Meus ecumênicos leitores, eis-nos à véspera de uma nova Páscoa, não aquela Páscoa dos tempos idos da Era do Rádio, mas uma Páscoa moderninha, como tudo que se faz hoje em dia, cheia de apelos comerciais e quase nenhuma tradição religiosa.
Lembro-me, ainda garoto, ao lado do meu pai, numa sexta-feira santa, tentando sintonizar as estações de rádio, em busca de meus programas musicais.
Mas, qual o quê ! Nada de programações profanas, só se ouviam músicas clássicas, no bom estilo Bach, o que, para o meu gosto na época, eram músicas fúnebres, tristes e
depressivas. Ou seriam deprimentes ?
Tocava no rádio a Valsa das Flores de Tchaikovsky, com seus acordes melodiosos e nostálgicos, que me deixaram tristonho, com vontade de chorar. Creio que a intenção era esta mesmo, a de nos obrigar a lamentar, com lágrimas nos olhos e um aperto no peito, a morte do Cristo Jesus. Isso, sem dúvida, favoreceria a introspecção e a reflexão sobre os acontecimentos pascais.
Os adultos cultuavam esses rituais de Páscoa, que começavam com uma atitude de introspecção na sexta-feira da Paixão, tinham o seu momento de preparação no sábado de Aleluia e culminavam com os festejos do domingo de Páscoa.
Confesso-lhes, meus fiéis leitores, que as crianças sofriam muito mais do que os adultos. Pode parecer um exagero, uma heresia descabida, mas elas padeciam quase tanto quanto o Cristo na cruz.
Esta sensação era a expressão mais próxima do que ia na alma da garotada do meu tempo, que era forçada à abstinência dos prazeres diários, sentindo, na própria carne, o sofrimento por que passou o Cristo.
E quando falo da tal abstinência, por favor, me entendam, não me refiro à carne ausente do prato ou do leito, mas à falta da bola de pelada na rua quicando na calçada e da molecada gritando goooollll.
Quando chegava o sábado, não havia como conter o ímpeto punitivo de malhar o Judas. Descarregava-se sobre um boneco de pano, recheado de jornal, toda a ira guardada de véspera, menos pela traição a Jesus, e mais, muito mais, por ter sido o responsáv
el pela nossa frustração reprimida.
Malhado o Judas, a bola voltava a rolar nas ruas, e toda a tristeza ficava para trás. Os rádios voltavam a tocar os sucessos da moda, o sol voltava a brilhar com o mesmo brilho de anteontem e o motivo de tanta tristeza ficava esquecido até o ano que vem.
Chocolate, muito pouco. Presentes, nenhum.
Naquele tempo, presentes, só nos aniversários e no Natal.
Baile de carnaval, no sábado de Aleluia, Deus nos livre e guarde !
Modinhas, chorinhos e as marchinhas, essas, sim, voltavam a ocupar seus espaços nas programações das estações de rádio.
Os aparelhos de rádio, que tinham ficado calados, ou sussurrando, desde a quinta-feira santa, voltavam a alegrar nossas vidas, com a chegada do sábado de Aleluia.
Naquela época, não se falava tanto de Jesus, e as estações de rádio tinham seus programas religiosos, mas eram poucos, comparados a hoje em dia.
A fé religiosa era um produto de consumo privado, quase solitário. Calava-se, na hora da Ave-Maria e rezava-se o terço, durante as missas. Mas, perc
ebia-se mais sentimento nas crenças e maior consciência no ato de praticar a religiosidade.
Hoje, fala-se muito, e se faz muito pouco, ou quase nada.
Comemora-se a Paixão de Cristo, passeando-se e fazendo turismo, longe de casa.
Os rádios tocam, aos berros, os sucessos do momento , recheados de estupidez e pornografia. E tudo numa boa !
Depois da pregação do Padre Marcelo, lembrando o verdadeiro sentido da Páscoa, num simbolismo da passagem da Matéria para o Espírito, relembrando a libertação do povo judeu, em sua fuga do Egito, tudo volta a ser como era antes.
Quem se importa com essas explicações ? Elas são técnicas demais para a fé moderna, que se satisfaz com o culto de meio de semana, missas aos domingos e os programas radiofônicos e televisivos dos padres e pastores.
Os shoppings ficam cheios de pais desesperados para encontrar os brinquedos cobrados pelos filhos. As lojas são decoradas com ovos de Páscoa, seduzindo a gula do
s que ainda insistem com o falso jejum de não comer carne.
Pensando bem, meus nostálgicos leitores, na Era do Rádio curtíamos a nossa tristeza na semana santa, mas éramos muito mais felizes no resto do ano.
E creio mesmo que tínhamos mais fé e éramos mais respeitosos com a celebração da morte de Jesus.
Naquela época, na minha mente infantil, eu achava que não era certo ouvir rádio alto, se uma pessoa amada houvesse morrido. Eu não jogava o pão fora, sem antes beijá-lo, numa atitude de respeito com um objeto sagrado. Podia ser ingenuidade demais, mas havia pureza, o que tornava nossos atos mais dignos.
E a música, sempre a música, como pano de fundo de todos os nossos momentos.
