A minha intenção não foi criar um espaço dedicado à história do rádio no Brasil.
A minha motivação veio do fato de ter nascido na época de ouro, da chamada Era do Rádio.
O título expressa um tempo, e não o intento de analisar o fato.
As tendências e os hábitos da época serão registrados, da forma como eu os vi e vivi.
Não pretendo ser nostálgico ou saudosista, senão apenas manter, vivos na memória, os hábitos e comportamentos de uma época.
Administrador comercial aposentado, um autodidata em numerologia, desde 1990, com metodologia própria denominada Numerologia da Alma, baseada na interpretação kármica dos princípios pitagóricos.
Curso de Parapsicologia no Instituto Joseph Murphy. Iniciação esotérica na Doutrina Secreta, em Ordem Iniciática Teosófica, com aprofundamento no esoterismo cristão-cristíco. Inspirado na vida espiritual, pela sabedoria do Senhor do Sétimo Raio, Mestre Saint Germain. Ecologista, escritor, cronista, poeta e instrutor de numerologia. Cursos ministrados no Rio de Janeiro,palestras realizadas no Rio e em São Paulo, com destaque para a proferida no Ministério da Fazenda no Rio, em 2005, sob o tema Numerologia e Auto-conhecimento. Palestrante do Circuito SEBRAE-2004, em diversas cidades do interior paulista, com o tema Auto-conhecimento e Espiritualidade.
Analista de mapas numerológicos e promotor de cursos, no sítio onde moro, desde 1992, em São Lourenço-MG.
O rádio do vizinho tocava Pobres de Paris, enquanto agachado junto à entrada da vila, eu jogava cara ou coroa, apostando carteiras de cigarro. O cassino se formava, sem nenhuma ostentação maior do que uma simples moeda que faria o papel da roleta. Ela girava sobre a calçada e decidia a sorte de cada rodada de apostas. O dinheiro eram carteiras de cigarro, que a garotada colhia nas ruas, e guardava em maços que se assemelhavam bastante às cédulas da época. No lugar das notas de 1, 5, 10 ou 100 cruzeiros usava-se carteiras de cigarro com cotações variadas, que obedeciam as oscilações do câmbio das esquinas. Algumas marcas de cigarro valiam muito pouco, pois eram facilmente encontradas. Outras, bem mais raras, valiam mais, e assim se estabelecia um câmbio livre, em que as cotações variavam ao sabor das ofertas e procuras do mercado infantil. Astória, Caporal Douradinho, Lincoln, Continental, Hollywood e outras marcas populares tinham uma baixa cotação entre a meninada, mas se aparecia cigarro americano na praça, todos faziam suas apostas, na tentativa de tomar posse daquela raridade. Mas, não era nada fácil. O dono da marca pedia alto para casar aquela jóia rara numa rodada de apostas. Os valores eram livres, dependendo do interesse da turma de tomar posse das valiosas carteiras de cigarros americanos. Pall Mall, Lucky Strike e outros títulos estrangeiros inflacionavam o mercado, com seus valores absurdos, estipulados por seus donos, na tentativa de quebrar a banca, provocando a cobiça dos demais jogadores. Se o maço de cigarro era todo ele escrito em inglês, a sua cotação era de 1 para 50, 100 ou até mais de outras marcas. Os menos valorizados serviam só mesmo para passar tempo, casando-se na base de 1 x 1. A verdade é que, quando surgiam aquelas marcas raras ou até desconhecidas, os negócios eram decididos sem a tradicional cara ou coroa, mas na base das trocas negociadas, em que cada interessado dava o seu lance, num autêntico leilão. Tudo isso era organizado e executado pela criançada, sem interferências dos adultos. Cada guri tinha o seu cofre, com suas reservas cambiais e suas cotações bem administradas. Os locais, onde se davam as trocas e os jogos, eram as esquinas, as calçadas e debaixo dos postes, à noite. Não se esperava que a Prefeitura construísse um parquinho para servir de ponto de encontro, nem que patrocinasse alguma competição com oferta de prêmios. A garotada sempre criava as suas próprias regras e jamais se recorria a um adulto para decidir quem estava com a razão. O grupo se reunia e decidia ali mesmo, quem deveria pagar e a quem caberia receber, e não se discutia mais. Se alguém ousasse se rebelar contra a decisão, estava fora das futuras rodadas de negociações. O nosso tempo era todo ocupado, não se tinha espaço para bocejar de tédio, nem lastimar da falta do que fazer. Se era tempo de negociar com carteiras de cigarros, todos se preparavam em casa, e já saíam para a rua, com suas reservas em caixas ou sacos, prontinhas para serem lançadas à sorte, num canto da calçada ou na próxima esquina. Os jogos eram quase sempre pela manhã ou no início da tarde, para não atrapalhar o jogo de pelada, que se iniciava invariavelmente lá pelas 3 da tarde e se encerrava no início da noite. Assim gastávamos o nosso tempo, em coleções, trocas, competições e nas tradicionais peladas de rua. A garotada brincava, gritava e comemorava cada conquista, fosse ela, na pipa, na bola de gude, nas figurinhas, nas carteiras de cigarro ou no gol da pelada da tarde. A alegria da molecada estava sempre no ar, acompanhada muitas vezes dos chorinhos do Parque de Diversões, ou dos sucessos que, Jorge Goulart com sua Laura ou Ataulfo com sua Amélia, cantavam e encantavam toda a vizinhança. Aquele era um tempo diferente, sem medos, sem vírus, sem milícias, sem drogas. O rádio dava o tom e a gente procurava não desafinar. Tudo era alegria e fantasia, que muitos podem ver como nostalgia, mas que, na minha memória, não passa de uma época de magia, que deixou saudades e que ficou conhecida como a Era do Rádio.
