segunda-feira, 15 de setembro de 2008

As ruas do meu tempo eram todas feitas de chão

"As ruas de Curvelo são todas feitas de chão, quando passa um automóvel alevanta um poeirão". "A poeira de Curvelo não faz mal pra ninguém não, de pulmão lá ninguém morre, o que mata é o coração".
Com esses versos nostálgicos e reveladores do seu jeito mineiro de ser, o compositor Luiz Cláudio recorda a sua cidade natal.
Pegando carona num trem bom que não dá pra deixar passar, eu me atrevo a plagiar esse canto mineiro, incorporando a sua imagem aos meus cantos de criança.
As ruas do meu tempo também eram todas feitas de chão, e nelas a garotada batia a sua pelada a toda hora do dia. As ruas do meu bairro alevantavam uma poeirada danada, no meio da gritaria.
Mas, se um automóvel, de repente, apontava na esquina alevantando uma poeira diferente, um grito interrompia a pelada - "olha a rádio"- e era um corre-corre medonho, para se esconder da polícia e salvar a bola do jogo, que era carregada pelo mais afoito e veloz da turma.
A rádio era como se chamava na intimidade o carro da rádio-patrulha que policiava as ruas naqueles tempos, e que tinha uma implicância doentia com o inocente jogo de pelada nas nossas ruas de chão.
A gurizada, como o camelô da música do Billy Blanco, vivia com um olho na esquina e outro olho no freguês. Um drible daqui, um toque dali, um passe cruzado, uma cabeçada certeira e, antes de comemorar o gol, uma espiada ligeira para se certificar de que a barra estava limpa, e que era só correr para o abraço.
Naquele cenário poeirento das ruas do meu tempo, vivia-se todo o encantamento das ingênuas brincadeiras da nossa infância. A meninada não esperava que os adultos criassem fórmulas que estimulassem o seu imaginário. As brincadeiras eram todas elas "made in bairro", e ninguém se atreveria a contaminar a criatividade local com ritos sofisticados que negassem a tradição bairrística.
Não se reclamava da falta do que fazer, nem se esperava que uma autoridade qualquer criasse um dispositivo que estimulasse a garotada a sair atrás do seu sonho de criança. Os sonhos eram gerados espontaneamente e carregados para todo lado onde houvesse um espaço para brincar e parceiros para compartilhar.
Se o tempo era de bola de gude, andava-se para cima e para baixo com os bolsos cheios de bolinhas, desafiando um ao outro, para um simples jogo de mata-mata ou para um mais sofisticado, como búlica, zépio ou triângulo. Se era tempo de vento, então guardava-se as bolas de gude, e levantava-se as pipas, com todos os dispositivos de guerra, linha 10, cortante e rabiola bem feita, para que as manobras no ar fossem perfeitas, no momento de embolar.
Quando o tempo do vento estava por terminar, começavam novos desafios, no jogo de pica-pau, nas competições de cotoco e no cara ou coroa, valendo carteiras de cigarro ou figurinhas.
O pica-pau era um jogo extremamente criativo, composto de um pedaço maior de cabo de vassoura, que servia de bastão, e de um pedaço menor que era afinado nas duas pontas, como se faz ponta num lápis. A peça menor era pousada numa pequena cavidade do chão de terra, para receber a primeira tacada. O bastão tocava numa das pontas do pica-pau, como era chamada a peça menor, e com isso ela subia até uma certa altura onde era novamente tocada pelo bastão, desta vez com mais força, a fim de lançá-la à distância, e quanto mais longe fosse atirado o pica-pau, maior pontuação se conseguia.
O jogo de cotoco também era produzido a partir de cabos de vassoura, que eram cortados em pequenos toquinhos, que serviriam de jogadores, dez ao todo, dispostos nas tradicionais posições do futebol, como se costumava fazer com os botões. Havia uma baliza bem maior que a dos botões, defendida por um goleiro feito de um pedaço de madeira, à semelhança das caixas de fósforo que eram utilizadas no jogo de botões. A bola era de ping-pong e a paleta era um palito de sorvete que acertava a bolinha, em direção ao gol, depois de fazer tabelinhas com os jogadores de cotoco do mesmo time. Se a bola tocasse num cotoco do outro time, o jogador daquele time assumia o comando das paletadas. As regras eram simples e permitiam que todos se habilitassem a ter o seu time de cotocos, alguns mais caprichados, pintados na cor do seu time, mas o que contava mesmo era a técnica de dar o toque certo com a força
e a direção perfeitas. Goooool!!! Esse era o objetivo a ser atingido.
Mas, também se andava de velocípede e pati
nete. Crescendo-se, passava-se para os patins e a bicicleta. E nesse meio tempo, brincava-se de tudo que a nossa vocação permitisse. Pulava-se corda e amarelhinha, e se jogava pião. Garrafão, bandeira, carniça, chicotinho queimado e o pomposo "tudo que seu mestre mandar, faremos todos, e se não fizer, levaremos bolo".
Nos momentos de repouso, quando não se corria atrás de uma bola, ou um atrás do outro, curtia-se os gibis com os heróis da época. Mandrake, Fantasma, Super-Homem, Tocha-Humana, Homem Borracha e os mocinhos Roy Rogers, Gene Autry, Hopalong Cassidy e Rocky
Lane.
Os miúdos se deliciavam com Vida Infantil e Vida Juvenil, que contavam histó
rias do Lourolino e Remendado, Pituca, Reco-Reco, Bolão e Azeitona, Os sobrinhos do capitão e por aí afora.
O meu pai era atacado, ao chegar do trabalho, por mim e po
r meu irmão, que tentávamos capturar o jornal O Globo, que ele trazia debaixo do braço, tudo por causa das tiras de quadrinhos do Ferdinando Buscapé e da Violeta, do Pafúncio e da Marocas, Rex Morgan, Kerry Drake, Dick Tracy com seu radinho de pulso e outras figuras mágicas, que fizeram da minha infância uma colcha de recordações, com a qual eu me cubro até hoje, quando sinto o frio da iniqüidade que vem tomando conta da vida dos jovens de hoje em dia.
Há muito conhecimento e infinitas informações, há tec
nologia e ciência ao alcance de todos, há uma onda de expansão incrível do poder mental desta atual geração, mas há também uma carência enorme de sentimentos, emoções e sobretudo simplicidade para extrair o conteúdo espiritual de cada momento da vida, que é único, pessoal e intransferível.
O rádio era o pano de fundo daquela época, e nada se fazia sem que uma música se tornasse o elo definitivo entre o fato em si e as emoções provocadas. As modinhas de carnaval marcavam as épocas, os sucessos românticos fixavam o
s fatos na memória e os cantores marcavam com suas vozes os ecos que ressoariam por toda a vida em nossas mentes e corações.
"Lata d'água na cabeça, lá vai Maria"
, cantava Marlene. "Tomara que chova 3 dias sem parar", era a invocação da Emilinha. "Hoje é dia dos namorados, toda a Terra está em flor, só se vê menina e moça de braço dado com o seu amor", era o hino dos enamorados na voz de Blecaute.

