sábado, 22 de março de 2008

É tempo de quê ?







-"Marraio, feridô sou rei".



É tempo de bola de gude.



Com esse grito de guerra, um moleque desafiava os outros, para um jogo de bola de gude.



Essa linguagem hermética só é entendida pelos iniciados que viveram intensamente a sua infância, na Era do Rádio.



O cenário era a rua de Bonsucesso, no bairro do mesmo nome, no Rio de Janeiro, onde no chão de terra seria riscado o zépio, uma figura de formato oval, dentro da qual cada jogador casava a sua bola de gude.



O fundo musical ficava a cargo de Waldir Azevedo, tocando Delicado no seu cavaquinho, ou Dalva de Oliveira cantando Kalu, ou ainda Emilinha ou Marlene, não importa cantando o quê.



Na Era do Rádio, cada acontecimento ficava marcado por um fundo sonoro, que podia vir de um rádio na vizinhança, do altofalante de um parque de diversões, ou de um bloco carnavalesco.



A garotada, no meio da rua, cada qual com a sua bola de teco na mão, disputava o direito de ser o primeiro a lançá-la em direção ao zépio. Esse direito seria assegurado àquele que atirasse a sua bola o mais próximo de uma linha, riscada no chão, distante cerca de 5 metros do zépio, de onde as bolas eram lançadas.



A exceção ficava por conta daquele mais esperto que gritara "marraio". Com isso, era-lhe assegurado o direito de ser o último a atirar sua bola. E, se ao lançar a sua bola de gude, ela "ferisse" qualquer outra bola que estivesse no seu caminho, o espertinho "era o rei", mesmo que a sua bola de teco não fosse a mais próxima da linha.



Decifrado o enigma, entende-se porque era muito comum, uma algazarra enorme, após uma gritaria sem fim, para chegar-se à conclusão de quem gritou primeiro.



As bolas de gude eram sedutoras, para os olhos de qualquer menino. Umas eram esverdeadas, outras azuladas, mas nenhuma se comparava com os "olhinhos".



Olhinho era uma bola de fundo branco com diversas cores fortes no centro, que, mal comparando, podia lembrar um olho. Todos ficavam de olho nos olhinhos, que é menos um trocadilho do que a expressão exata do que acontecia na mente da gurizada.



Teco daqui, teco dali, uns mirolhas conseguiam tirar as bolas casadas no zépio, e enchiam os bolsos.



A brincadeira se estendia por uma ou duas horas, até que surgisse uma outra bola, bem maior e feita de borracha. O quicar da bola de borracha na calçada enfeitiçava a meninada e acabava com o jogo de bola de gude.



Era tempo de bola de gude, é verdade, mas a chegada da bola de borracha mostrava que na Era do Rádio sempre era tempo de pelada.

6 comentários:

Elaine disse...

Olá Gilberto Gonçalves!
Eis que eu, estudante de psicologia, pela UFSJ, envolvida com a pesquisa sobre o mapeamento e registro dos brinquedo populares e incubida por isso, de focar no jogo de bolinha de gudes, estou em pleno sábado cheio de festas, escrevendo e seguindo as trilhas das bolinhas...A tarefa eh mais dificil do que pensei, sinto-me veramente dentro do jogo. São pistas que rolam de um lado e de outro, umas parecem escondidas como que que metidas em buracos, ou bujacas, termo dado por grupo de meninos jogadores de bola de gude.
Meu sábado de discoteca foi trocado pelo labirinto da bola de gude...estou num ponto que num tem como voltar...soh ir e ir...pra quem sabe chegar e se chegar.
Não sei nem como vim, não houve ínicio esse jogo, qd eu cheguei os gregos, egipcios e romanos já estavam jogando e peguei carona. Um parceiro, para minha alegria acaba de chegar, por volta das 22 e alguma coisa, e justamente trazendo o marraio, nossa como tem seguido esse enigma, já fui em sergipe, especificamente em aracaju, passei por lacan e me discontrai em uma banda carioca, até encontrar-te..lembrabdo que em todos estes acima marraio era meu motivador.
Agradeço por esclarecer-me sobre as estratégias do marraio...caso tenha alguma outra fonte envie-me por favor ao meu endereço, que neste momento so pode ser eletronico, devido ha tantos lugares que visitei e ainda irei visitar...infelizmente não pude enriquecer-me com outros conteudos que não fossem bola de gude, mas o site tah registrado, ele afinal constará no meu grande labirinto, que minha grande orientadora insite em chamar de catálogo,mapeamento e coisa e tal.Soh eu sei por onde andei..na verdade nem eu..enfim meu caro talvez eu soh volte aqui qd chegar ao fim do grande labirinto, vir revisando os grandes pontos onde passei, o que prefiro chamar de parceiros...
que lereia...
meu e-mail ta ai
nana.andrade.psic@gmail.com
Obrigada por tudo..
Um abç

