Alves, eu também brincava com jogo de botões, só que não era pelas calçadas, mas no chão de taco do meu quarto.
O meu time de botões era tratado a talco e flanela, para escorr
egar melhor, em contato com a paleta. O chão era varrido e recebia umas boas escovadelas com o escovão de encerar a casa, num tempo em que não se sonhava com a enceradeira elétrica. A bola era de cortiça, esculturada a partir de rolhas de garrafa. Se o jogo fosse à noite, havia um refletor potente, com o uso de um abajur metálico articulado, que havia sido utilitário do consultório de dentista do meu pai.

O meu principal time de botões era o Canto do Rio, já que o meu irmão caçula não abria mão de escolher os seus times preferidos, dentre eles o nosso Flamengo. Cabia a mim, os 6 clubes rejeitados por meu irmão, para a disputa do Campeonato Carioca, que na época era disputado por 12 clubes. Os meus 6 times de botão eram o Canto do Rio, que está na foto ao lado, com a bolinha de rolha à frente, o Bonsucesso, o Botafogo, o Bangu, o Olaria e o Fluminense.
A escalação do Canto do
Rio era Luciano na zaga direita, mas do zagueiro esquerdo eu não me lembro; a linha média era formada por Dodoca, Floriano e Zé Maria; e o ataque tinha o Jairo na ponta- direita, o Fernando na meia- direita, o Zequinha de centro-avante, o Amaro como o meia-esquerda, e o ponteiro esquerdo também não me veio à memória.
O Luciano era um beque acavalado
, como chamávamos quando se colava um botão sobre o outro. O outro beque, que está ao lado dele, e de quem não me recordo o nome, era feito de plástico derretido em forminha de empada. E o ponteiro esquerdo, cujo nome também não estou lembrado, era um coquinho, como se costumava chamar os que eram feitos de casca de coco.

O interessante é que os jogos eram todos irradiados, por quem estivesse na vez de paletar os seus botões. E tudo era feito aos gritos, no melhor estilo dos locutores esportivos, culminando com o famoso berro do GOL, quando a bolinha de rolha beijava a rede.
A balisa era feita no capricho, e recebia cuidados especiais, como traves bem lixadas e rede de filó. O filó fazia com que a bola fosse
amortecida no momento do gol, e permanecesse dentro da baliza, no fundo da rede. Tudo tinha que ser o mais próximo possível, do que acontecia num jogo de futebol de verdade.

Os jogadores de botão do meu tempo não admitiam balizas de plástico com rede de plástico duro, e muito menos b
olinha de plástico, que não quicava como as nossas fantásticas bolas de rolha.
A
industrialização dos times de botão e os adereços utilizados mais tarde descaracterizaram o espetáculo proporcionado por nossas partidas de botões, em tudo semelhantes a um autêntico jogo de futebol.



Alguns jogadores mais sofisticados construíam campos de madeira, as chamadas mesas de botão. Um dos meus amigos, o Tim, um rubro-negro fanático, p
ossuía a melhor mesa do bairro, onde o mando de campo era um fator determinante, para a sua invencibilidade jogando em casa.

Lembro-me que, na Copa de 50, s
ob a orientação do meu tio Adhemar, criamos diversos times de botões, representando as seleções, dentre as quais, Espanha, Uruguai, Iugoslávia, Itália e logicamente Brasil. Todos os botões tiveram os nomes dos jogadores colados, para que não tivéssemos dificuldades em reconhecê-los com seus nomes estrangeiros. Os goleiros foram emcapados com as cores das bandeiras dos países. Uma beleza !

O Campeonato Carioca era disputado anualmente, por mim e meu irmão, cada qual com os seus 6 times de botões. Havia também jogos de seleção, em que misturávamos nossos jogadores, Torneio Rio-São Paulo, quando criávamos times paulistas e distribuíamos entre nós, sendo o Guarani, o time de predileção do meu irmão, e o Juventus, o meu preferido.

E assim passávamos o nosso tempo de criança, ajoelhados no chão do quarto, marcando gols com as mãos nos botões, ou de pé, no meio da rua, fazendo os nossos gols com os pés ou de cabeça.
Com o pensamento no futebol e o ouvido grudado no rádio,
s sonhávamos com o que o Cozzi dizia estar acontecendo na cancha, como também era chamado o campo de jogo. O Cozzi era o grande locutor Oduvaldo Cozzi, que possuía um linguajar clássico, e que descrevia uma partida de futebol como um poeta, diante da sua musa inspiradora.
Em nossos jogos de botão imitávamos os nossos locutores favoritos, o meu era o Cozzi, mas outros preferiam o Jorge Curi ou o Waldyr Amaral. E assim, nos sentíamos personagens famosos da história do futebol, como treinadores de nossos botões e locutores vibrantes que descreviam as façanhas desses jogadores.

