sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Num domingo qualquer

Num domingo qualquer, perdido no tempo, mas gravado na memória, lá estava o rádio do vizinho ligado no tradicional programa dominical, que tinha como prefixo musical a valsa Branca.
A vila onde eu morava se enchia do sons que jamais seriam
esquecidos, por retratarem uma época em que música era sinônimo de melodia e ritmo tinha que ter harmonia. Os acordes suaves e melodiosos da valsa de Zéquinha de Abreu não podiam jamais ter ganho versos, pois a sua cadência harmônica não devia ser ofuscada por palavras ou vozes. A versão que era tocada no rádio era instrumental e não me deixava desviar a atenção de cada nota lançada no ar.
Naqueles tempos, as músicas de carnaval marcavam as épocas, não deixando muito espaço na memória, para as canções de meio de ano, como eram conhecidas aquelas que não eram gravadas para os carnavais.
Branca foi uma exceção na minha vida, não havia como esquecê-la, ela se impregnou nas minhas lembranças e repercutiu com tamanha profundidade em minha mente que, até hoje, não posso ouvi-la sem recuar no tempo, até um domingo qualquer da minha infância, nos anos 50.
Num desses domingos, me ficou retid
a uma outra lembrança, esta de cunho futebolístico, que até hoje relembro com certa emoção.
A televisão naquela época estava engatinhando, e poucos tinham o privilégio de possuir um aparelho de TV em casa. A TV Tupi alimentava a telinha com filmes, pequenos musicais, desenhos animados e umas partidas de futebol, reunindo n
as salas das famílias mais abastadas, crianças de olhinhos brilhantes e boquiabertas, com sorrisos congelados no rosto, como se estivessem hipnotizadas.
As pessoas do meu bairro que possuíam aparelhos de televisão eram consideradas ricas, pelos padrões da época. Ricas, elas não eram, mas seriam bem mais do que re
mediadas, como costumáva-se classificar a classe média.
Ricas, ou bem de vida, essas famílias eram simples e acessíveis, abrindo suas portas para os curiosos vizinhos, que se deslumbravam com programas ingênuos e desenhos animados recheados de cantorias e danças, que não eram o nosso sonho de consumo, mas que passavam sem restrições pela censura das c
rianças, inclusive dos garotos.
A Betty Boop cantava e dançava. Os Sobrinhos do Capitão faziam coro berrando uma melodia sem graça, que levava a criançada ao riso fácil. Virginia Lane, com suas pernas de fora, encantava os velhinhos sassaricando na Porta da Colombo e os nem tão velhos vizinhos da minha rua, que babavam diante de mais um E
spetáculos Tonelux.
Os jogadores de futebol eram mitos, vistos e admirados à distância pela meninada da minha rua, pois a televisão não os expunha abertamente como nos dias de hoje, pois os jogos televisionados só eram assistidos por muito poucos. O contato mais próximo que tínhamos com nossos ídolos era do alto da arquibancada ou esprimido contra o alambrado do campo do Bonsucesso, quando era dele o mando de campo.
Num desses domingos, quando o Bonsucesso receberia o Fluminense, os carros começaram a chegar, trazendo o público que vinha assistir o jogo. Como eu morava numa rua próxima ao campo do Bonsucesso, os automóveis iam estacionando ao longo do meio-fio, por toda a extensão da rua. De repente, quem sai de dentro de um desses carros que acabara de estacionar ? Nem mais, nem menos, do que o goleiro Castilho e o zagueiro Pinheiro. A proximidade daqueles dois craques, jogadores da seleção brasileira, me deixou em estado de graça, apesar de bater no meu peito um coração flamenguista.
A emoção não era clubista, nem fanática, como acontece nos dias de hoje, quando torcedores de clubes rivais se enfrentam e se agridem, a troco de nada. A garotada do meu tempo de menino admirava e respeitava os craques dos times adversários, como Ademir, Jair, Barbosa, Castilho, Píndaro e Pinheiro. Esses eram festejados e colocados nos mesmos pedestais de Dequinha, Rubens, Benitez e Evaristo, os meus ídolos rubro-negros.
A sensação de ter chegado tão perto dos craques tricolores ficou na minha memória, e a imagem dos dois, depois de sairem do carro e seguirem em frente, conversando naturalmente, como qualquer ser mortal, ainda permanece viva até hoje.
Dali até o campo do Bonsucesso era um caminhar curto e breve, e lá foram os dois, enormes e musculosos, dando a
mim, um garotola de menos de 10 anos, um sentimento de nanico. A fama dos atletas e a emoção que senti aumentaram, na certa, alguns metros de suas alturas, tornando-os maiores e mais fortes do que eram. Mas, as crianças registram os acontecimentos pelos olhos dos sonhos e das fantasias de seus infantis devaneios, pouco se importando com a realidade e a lógica dos adultos.
Voltei para casa, a fim de me preparar para ir ao jogo, na certeza de que veria a partida do Bonsucesso contra o Fluminense com outros olhos. Em campo, pelo lado tricolor, Castilho, Píndaro e Pinheiro. Julião, Bibi e Gonçalo, na defesa do rubro-anil leopoldinense. Nos altofalantes do estádio da Avenida Teixeira de Castro, o hino que fazia com que a pequena, porém valorosa torcida, vibrasse de orgulho do seu segundo time. Todos torciam para um time grande, tendo o Bonsucesso como seu segundo clube do coração.
"Para a torcida rubro-anil palmas eu peço...em cada esquina quem domina é o Bonsucesso".
A valsa Branca me embalava as manhãs de
domingo, o hino do Bonsucesso me fazia um aguerrido torcedor na parte da tarde. À noite, bem à noite, cansado e feliz da vida, o melhor a fazer era dormir cedo, pois no dia seguinte tinha escola.
Assim era na Era do Rádio, quando tudo começava e acabava com música. E feli
cidade era produto de fácil consumo, sem custar caro, nem dar muito trabalho.