Há 103 anos atrás, no dia 4 de maio de 1906, nascia em Salvador, na Bahia, o grande músico e uma das criaturas mais inventivas e pioneiras que conheci, o saxofonista e meu tio, Sandoval Dias. Tendo casado com minha tia Amélia, em 6 de março de 1948, quando eu só tinha 4 anos de idade, tio Sandoval marcou a minha infância com seus hábitos pioneiros, para o menino criado na vida simples de uma família de classe média da época. A sua condição de artista da Rádio Nacional, na Era do Rádio, já o tornava um ídolo de minha meninice, alguém que trouxe a fama do estrelato para dentro da família. Se não era bem assim, não era outra a visão que eu tinha do meu tio músico. O seu saxofone dourado parecia, aos meus olhos de criança, uma peça de um inestimável valor, que avalizava e engrandecia a sua condição artística e musical. E se, de repente, numa reunião em família, meu tio punha-se a tocar, aí mesmo é que os meus sonhos de grandeza não tinham mais fim. Tio Sandoval introduziu hábitos e valores, na vida da família, que eram absolutamente revolucionários para aqueles idos tempos do final da década de 40 e início dos anos 50. Máquina de filmar e projetor reproduziam na tela os encontros em família, os batizados dos filhos, os nossos aniversários ou simples reuniões de domingo, em torno da mesa farta com a casa cheia. Lembro-me de uma noite em que a vizinhança pôde assistir a uma sessão de cinema, num telão que meu tio estendeu do outro lado rua, onde projetou desenhos animados do Popeye e Olívia Palito e comédias do Gordo e o Magro e do Carlitos. Isso, numa época em que não havia televisão e que os cinemas ainda não haviam começado a se espalhar pelos bairros, como veio a acontecer nas décadas de 60 e 70. A criançada ficava deslumbrada, diante daquele projetor com seus carretéis mágicos, girando e projetando imagens, que eram lançadas através de um foco de luz numa tela branca. A emoção de poder escolher o filme que queríamos assistir, e ver os personagens que só conhecíamos das tiras de jornal ou das poucas revistinhas infantis da época, era algo indescritível e inteiramente despropositado para os tempos modernos. E o que dizer do fato de poder assistir a própria imagem na tela, brincando com os primos ou correndo atrás do Cipó, o cão do meu tio, que ganhou o nome em homenagem ao amigo e músico! A casa de Paquetá, para finais de semana, foi outra iniciativa revolucionária do meu tio Sandoval, para aquela época, e principalmente para aquela família com uma vida rotineira e previsível. As casas de Paquetá, lembro-me de duas delas, e nem sei se houve outras, marcaram a minha infância, deixando lembranças que ainda hoje me fazem suspirar de saudade. As sextas-feiras à noite, ansiosas e quase angustiantes, pareciam não ter fim, encumpridando as madrugadas e criando uma expectativa deliciosa para a chegada das manhãs de sábado. O cheiro de maresia da Praça XV, o ronco do motor das lanchas ou o suave contato das pás das barcas com as águas da baía, deixavam o meu coração aos saltos, enquanto eu sorvia o frescor da manhã, a caminho de Paquetá. As férias em Lambari foram mais uma criação do meu tio Sandoval, que conseguiu convencer os meus pais a passarem uma semana num hotelzinho familiar e aconchegante, naquela aprazível estância hidromineral do sul de Minas. A experiência foi maravilhosa, e me deixou em estado de graça, por viajar de trem maria-fumaça, chegando à noite no hotel, e sendo acolhido com muito carinho pelos proprietários, que logo pude perceber, tinham o meu tio em alta conta. Aprendi a admirar o tio Sandoval por esses pequenos detalhes familiares, que ele, como poucos, sabia valorizar e usufruir com alegria e descontração. A sensação é que tudo era muito fácil para ser conseguido, ele parecia ter um jeitinho todo especial para descomplicar tudo e extrair prazer das coisas mais simples. Essa recordações, e o sentimento de que o tio Sandoval foi tão importante para a minha vida, quanto o músico Sandoval, para a musicalidade brasileira, fizeram-me escrever este texto, em que presto-lhe uma homenagem pelos 103 anos do seu nascimento. E ao som dos Boêmios, conjunto em que tocou, durante a década de 60, vou encerrando esse rosário de belas recordações da minha infância, quando tudo começava e acabava com música. Afinal de contas, vivi e convivi com as rotinas musicais da Era do Rádio, e ainda tive o privilégio de fazer parte do cotidiano de um dos protagonistas daquela época, o grande sax-tenor Sandoval Dias.