terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

FUTEBOL DE SALÃO, MAS PODEM CHAMAR DE FUTSAL

Meus caros leitores, já há bastante tempo que não percorro estas linhas esquecidas do Na Era do Rádio. Reconheço que estou em falta com meus seguidores, mas vou tentar me redimir da falta e ocupar mais amiúde esses espaços.
Hoje, vou relembrar um tempo em que o futebol de salão surgiu e começou a ganhar força, até se tornar a potência que é hoje, sob a abreviatura de futsal.
Os atuais aficionados do futsal nem imaginam como tudo começou. No início, a bola era recheada com serragem e as regras completamente diferentes.
Eu fiquei deslumbrado com aquela modalidade social de se jogar futebol, dentro de uma quadra e com somente quatro atacantes e um goleiro. O goleiro não podia sair da área para ir atacar o gol adversário, e os atacantes não podiam fazer gol de dentro da área.
Da casa da minha tia, na Avenida Paris, eu acompanhava os jogos do campeonato interno do York, um clube tradicional de Bonsucesso. Por cima do muro, eu assisti inúmeras partidas, realizadas na quadra do York, enquanto sonhava em me tornar um futuro jogador de futebol de salão.
A oportunidade surgiu, quando o Bonsucesso resolveu realizar o seu campeonato interno, com a intenção de selecionar os atletas que iriam compor os seus quadros Juvenis e de Primeira Divisão. Era o ano de 1959, eu estava com 15 anos, e lá fui eu trocar o chão de terra, onde eu jogava minhas peladas descalço, por um piso de cimento, onde se atuava com tênis.
O meu time foi vice-campeão do Torneio Interno do Bonsucesso, e eu fui selecionado para formar o primeiro grupo de jogadores juvenis do futebol de salão do clube. O nosso primeiro treinador era um torcedor entusiasmado pela nova prática esportiva, e uma figura popular no clube, conhecido por Cacareco. Cacareco permaneceu pouco tempo no comando, sendo substituído pelo Faria, um renomado ex-jogador do York e do Paranhos, e que foi um dos grandes nomes da sua época.
O time juvenil do Bonsucesso fez uma campanha vitoriosa no campeonato carioca de 1960, permanecendo invicto até o último jogo que disputou, após 22 partidas, em que venceu vinte e uma e empatou uma. No jogo que iria classificá-lo para a decisão, o time perdeu para o Vila Isabel, que jogava um futebol de salão jamais visto em tempo algum.
A base do time do Bonsucesso era Carlinhos, Carlinhos e Oberdan, Waldyr e Gilberto (eu). O goleiro era o Carlinhos Gordo e o ala direito o Carlinhos Magro. O nosso time era muito bom, e não foi à toa que se manteve invicto por tantos jogos. Eu fui o artilheiro do time com 36 dos 95 gols marcados durante toda a competição. E ficamos classificados em 3º lugar.
No ano seguinte, em 1961, o Bonsucesso desistiu de participar do campeonato, e o grupo se transferiu para o Fluminense. Com a transferência, fomos obrigados a esperar por uma decisão da Justiça Esportiva, e só participamos do Supercampeonato, quando, mais uma vez, viemos a ser derrotados somente na última partida, e desta vez pelo Esporte Clube Minerva.
Em 1962, eu fui promovido diretamente do juvenil para o quadro principal, tendo estreado oficialmente num amistoso contra o time do América, que havia conquistado o título no ano anterior. A minha estréia foi muito auspiciosa, pois entrei no segundo tempo, fiz dois gols e ajudei o Fluminense a empatar de 3x3, quando havia perdido o 1º tempo por 3x0.
O grupo do Fluminense que participou dessa partida foi formado pelos goleiros Djalma Santos, Blanco e Nelson, os alas Chiquinho, Eurico, Norberto e Gilberto (eu), os zagueiros Ronald Moreira, Careca e Walbert, e os pivôs Djalma Navarro e Hugo. O treinador era o Betinho. O local do jogo foi no Ginásio do América, localizado na Rua Campos Sales.
Durante o campeonato de 1962, eu fui o titular da posição durante grande parte da competição, porém problemas, devido à política interna do clube, acabaram por me afastar definitivamente do Fluminense. Fizemos grandes partidas, conquistamos excelentes vitórias e nos classificamos para o Supercampeonato, que foi disputado no Maracanãzinho.
No entanto, com atuações bisonhas do time escalado pelo treinador, enquanto ficavam no banco os atletas que tinham sido determinantes para a classificação, o Fluminense não venceu nenhuma partida e foi vaiado por sua torcida. Isto me desagradou profundamente, levando-me a desistir de disputar o campeonato seguinte pelo Fluminense, e passando a defender a agremiação esportiva do Curtume Carioca da Penha, onde fui recebido com honras de celebridade.
Sem participar de campeonatos oficiais, mas enfrentado os grandes clubes da época, o nosso grupo fez história, vencendo torneios e fazendo brilhantes apresentações em confrontos diretos com clubes de renome como Minerva, Imperial, Vasco e o próprio Fluminense.
Eu sou o 1º abaixo à direita