E assim como em Curvelo, onde nasceu o Luiz Cláudio, o galo também cantava no meu quintal, não sei se da meia-noite pro dia, ou se já pela manhã , quando eu me dava conta que o sol entrava pela minha janela. O touro não berrava no meio da vacaria, mas o meu coração parecia sempre apertado a cada novo dia. A poeira lá fora me esperava, o coração batia forte. A turma da pelada estava me chamando, e era preciso ir correndo, porque tal qual o mineiro, esse pessoal chama a gente e vai andando.
E eu não queria perder nada, pois tudo era gostoso de ser vivido.
E enquanto tomava o café da manhã, a Dalva cantava Kalu, uma orquestra atacava Os pobres de Paris e eu me dava conta que o rádio era o verdadeiro relógio dos meus tempos. Hoje ninguém nem acredita, mas era assim que as coisas aconteciam nos meus tempos de criança, quando se vivia na Era do Rádio.















2 comentários:

Flora Maria disse...

Oi, Gilberto:
É muito bom morar onde ainda existem "ruas feitas de chão", não é mesmo ?
Deliciosa sua postagem, como sempre.
Beijo
Flora Maria

Gilberto Gonçalves disse...

Minha querida Flora :
Triste é saber que a maioria desse povo da cidade está doida para mandar trazer as avenidas, e acabar de vez com o tempo dos pardais.
Enquanto estivermos por aqui para cuidar delas, as nossas ruas ainda serão feitas de chão e certamente levantarão, vez por outra, um belo e nostálgico poeirão.
Beijo.
Gilberto.