sábado, 3 de abril de 2010

Semana Santa !!!

Meus ecumênicos leitores, eis-nos à véspera de uma nova Páscoa, não aquela Páscoa dos tempos idos da Era do Rádio, mas uma Páscoa moderninha, como tudo que se faz hoje em dia, cheia de apelos comerciais e quase nenhuma tradição religiosa.
Lembro-me, ainda garoto, ao lado do meu pai, numa sexta-feira santa, tentando sintonizar as estações de rádio, em busca de meus programas musicais.
Mas, qual o quê ! Nada de programações profanas, só se ouviam músicas clássicas, no bom estilo Bach, o que, para o meu gosto na época, eram músicas fúnebres, tristes e depressivas. Ou seriam deprimentes ?
Tocava no rádio a Valsa das Flores de Tchaikovsky, com seus acordes melodiosos e nostálgicos, que me deixaram tristonho, com vontade de chorar. Creio que a intenção era esta mesmo, a de nos obrigar a lamentar, com lágrimas nos olhos e um aperto no peito, a morte do Cristo Jesus. Isso, sem dúvida, favoreceria a introspecção e a reflexão sobre os acontecimentos pascais.
Os adultos cultuavam esses rituais de Páscoa, que começavam com uma atitude de introspecção na sexta-feira da Paixão, tinham o seu momento de preparação no sábado de Aleluia e culminavam com os festejos do domingo de Páscoa.
Confesso-lhes, meus fiéis leitores, que as crianças sofriam muito mais do que os adultos. Pode parecer um exagero, uma heresia descabida, mas elas padeciam quase tanto quanto o Cristo na cruz.
Esta sensação era a expressão mais próxima do que ia na alma da garotada do meu tempo, que era forçada à abstinência dos prazeres diários, sentindo, na própria carne, o sofrimento por que passou o Cristo.
E quando falo da tal abstinência, por favor, me entendam, não me refiro à carne ausente do prato ou do leito, mas à falta da bola de pelada na rua quicando na calçada e da molecada gritando goooollll.
Quando chegava o sábado, não havia como conter o ímpeto punitivo de malhar o Judas. Descarregava-se sobre um boneco de pano, recheado de jornal, toda a ira guardada de véspera, menos pela traição a Jesus, e mais, muito mais, por ter sido o responsável pela nossa frustração reprimida.
Malhado o Judas, a bola voltava a rolar nas ruas, e toda a tristeza ficava para trás. Os rádios voltavam a tocar os sucessos da moda, o sol voltava a brilhar com o mesmo brilho de anteontem e o motivo de tanta tristeza ficava esquecido até o ano que vem.
Chocolate, muito pouco. Presentes, nenhum.
Naquele tempo, presentes, só nos aniversários e no Natal.
Baile de carnaval, no sábado de Aleluia, Deus nos livre e guarde !
Modinhas, chorinhos e as marchinhas, essas, sim, voltavam a ocupar seus espaços nas programações das estações de rádio.
Os aparelhos de rádio, que tinham ficado calados, ou sussurrando, desde a quinta-feira santa, voltavam a alegrar nossas vidas, com a chegada do sábado de Aleluia.
Naquela época, não se falava tanto de Jesus, e as estações de rádio tinham seus programas religiosos, mas eram poucos, comparados a hoje em dia.
A fé religiosa era um produto de consumo privado, quase solitário. Calava-se, na hora da Ave-Maria e rezava-se o terço, durante as missas. Mas, percebia-se mais sentimento nas crenças e maior consciência no ato de praticar a religiosidade.
Hoje, fala-se muito, e se faz muito pouco, ou quase nada.
Comemora-se a Paixão de Cristo, passeando-se e fazendo turismo, longe de casa.
Os rádios tocam, aos berros, os sucessos do momento , recheados de estupidez e pornografia. E tudo numa boa !
Depois da pregação do Padre Marcelo, lembrando o verdadeiro sentido da Páscoa, num simbolismo da passagem da Matéria para o Espírito, relembrando a libertação do povo judeu, em sua fuga do Egito, tudo volta a ser como era antes.
Quem se importa com essas explicações ? Elas são técnicas demais para a fé moderna, que se satisfaz com o culto de meio de semana, missas aos domingos e os programas radiofônicos e televisivos dos padres e pastores.
Os shoppings ficam cheios de pais desesperados para encontrar os brinquedos cobrados pelos filhos. As lojas são decoradas com ovos de Páscoa, seduzindo a gula dos que ainda insistem com o falso jejum de não comer carne.
Pensando bem, meus nostálgicos leitores, na Era do Rádio curtíamos a nossa tristeza na semana santa, mas éramos muito mais felizes no resto do ano.
E creio mesmo que tínhamos mais fé e éramos mais respeitosos com a celebração da morte de Jesus.
Naquela época, na minha mente infantil, eu achava que não era certo ouvir rádio alto, se uma pessoa amada houvesse morrido. Eu não jogava o pão fora, sem antes beijá-lo, numa atitude de respeito com um objeto sagrado. Podia ser ingenuidade demais, mas havia pureza, o que tornava nossos atos mais dignos.
E a música, sempre a música, como pano de fundo de todos os nossos momentos.
"Jamais te esquecerei, por toda a minha vida, és tudo que eu sonhei, oh, minha querida..." Era o rádio do vizinho, sintonizado no programa de domingo, num domingo de Páscoa, na Era do Rádio.