Gilberto Gonçalves disse...

Oi, Elaine :
Que beleza de visita que eu recebi Na Era do Rádio!
Diante da profundidade que o tema ganhou com essa pesquisa que está realizando, comprometo-me a mergulhar no fundo da minha memória, e tentar trazer de lá mais detalhes, "coisas de menino", que eles não permitem que sejam acessadas pelas meninas.
Vou tentar reunir tudo que puder, e passo-lhe mais tarde.
Aguarde.
Conte comigo, se tiver alguma dúvida ou questão sem resposta.
Um abraço.
Gilberto.

Nana de Andrade disse...

Olá Gilberto tudo bem???
Então minha pesquisa ainda não acabou mas já tah me rendendo frutos acadêmicos, fico feliz por esta troca entre os blogueiros..pois estou citando em minhas publicações dentre outros o teu blog. Penso que estamos sendo os filhos pródigos na academia tão exigentes nas suas referências bibliográficas também acadêmicas, estamos mostrando que a pesquisa não pode ter preconceito, ela é uma produção, um construto, um registro, é o popular, o não dito sendo publicado, não se cria um resultado de pesquisa, o produto já tah ai, precisamos é registrá-lo, catá-lo, reuní-lo, organizá-lo...o pesquisador não pode ter medo de se jogar, de "cavacar"....
Estou agora numa fase de entrevistas com crianças e ex jogadores do jogo...quero ver as regras, seu (des)estabelecimento, as reações, as emoções causadas por esse jogo de criança que perpassa tantas gerações, uma coisa de criança que virou marco, lembrança, briga, choro, desenvolvimento cognitivo...e chega de psicologia...Um abração...
Agora entretanto estou com entrevistas voltada só para os mineiros....estamos funilando a coisa...se algum mineiro se canditar a ser entrevista tah ai o meu e-mail : nana.andrade.psic@gmail.com
bjssssssss

Gilberto Gonçalves disse...

Oi, Nana :
Que bom que a sua pesquisa está tendo sucesso !
O resgate das brincadeiras infantis pode ser um bom começo para um resgate maior - o retorno das crianças ao seu tempo de infância.
Os pais modernos cancelaram grande parte do tempo disponível de seus filhos, para que eles possam ser crianças.
Frustrados por não terem tido a infância dos sus sonhos, muitos desses pais projetam nos seus filhos essas frustrações, e tentam realizar-se através deles.
Com isso, nem resolvem seus problemas, nem deixam seus filhos viverem as suas experiências infantis.
Natação, balé, línguas, teatro, ginástica e outras atividades ocupam boa parte do tempo das crianças, bloqueando a capacidade infantil de criar os seus próprios folguedos.
Boa sorte nessa sua empreitada.
Abraços.
Gilberto.

Nana Andrade disse...

Olá Gilberto, ainda lembra-se de mim? Eu sou a Elaine, ora me apresento como nana, meu apelido..enfim a estudante que estava fazendo uma pesquisa sobre o jogo de bolinha de gude. seu blog foi precioso no meu trabalho.
Vou te enviar o link onde poderá encontrar a publicação do meu artigo
http://abrapso.org.br/siteprincipal/images/Anais_XVENABRAPSO/181.%20jogo%20de%20bolinhas%20de%20gude.pdf

Um abraço e muito obrigada.
Elaine Andrade (Nana

Gilberto Gonçalves disse...

Oi, Elaine:
Que bom que concluiu o seu trabalho e que pude colaborar com o mesmo.
Vou ler o seu texto, sim!
E se precisar de mais alguma ajuda, é so pedir.
Um abraço.
Gilberto.