O rádio era a nossa inspiração, pois era através dele que acompanhávamos o andamento das partidas de futebol, como se lá estivéssemos pessoalmente, imaginando o que acontecia dentro do gramado. No intervalo, ouvíamos os comentaristas falare
m das táticas usadas, e tentávamos entendê-las bem, para aplicá-las em nossas equipes de botões.

Quando não eram as músicas, eram jogos de futebol que os rádios transmitiam, deixando marcas inesquecíveis que ainda trago na memória, dos meus tempos de criança. O rádio era aquele nosso companheiro fiel e inseparável, nos tempos idos, quando tivemos o privilégio de conviver com a saudosa Era do Rádio.

















sexta-feira, 29 de maio de 2009

Carteiras de cigarro









O rádio do vizinho tocava Pobres de Paris, enquanto agachado junto à entrada da vila, eu jogava cara ou coroa, apostando carteiras de cigarro.
O cassino se formava, sem nenhuma ostentação
maior do que uma simples moeda que faria o papel da roleta. Ela girava sobre a calçada e decidia a sorte de cada rodada de apostas.
O dinheiro eram carteiras de cigarro, que a garotada colhia nas ruas, e guardava em maços que se assemelhavam bastante às cédulas da época.
No lugar das notas d
e 1, 5, 10 ou 100 cruzeiros usava-se carteiras de cigarro com cotações variadas, que obedeciam as oscilações do câmbio das esquinas. Algumas marcas de cigarro valiam muito pouco, pois eram facilmente encontradas. Outras, bem mais raras, valiam mais, e assim se estabelecia um câmbio livre, em que as cotações variavam ao sabor das ofertas e procuras do mercado infantil.
Astória, Caporal Douradinho, Lincoln, Continental, Hollywood e outras marcas populares tinham uma baixa cotação entre a meninada, mas se aparecia cigarro americano na praça, todos faziam suas apostas, na tentativa de tomar posse daquela raridade. Mas, não era nada fácil. O dono da marca pedia alto para casar aquela jóia rara numa rodada de apostas.
Os valores eram livres, dependendo do interesse da turma de tomar posse das valiosas carteiras
de cigarros americanos. Pall Mall, Lucky Strike e outros títulos estrangeiros inflacionavam o mercado, com seus valores absurdos, estipulados por seus donos, na tentativa de quebrar a banca, provocando a cobiça dos demais jogadores.
Se o maço de cigarro era todo el
e escrito em inglês, a sua cotação era de 1 para 50, 100 ou até mais de outras marcas. Os menos valorizados serviam só mesmo para passar tempo, casando-se na base de 1 x 1. A verdade é que, quando surgiam aquelas marcas raras ou até desconhecidas, os negócios eram decididos sem a tradicional cara ou coroa, mas na base das trocas negociadas, em que cada interessado dava o seu lance, num autêntico leilão.
Tudo isso era organizado e executado pela criançada, sem interferências dos adultos. Cada guri tinha o seu cofre, com suas reservas cambiais e suas cotações bem administradas. Os locais, onde se davam as trocas e os jogos, eram as esquinas, as calçadas e debaixo dos postes, à noite. Não se esperava que a Prefeitura construísse um parquinho para servir de ponto de encontro, nem que patrocinasse alguma competição com oferta de prêmios.
A garotada sempre criava as suas próprias regras e jamais se recorria a um adulto para decidir quem estava com a razão. O gru
po se reunia e decidia ali mesmo, quem deveria pagar e a quem caberia receber, e não se discutia mais. Se alguém ousasse se rebelar contra a decisão, estava fora das futuras rodadas de negociações.
O nosso tempo era todo ocupado, não se tinha espaço para bocejar de tédio, nem lastimar da falta do que fazer. Se era tempo de negociar com carteiras de cigarros, todos se preparavam em casa, e já saíam para a rua, com suas reservas em caixas ou sacos, prontinhas para serem lançadas à sorte, num canto da calçada ou na próxima esquina.
Os jogos eram quase sempre pela manhã ou no início da tarde, para não atrapalhar o jogo de pelada, que se iniciava invariavelmente lá pelas 3 da tarde e se encerrava no início da noite.
Assim gastávamos o nosso tempo, em coleções, trocas, competições e nas tradicionais peladas de rua. A garotada brincava, gritava e comemorava cada conquista, fosse ela, na pipa, na bola de gude, nas figurinhas, nas carteiras de cigarro ou no gol da pelada da tarde.
A alegria da molecada estava sempre no ar, acompanhada muitas vezes dos chorinhos do Parque de Diversões, ou dos sucessos que, Jorge Goulart com sua Laura ou Ataulfo com sua Amélia, cantavam e encantavam toda a vizinhança.
Aquele era um tempo diferente, sem medos, sem vírus, sem milícias, sem drogas. O rádio dava o tom e a gente procurava não desafinar. Tudo era alegria e fantasia, que muitos podem ver como nostalgia, mas que, na minha memória, não passa de uma época de magia, que deixou saudades e que ficou conhecida como a Era do Rádio.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

O imortal talento de Sandoval Dias

Há 103 anos atrás, no dia 4 de maio de 1906, nascia em Salvador, na Bahia, o grande músico e uma das criaturas mais inventivas e pioneiras que conheci, o saxofonista e meu tio, Sandoval Dias.
Tendo casado com minha tia Amélia, em 6 de março de 1948, quando eu só tinha 4 anos de idade, tio Sandoval marcou a minha infância com seus hábitos pioneiros, para o menino criado na vida simples de uma família de classe média da época.