8 comentários:

marliborges disse...

Olá Gilberto, tens razão, a Páscoa naqueles tempos era dureza, e sei porque também sou daquele século, rsrs, mas por outro lado, era uma coisa diferente, um acontecimento. E a gente gostava, claro. E o sábado de aleluia então, era um verdadeiro prêmio!!!. Mas, brincadeiras à parte, vou te contar uma coisa, gosto mais dos tempos de agora, com todos os defeitos que tu apontastes, eu ainda prefiro agora. Por muitas razões, outra hora te conto. Se tenho saudades das páscoas do passado? Sim, afinal foi a "aurora da minha vida", mas é só isso. As crianças de agora tem outras opções, outros modos de serem felizes. Tá faltando educação, mas isso não é culpa dos novos tempos, é culpa dos pais, acho. E vou perder a chance de falar? Agora sou avó, boto a boca no mundo, hehe, cá entre nós!
Beijo grande, linda páscoa.

Gilberto Gonçalves disse...

Oi, Marli, que bom tê-la de volta !
Quem lê as minhas postagens deste blog há de pensar-me um saudosista, daqueles que se prendem ao passado e que lastimam o presente. Engano, ledo engano.
Neste blog, eu sou um mero contador de histórias do meu tempo de criança, e quando me transporto até lá, não posso furtar-me às comparações.
Hoje, sem dúvida, vive-se melhor, tem-se melhores opções de trabalho, estudo e lazer. Mas,falta um conteúdo essencial aos jovens de hoje em dia - a família.
Sem família é muito difícil falar-se em educação. Sem a presença da mãe para dar carinho e de um pai responsável para mostrar o valor da ética e da honestidade, os jovens ficam sem referenciais.
A consequência mais visível dessas carências é o apego excessivo aos valores materiais que produz uma falsa alegria, sempre muito regada a álcool e na dependência de disponibilidade de dinheiro para gastar.
Os jovens estão num limbo muito triste, onde promovem farras e consomem drogas para mascarar a perda de rumo com que se confrontam.
A solução para tudo isso vem das crianças que estão nascendo nos últimos 10 anos, mais ou menos. São almas sábias e independentes, que sabem o que vieram fazer neste mundo. Esses seres conseguem lidar tão bem com a matéria e com o espírito. Elas são íntimas da tecnologia moderna, mas não negam os dons espirituais. Elas são as grandes transformadoras desta Nova Era. E não há pais que possam atrapalhar o desenvolvimento dessas crianças, pois elas agem como os verdadeiros adultos.
Os adultos estão contaminados pela globalização. Os jovens entregues aos prazeres do mundo. Mas, as crianças são sábias, sensíveis, psíquicas e intuitivas. Elas sabem o que querem, e só esperam a sua hora chegar.
Mas, isto é tema para o meu outro blog, o Alma Mater.