"Jamais te esquecerei, por toda a minha vida, és tudo que eu sonhei, oh, minha querida..." Era o rádio do vizinho, sintonizado no programa de domingo, num domingo de Páscoa, na Era do Rádio.
Lembro-me, ainda garoto, ao lado do meu pai, numa sexta-feira santa, tentando sintonizar as estações de rádio, em busca de meus programas musicais.
Mas, qual o quê ! Nada de programações profanas, só se ouviam músicas clássicas, no bom estilo Bach, o que, para o meu gosto na época, eram músicas fúnebres, tristes e
depressivas. Ou seriam deprimentes ?Tocava no rádio a Valsa das Flores de Tchaikovsky, com seus acordes melodiosos e nostálgicos, que me deixaram tristonho, com vontade de chorar. Creio que a intenção era esta mesmo, a de nos obrigar a lamentar, com lágrimas nos olhos e um aperto no peito, a morte do Cristo Jesus. Isso, sem dúvida, favoreceria a introspecção e a reflexão sobre os acontecimentos pascais.
Os adultos cultuavam esses rituais de Páscoa, que começavam com uma atitude de introspecção na sexta-feira da Paixão, tinham o seu momento de preparação no sábado de Aleluia e culminavam com os festejos do domingo de Páscoa.
Confesso-lhes, meus fiéis leitores, que as crianças sofriam muito mais do que os adultos. Pode parecer um exagero, uma heresia descabida, mas elas padeciam quase tanto quanto o Cristo na cruz.
Esta sensação era a expressão mais próxima do que ia na alma da garotada do meu tempo, que era forçada à abstinência dos prazeres diários, sentindo, na própria carne, o sofrimento por que passou o Cristo.
E quando falo da tal abstinência, por favor, me entendam, não me refiro à carne ausente do prato ou do leito, mas à falta da bola de pelada na rua quicando na calçada e da molecada gritando goooollll.
Quando chegava o sábado, não havia como conter o ímpeto punitivo de malhar o Judas. Descarregava-se sobre um boneco de pano, recheado de jornal, toda a ira guardada de véspera, menos pela traição a Jesus, e mais, muito mais, por ter sido o responsáv
el pela nossa frustração reprimida.Malhado o Judas, a bola voltava a rolar nas ruas, e toda a tristeza ficava para trás. Os rádios voltavam a tocar os sucessos da moda, o sol voltava a brilhar com o mesmo brilho de anteontem e o motivo de tanta tristeza ficava esquecido até o ano que vem.
Chocolate, muito pouco. Presentes, nenhum.
Naquele tempo, presentes, só nos aniversários e no Natal.
Baile de carnaval, no sábado de Aleluia, Deus nos livre e guarde !
Modinhas, chorinhos e as marchinhas, essas, sim, voltavam a ocupar seus espaços nas programações das estações de rádio.
Os aparelhos de rádio, que tinham ficado calados, ou sussurrando, desde a quinta-feira santa, voltavam a alegrar nossas vidas, com a chegada do sábado de Aleluia.
Naquela época, não se falava tanto de Jesus, e as estações de rádio tinham seus programas religiosos, mas eram poucos, comparados a hoje em dia.
A fé religiosa era um produto de consumo privado, quase solitário. Calava-se, na hora da Ave-Maria e rezava-se o terço, durante as missas. Mas, perc
ebia-se mais sentimento nas crenças e maior consciência no ato de praticar a religiosidade.Hoje, fala-se muito, e se faz muito pouco, ou quase nada.
Comemora-se a Paixão de Cristo, passeando-se e fazendo turismo, longe de casa.
Os rádios tocam, aos berros, os sucessos do momento , recheados de estupidez e pornografia. E tudo numa boa !
Depois da pregação do Padre Marcelo, lembrando o verdadeiro sentido da Páscoa, num simbolismo da passagem da Matéria para o Espírito, relembrando a libertação do povo judeu, em sua fuga do Egito, tudo volta a ser como era antes.
Quem se importa com essas explicações ? Elas são técnicas demais para a fé moderna, que se satisfaz com o culto de meio de semana, missas aos domingos e os programas radiofônicos e televisivos dos padres e pastores.
Os shoppings ficam cheios de pais desesperados para encontrar os brinquedos cobrados pelos filhos. As lojas são decoradas com ovos de Páscoa, seduzindo a gula do
s que ainda insistem com o falso jejum de não comer carne.Pensando bem, meus nostálgicos leitores, na Era do Rádio curtíamos a nossa tristeza na semana santa, mas éramos muito mais felizes no resto do ano.
E creio mesmo que tínhamos mais fé e éramos mais respeitosos com a celebração da morte de Jesus.
Naquela época, na minha mente infantil, eu achava que não era certo ouvir rádio alto, se uma pessoa amada houvesse morrido. Eu não jogava o pão fora, sem antes beijá-lo, numa atitude de respeito com um objeto sagrado. Podia ser ingenuidade demais, mas havia pureza, o que tornava nossos atos mais dignos.
E a música, sempre a música, como pano de fundo de todos os nossos momentos.
"Jamais te esquecerei, por toda a minha vida, és tudo que eu sonhei, oh, minha querida..." Era o rádio do vizinho, sintonizado no programa de domingo, num domingo de Páscoa, na Era do Rádio.



