6 comentários:

coach disse...

hoje fiquei emocionado com a foto que acabo de ver Bonsucesso e Fluminense em 1952 a onde esta meu pai com apenas 20 anos jogador do bonsucesso que saudade.
parabens pela reportagem
caso alguem tenha mais dessas foto me mande
cfggomes@gmail.com

Gilberto Gonçalves disse...

Oi, coach !
Sinto-me gratificado pelo meu trabalho de pesquisa, quando recebo comentários deste tipo.
Quem era o seu pai ?
Eu tinha somente 8 anos, em 52, mas já assistia todos os jogos no campo do Bonsucesso, torcendo bastante pelo rubro-anil leopoldinense, desde que do outro lado não estivesse o Flamengo.
Dois times do Bonsucesso foram muito bons naquela década de 50.
O mais antigo possuía um ataque sensacional com Lupércio, Saladura, Simões, Naninho e Hélio.O outro time era formado por Julião, Bibi e Gonçalo, Décio, Pacheco e Paulo, Milton, Geraldo, Válter Prado, Jair Francisco e Nilo.
Ah, meu amigo, quem é capaz de hoje em dia, escalar qualquer time dessa forma, se os jogadores não mais vestem as camisas dos seus clubes, mas aquelas que trazem debaixo do uniforme, para exibirem todo o seu egocentrismo, quando marcam um gol!!!
Continue visitando o Na Era do Rádio, pois eu continuarei garimpando essas notícias do meu tempo de criança, para suscitar lembranças e emoções aos que me lêem.
Um abraço.
Gilberto.

coach disse...

Ola Gilberto!!
parabéns outra vez pela reportagem, o nome do meu pai é o Gonçalo que saudades me lembro quando criança as histórias que meu pai contava sobre os jogos, sobre a época mágica dos gramados, tempo em que existia amor pelo futebol, muita saudades. Concordo plenamente quando você diz. Quem é capaz de hoje em dia, escalar qualquer time dessa forma.
Um grande abraço e obrigado por essa recordação tão boa de ver meu pai fazendo aquilo que ele mais amava.

Gilberto Gonçalves disse...

Oi, coach !
Quer dizer que o seu pai era o Gonçalo !!!
Ele era um beque muito firme, bom nas bolas altas e duro nas divididas, mas, muito leal.
Assisti com grande entusiasmo, muitos jogos em que ele participou, pois ele fez parte do melhor time do Bonsucesso que vi jogar. A defesa era muito boa e o ataque muito eficiente.
Eu era uma criança de mais ou menos 11 anos, mas sabia tudo de futebol, E não perdia os jogos de domingo, que eram pura magia, com o estádio lotado, as bandeiras tremulando no alto da marquise e a Teixeira de Castro cheia de carros e de gente.
Uma loucura !!!
Um abraço.
Gilberto.

coach disse...

Oi Gilberto!
SOU OUTRO FILHO DELE, O MAIS VELHO rggomes63@hotmail.com
Estou muito emocionado vendo fotos do meu pai {Gonçalo} não me lembrava, alias não tinha nenhuma foto dele, perderam-se com o tempo graças a você amigo me deixou muito feliz poxa muito legal ver meu pai com o uniforme do Bonsucesso time que ele tanto falava e amava.
ABRAÇO

Gilberto Gonçalves disse...

Oi, amigo, filho mais velho do Gonçalo !
Como já respondi para o seu irmão, o time do Bonsucesso, no qual o seu pai jogou, encantou uma época da minha infância.
Sinto-me contente, por ter despertado essas boas recordações em vcs dois.
Visite-me sempre, pois o Na Era do Rádio tem sempre algo gostoso de se recordar, mesmo quando não se viveu naquela época de pura magia.
Um abraço.
Gilberto.