
Eu e meu irmão nos arrastávamos no chão de tacos a jogar botões.
No rádio, Dalva de Oliveira cantava Kalu.
A tarde já ia pelo fim, e logo chegaria a noite.
O Programa Julio Louzada contaria mais uma história dramática, e daria conselhos a alguma ouvinte apaixonada, que para lá escrevera por conta de desditas amorosas.
Depois era a hora e a vez da Oração da Ave-Maria, pelo mesmo Julio Louzada, com sua voz solene, que repercutia por toda a vila onde eu morava, com suas palavras pausadas - Ave-Maria cheia de graça...
Como fundo musical, Ave-Maria de Gounod, dava o tom solene à oração. E todo
- Bendita sois vós entre as mulheres...
Nenhum outro som se ouvia em toda a rua, senão a récita da Ave-Maria, na voz coloquial de Julio Louzada.
A noite logo iria cair, e às 7 horas, de banho tomado, eu me sentaria à mesa para jantar. Antes disso, calado, em torno do rádio, eu aguardava o sinal de minha mãe de que o prato já estava na mesa, enquanto acompanhava as aventuras de Jerônimo, o herói do sertão, que me chamava a dar tratos à imaginação, e segui-lo pelos arredores de Cerro Bravo, a perseguir o Caveira e o Chumbinho, seus eternos inimigos.
- Chumbinho, apresente o seu relatório.

A cavernosa voz do Caveira cobrava do seu capanga a notícia que ele tanto gostaria de ouvir, a da morte de Jerônimo.
Mas, Chumbinho, contrariando as expectativas, afirmava : "Jerônimo escapou novamente".
- Maldição! - era o Caveira desconsolado com mais um fracasso.
Ao pé do rádio, eu vibrava, nos meus 9 anos, ingênuos e sonhadores, com mais aquela façanha do herói Jerônimo, que voltaria são e salvo para os braços de sua noiva Aninha, galopando ao lado do seu fiel companheiro, o Moleque Saci.
- O prato já está na mesa!
Era a voz da minha mãe convocando marido e filhos para o ritual da janta.
Daí a pouco, o rádio seria desligado, aos primeiros acordes de O Guarani, anunciando mais um programa da Voz do Brasil.
Eu nunca entendera, na minha ingenuidade, para que servia um progr

Muitos anos mais tarde é que eu pude entender, graças à Rede Globo, que existe uma regra global que afirma que uma mentira repetida por sucessivas vezes pode tornar-se uma verdade reconhecida pela massa globalizada.
O Jornal Nacional e as novelas são os exemplos vivos dessa regra, que poucos se dão conta de estarem seguindo-a no seu dia-a-dia.
A nossa noite radiofônica iria prosseguir, às 8 horas, com o Direito de Nascer, uma lacrimosa novela que tinha o choro da mamãe Dolores e um enredo dramático sem precedentes na minha vida infantil.
Entristecido pelos sofrimentos da pobre mamãe Dolores, eu aguardava an

O meu preferido era o Balança mas não cai, todas as sextas-feiras, na mesma Rádio Nacional, que acabara de tocar os últimos acordes do encerramento de mais um capítulo da novela.
O humor do Balança mas não cai compensava os dramas e as desgraças do Direito de Nascer. Era a eterna balança, colocando, num dos pratos, o lado triste da vida e no outro, um humor cheio de irreverências.
E assim eu ficava embevecido com as graças do Brandão Filho e do Paulo Gracindo, no quadro do Primo Pobre e Primo Rico, enquanto aguardava o Peladinho, um torcedor rubro-negro que sofria com o resultado do Flamengo no último final de semana.

Chegava a hora do sono, o rádio era desligado e a casa silenciava.
Mais um dia chegava ao fim, mas só depois do rádio ser desligado.
Era assim que se vivia na Era do Rádio, sem estresses, sem depressões e sem vacinas para as nossas gripes ou para as nossas benditas doenças imunizadoras.
E pensar que a gente sonhava com um futuro sem doenças e sem crises. Mas, tudo não passava de fantasias na cabeça de uma criança. Uma criança sonhadora que viveu a sua infância Na Era do Rádio.