Eu não poderia deixar de mencionar o time titular do Curtume que se tornou uma lenda na Leopoldina, e quase imbatível. Paulinho, no gol, Milton na zaga, Ari na ala direita, Gilberto (eu) na ala esquerda, e Tarinho de pivô. O nosso treinador principal foi o Wilson, uma grande figura humana.
Algumas fotos e reportagens nos jornais da época dão o ar decisivamente nostálgico a esta postagem. Jogar futebol de salão no Curtume foi o momento consagrador na minha carreira, pois a torcida, com o ginásio repleto a cada jogo, vibrava com as nossas sucessivas vitórias, indo ao delírio, quando o adversário derrotado era uma equipe famosa.
Ter atuado pelo Fluminense me fez muito feliz, apesar de torcer pelo Flamengo. O clube da Rua Álvaro Chaves recebeu-nos, a todos nós suburbanos, como a rapaziada nos chamava, com muito carinho e com uma estrutura de apoio que era de causar inveja à maioria dos clubes que disputavam o campeonato.
Daquela época, ficou a certeza que o esporte exige do atleta, antes de qualquer ganho ou benefício, o prazer de jogar. Hoje em dia, discute-se por salário, e troca-se de camisa, como se as cores da agremiação não tivessem o menor valor. E isto se aplica a todos os esportes profissionais, e dentre os quais o futsal, herdeiro do futebol de salão.
Sinto saudade dos meus tempos de jogador e artilheiro, não por querer voltar no tempo, mas por ter usufruído do privilégio de viver uma época em que se extraía prazer de coisas simples. Época em que o maior prazer de quem gostava de futebol era poder jogar, sem ficar a fazer contas das cifras que um ou outro clube ofereceria a mais.
Participei de uma época de ouro na história do futebol de salão, quando craques jogando tanto quanto o Falcão, muito exaltado nos dias de hoje, eram comuns dentro das quadras. O maior deles, sem duvida, foi o Serginho, do time de Vila Isabel, mas o Adilson, seu irmão e companheiro de clube, o Paschoal, do Minerva, o Djalma Navarro, do Fluminense, eu e o Waldyr, meu companheiro do Bonsucesso e do Fluminense, e o Tarinho, do Curtume, não ficavam para trás.
Em 1963, abandonei a carreira, para me dedicar ao namoro e me preparar para o casamento. Tudo tem seu tempo, meu saudoso leitor, tempo de marcar o gol e tempo de dar bola. Eu dei bola para Flora, e marquei o gol mais importante desta vida.
E dizer que tudo começou num tempo de sonhos e ideais, numa época inesquecível e romântica, conhecida por quem nela viveu como a Era do Rádio.







Excursão do Fuminense ao Paraguai


6 comentários:

Flora Maria disse...

E pensar que eu estava lá, nesse famoso jogo perdido para o Vila Isabel...
Ainda não tinha atrapalhado sua carreira esportiva, pois éramos apenas amigos, e gostei bastante da sua forma de jogar.
Mas será que dei azar para esse jogo ?

Beijo

Gilberto Gonçalves disse...

Minha querida Flora:
Naquela época, a sua rejeição ao futebol não era tanta assim.
Se fosse hoje, eu arriscaria dizer que era possível ter dado azar.
A sua presença, porém, não importa se dando sorte ou azar, será sempre motivo de festa, em qualquer lugar.
Beijos.
Gilberto.

Anônimo disse...

Olá caro colega, melhor amigo.
Ter dado bola pra Flora foi sua mais sensacional e certeira jogada.
Se a tivesse ignorado (a Flora) em prol da bola, hoje seria um solitário cuidando de menisco, ligamento cruzado, etc. Abreijos
Lúcia (da Furiosa)

Anônimo disse...

Continuo não entendendo o porque tenho que ser "anônimo".
ABRAÇÃO
Lúcia (da Furiosa)

Gilberto Gonçalves disse...

Minha querida amiga, Lúcia:
O seu anônimo é porque não tem blog.
Quanto à jogada vitoriosa, eu não tenho a menor dúvida, que foi o grande gol da minha vida.
A Flora foi o chute certo que entrou e que eu comemoro até hoje.
Um forte e carinhoso abraço.
Gilberto.

Paulo Nunes disse...

Levo pelo menos 2 anos procurando alguma mencao do Minerva na internet, simplesmente sensacional. Cresci nas quadras de futebol de salao do rio como mascote do time do clube dos quinhentos de duque de caxias em 1968. Era muito pequeno mas nao esqueco dos times que vi e ouvi como o Cortume, Vila Isabel, Mckenzie, Grajau, Cassino Bangu etc. O Bonsucesso eu vi anos depois em 76 ou 77 na quadra do CAP de Caxias num torneio com o Municipal, Rocha Miranda, Mckenzie, Vila Isabel e Cap. Deu Vila na final com show do pivot Ricardo. obrigado por essa materia sensacional.