A sua condição de artista da Rádio Nacional, na Era do Rádio, já o tornava um ídolo de minha meninice, alguém que trouxe a fama do estrelato para dentro da família. Se não era bem assim, não era outra a visão que eu tinha do meu tio músico.
O seu saxofone dourado parecia, aos meus olhos de criança, uma peça de um inestimável valor, que avalizava e engrandecia a sua condição artística e musical. E se, de repente, numa reunião em família, meu tio punha-se a tocar, aí mesmo é que os meus sonhos de grandeza não tinham mais fim.

Tio Sandoval introduziu hábitos e valores, na vida da família, que eram absolutamente revolucionários para aqueles idos tempos do final da década de 40 e início dos anos 50.
Máquina de filmar e projetor reproduziam na tela os encontros em família, os batizados dos filhos, os nossos aniversários ou simples reuniões de domingo, em torno da mesa farta com a casa cheia.

Lembro-me de uma noite em que a vizinhança pôde assistir a uma sessão de cinema, num telão que meu tio estendeu do outro lado rua, onde projetou desenhos animados do Popeye e Olívia Palito e comédias do Gordo e o Magro e do Carlitos. Isso, numa época em que não havia televisão e que os cinemas ainda não haviam começado a se espalhar pelos bairros, como veio a acontecer nas décadas de 60 e 70.
A criançada ficava deslumbrada, diante daquele projetor com seus carre
téis mágicos, girando e projetando imagens, que eram lançadas através de um foco de luz numa tela branca. A emoção de poder escolher o filme que queríamos assistir, e ver os personagens que só conhecíamos das tiras de jornal ou das poucas revistinhas infantis da época, era algo indescritível e inteiramente despropositado para os tempos modernos.
E o que dizer do fato de poder assistir a própria imagem na tela,
brincando com os primos ou correndo atrás do Cipó, o cão do meu tio, que ganhou o nome em homenagem ao amigo e músico!
A casa de Paquetá, para finais de semana, foi outra iniciativa revolucion
ária do meu tio Sandoval, para aquela época, e principalmente para aquela família com uma vida rotineira e previsível.
As casas de Paquetá, lembro-me de duas delas, e nem sei se houve
outras, marcaram a minha infância, deixando lembranças que ainda hoje me fazem suspirar de saudade. As sextas-feiras à noite, ansiosas e quase angustiantes, pareciam não ter fim, encumpridando as madrugadas e criando uma expectativa deliciosa para a chegada das manhãs de sábado. O cheiro de maresia da Praça XV, o ronco do motor das lanchas ou o suave contato das pás das barcas com as águas da baía, deixavam o meu coração aos saltos, enquanto eu sorvia o frescor da manhã, a caminho de Paquetá.
As férias em Lambari foram mais uma criação do meu tio Sandoval, que con
seguiu convencer os meus pais a passarem uma semana num hotelzinho familiar e aconchegante, naquela aprazível estância hidromineral do sul de Minas. A experiência foi maravilhosa, e me deixou em estado de graça, por viajar de trem maria-fumaça, chegando à noite no hotel, e sendo acolhido com muito carinho pelos proprietários, que logo pude perceber, tinham o meu tio em alta conta.
Aprendi a admirar o tio Sandoval por esses pequenos detalhes fa
miliares, que ele, como poucos, sabia valorizar e usufruir com alegria e descontração. A sensação é que tudo era muito fácil para ser conseguido, ele parecia ter um jeitinho todo especial para descomplicar tudo e extrair prazer das coisas mais simples.
Essa recordações, e o sentimento de que o tio Sandoval foi tão impo
rtante para a minha vida, quanto o músico Sandoval, para a musicalidade brasileira, fizeram-me escrever este texto, em que presto-lhe uma homenagem pelos 103 anos do seu nascimento.
E ao som dos Boêmios, conjunto em que tocou, durante a década de 60, vou encerrando esse rosário de belas recordações da minha infância, quando
tudo começava e acabava com música.
Afinal de contas, vivi e convivi com as rotinas musicais da Era do Rádio, e ainda tive o privilégio de fazer parte do cotidiano de um dos protagonistas daquela época, o grande sax-tenor Sandoval Dias.