sexta-feira, 29 de maio de 2009

Carteiras de cigarro









O rádio do vizinho tocava Pobres de Paris, enquanto agachado junto à entrada da vila, eu jogava cara ou coroa, apostando carteiras de cigarro.
O cassino se formava, sem nenhuma ostentação
maior do que uma simples moeda que faria o papel da roleta. Ela girava sobre a calçada e decidia a sorte de cada rodada de apostas.
O dinheiro eram carteiras de cigarro, que a garotada colhia nas ruas, e guardava em maços que se assemelhavam bastante às cédulas da época.
No lugar das notas d
e 1, 5, 10 ou 100 cruzeiros usava-se carteiras de cigarro com cotações variadas, que obedeciam as oscilações do câmbio das esquinas. Algumas marcas de cigarro valiam muito pouco, pois eram facilmente encontradas. Outras, bem mais raras, valiam mais, e assim se estabelecia um câmbio livre, em que as cotações variavam ao sabor das ofertas e procuras do mercado infantil.
Astória, Caporal Douradinho, Lincoln, Continental, Hollywood e outras marcas populares tinham uma baixa cotação entre a meninada, mas se aparecia cigarro americano na praça, todos faziam suas apostas, na tentativa de tomar posse daquela raridade. Mas, não era nada fácil. O dono da marca pedia alto para casar aquela jóia rara numa rodada de apostas.
Os valores eram livres, dependendo do interesse da turma de tomar posse das valiosas carteiras
de cigarros americanos. Pall Mall, Lucky Strike e outros títulos estrangeiros inflacionavam o mercado, com seus valores absurdos, estipulados por seus donos, na tentativa de quebrar a banca, provocando a cobiça dos demais jogadores.
Se o maço de cigarro era todo el
e escrito em inglês, a sua cotação era de 1 para 50, 100 ou até mais de outras marcas. Os menos valorizados serviam só mesmo para passar tempo, casando-se na base de 1 x 1. A verdade é que, quando surgiam aquelas marcas raras ou até desconhecidas, os negócios eram decididos sem a tradicional cara ou coroa, mas na base das trocas negociadas, em que cada interessado dava o seu lance, num autêntico leilão.
Tudo isso era organizado e executado pela criançada, sem interferências dos adultos. Cada guri tinha o seu cofre, com suas reservas cambiais e suas cotações bem administradas. Os locais, onde se davam as trocas e os jogos, eram as esquinas, as calçadas e debaixo dos postes, à noite. Não se esperava que a Prefeitura construísse um parquinho para servir de ponto de encontro, nem que patrocinasse alguma competição com oferta de prêmios.
A garotada sempre criava as suas próprias regras e jamais se recorria a um adulto para decidir quem estava com a razão. O gru
po se reunia e decidia ali mesmo, quem deveria pagar e a quem caberia receber, e não se discutia mais. Se alguém ousasse se rebelar contra a decisão, estava fora das futuras rodadas de negociações.
O nosso tempo era todo ocupado, não se tinha espaço para bocejar de tédio, nem lastimar da falta do que fazer. Se era tempo de negociar com carteiras de cigarros, todos se preparavam em casa, e já saíam para a rua, com suas reservas em caixas ou sacos, prontinhas para serem lançadas à sorte, num canto da calçada ou na próxima esquina.
Os jogos eram quase sempre pela manhã ou no início da tarde, para não atrapalhar o jogo de pelada, que se iniciava invariavelmente lá pelas 3 da tarde e se encerrava no início da noite.
Assim gastávamos o nosso tempo, em coleções, trocas, competições e nas tradicionais peladas de rua. A garotada brincava, gritava e comemorava cada conquista, fosse ela, na pipa, na bola de gude, nas figurinhas, nas carteiras de cigarro ou no gol da pelada da tarde.
A alegria da molecada estava sempre no ar, acompanhada muitas vezes dos chorinhos do Parque de Diversões, ou dos sucessos que, Jorge Goulart com sua Laura ou Ataulfo com sua Amélia, cantavam e encantavam toda a vizinhança.
Aquele era um tempo diferente, sem medos, sem vírus, sem milícias, sem drogas. O rádio dava o tom e a gente procurava não desafinar. Tudo era alegria e fantasia, que muitos podem ver como nostalgia, mas que, na minha memória, não passa de uma época de magia, que deixou saudades e que ficou conhecida como a Era do Rádio.

2 comentários:

Juvenal Junior disse...

Vivi essa ápoca.....colecioni muito tempo e até hoje guardo minha coleção que não idéia de quantas marcas são ao todo, mas vou verificar isso com certeza pois lendo essa matéria somente hoje é que lemvrei que tenho a coleção. Boa matéria......abraço

Gilberto Gonçalves disse...

Que bom, Juvenal, que despertei suas memórias do tempo de criança.
A minha intenção ao abrir este blog foi exatamente esta de trazer à memória do leitor hábitos e costumes de um tempo que ficou para trás.
Abraço para o amigo.
Gilberto.