Feliz Páscoa para todos os seus.
Um forte e carinhoso abraço.
Gilberto.

marliborges disse...

Mas é isso aí amigo, por isso acredito no novo mundo, mas para se chegar a borboleta é preciso antes ser lagarta, a gente sabe. Estamos em plena travessia, lugar onde situam-se as maiores crises. É esse o mundo no qual estamos vivendo na atualidade, o nosso mundo. Deus queira que estejamos vivos para contemplar o novo alvorecer, o mundo novo que nossas crianças farão existir. Abraço forte. Já vi que trocaremos muitas idéias e isso é muito bom.

Flora Maria disse...

Meu querido Gilberto, companheiro nessa saudosa viagem ao passado.

Só quem viveu nesses tempos tão antigos pode entender os sentimentos sentidos, as emoções reprimidas.

Não sei se gosto mais dos tempos de agora...
Vejo um mundo tão feio, vulgar, exageradamente liberal, totalmente consumista, desapegado das tradições e da família.
A tristeza de uma Sexta-Feira Santa, a melancolia de uma Quarta-Feira de Cinzas, eram momentos necessários para o perfeito equilíbrio das emoções.

Enfim...

Feliz Páscoa !

Beijos, muitos beijos.

Gilberto Gonçalves disse...

Minha amiga, Marli, também entendo que temos muitas idéias a trocar, ao longo do caminho.
Eu tenho plena consciência de que é preciso conhecer o mau para reconhecer o bom, e que é através dos erros que aprendemos a acertar.
Acontece que eu possuo 2 blogs, num coloco minhas visões mental e espiritual e no outro liberto os meus sonhos e emoções.
Procuro não misturar os sentimentos, para não prejudicar a autenticidade das lembranças e da memória emocional dos meus tempos de criança.
Essa prática é semelhante à figura psicológica de caminhar com a cabeça nas nuvens, sem tirar os pés do chão. Isto, sem dúvida, não é fácil. Por isso, peço desculpas aos meus leitores, se as minhas idéias e conceitos, muitas vezes, parecerem estar em conflito, para quem frequenta os dois blogs.
Achei que lhe devia esta explicação, por concordar mental e espiritualmente com as suas teses, mas por sentir de modo diferente.
Volte sempre, que eu também irei aí, no seu blog, fazer umas sadias provocações.
Bom dia de Páscoa.
Gilberto.

Gilberto Gonçalves disse...

Minha querida, Flora, acho que acabei antecipando a sua resposta, ao responder a Marli.
Nós adoramos o mundo em que vivemos e que construimos juntos, mas não podemos evitar um sentimento de perda de valores sociais, morais e espirituais, que temos dificuldade de digerir.
Nós valorizamos o respeito, a dignidade, a ética e a nobreza de atitudes, mas estamos cercados por ações chulas e vulgares.
Como costumamos dizer, e agora mais do que nunca, está faltando charme, pois o que se promove é o popularesco, como se isto fosse bom para o povo, quando entendemos ser exatamente o contrário. Mas, o que fazer, senão cumprir a nossa missão e ajudar os demais a cumprirem as suas ?
Não podemos mudar os outros, mas podemos controlar os nossos sentimentos, para aceitar a cada um, sem pretender assumir a condição de donos da verdade.
Nós sabemos que estamos fazendo a nossa parte e cumprindo as nossas missões.
Um beijo, meu amor.
Gilberto.

Helena Teixeira disse...

Olá Gilberto!
E lá se passou mais uma Páscoa.A minha foi simples,mas muito boa:missa e almoço em família,seguido de passeio até a praia em Aveiro e visita aos afilhados.Tudo simples e unido.

Jocas gordas
Lena

Gilberto Gonçalves disse...

Oi, Lena :
Páscoa é isso mesmo! Fé para alimentar a alma, mesa farta para alimentar o corpo e passeio para alimentar as emoções.
E a vida continua.
Um abraço carinhoso.
Gilberto.