sábado, 3 de abril de 2010

Semana Santa !!!

Meus ecumênicos leitores, eis-nos à véspera de uma nova Páscoa, não aquela Páscoa dos tempos idos da Era do Rádio, mas uma Páscoa moderninha, como tudo que se faz hoje em dia, cheia de apelos comerciais e quase nenhuma tradição religiosa.
Lembro-me, ainda garoto, ao lado do meu pai, numa sexta-feira santa, tentando sintonizar as estações de rádio, em busca de meus programas musicais.
Mas, qual o quê ! Nada de programações profanas, só se ouviam músicas clássicas, no bom estilo Bach, o que, para o meu gosto na época, eram músicas fúnebres, tristes e depressivas. Ou seriam deprimentes ?
Tocava no rádio a Valsa das Flores de Tchaikovsky, com seus acordes melodiosos e nostálgicos, que me deixaram tristonho, com vontade de chorar. Creio que a intenção era esta mesmo, a de nos obrigar a lamentar, com lágrimas nos olhos e um aperto no peito, a morte do Cristo Jesus. Isso, sem dúvida, favoreceria a introspecção e a reflexão sobre os acontecimentos pascais.
Os adultos cultuavam esses rituais de Páscoa, que começavam com uma atitude de introspecção na sexta-feira da Paixão, tinham o seu momento de preparação no sábado de Aleluia e culminavam com os festejos do domingo de Páscoa.
Confesso-lhes, meus fiéis leitores, que as crianças sofriam muito mais do que os adultos. Pode parecer um exagero, uma heresia descabida, mas elas padeciam quase tanto quanto o Cristo na cruz.
Esta sensação era a expressão mais próxima do que ia na alma da garotada do meu tempo, que era forçada à abstinência dos prazeres diários, sentindo, na própria carne, o sofrimento por que passou o Cristo.
E quando falo da tal abstinência, por favor, me entendam, não me refiro à carne ausente do prato ou do leito, mas à falta da bola de pelada na rua quicando na calçada e da molecada gritando goooollll.
Quando chegava o sábado, não havia como conter o ímpeto punitivo de malhar o Judas. Descarregava-se sobre um boneco de pano, recheado de jornal, toda a ira guardada de véspera, menos pela traição a Jesus, e mais, muito mais, por ter sido o responsável pela nossa frustração reprimida.
Malhado o Judas, a bola voltava a rolar nas ruas, e toda a tristeza ficava para trás. Os rádios voltavam a tocar os sucessos da moda, o sol voltava a brilhar com o mesmo brilho de anteontem e o motivo de tanta tristeza ficava esquecido até o ano que vem.
Chocolate, muito pouco. Presentes, nenhum.
Naquele tempo, presentes, só nos aniversários e no Natal.
Baile de carnaval, no sábado de Aleluia, Deus nos livre e guarde !
Modinhas, chorinhos e as marchinhas, essas, sim, voltavam a ocupar seus espaços nas programações das estações de rádio.
Os aparelhos de rádio, que tinham ficado calados, ou sussurrando, desde a quinta-feira santa, voltavam a alegrar nossas vidas, com a chegada do sábado de Aleluia.
Naquela época, não se falava tanto de Jesus, e as estações de rádio tinham seus programas religiosos, mas eram poucos, comparados a hoje em dia.
A fé religiosa era um produto de consumo privado, quase solitário. Calava-se, na hora da Ave-Maria e rezava-se o terço, durante as missas. Mas, percebia-se mais sentimento nas crenças e maior consciência no ato de praticar a religiosidade.
Hoje, fala-se muito, e se faz muito pouco, ou quase nada.
Comemora-se a Paixão de Cristo, passeando-se e fazendo turismo, longe de casa.
Os rádios tocam, aos berros, os sucessos do momento , recheados de estupidez e pornografia. E tudo numa boa !
Depois da pregação do Padre Marcelo, lembrando o verdadeiro sentido da Páscoa, num simbolismo da passagem da Matéria para o Espírito, relembrando a libertação do povo judeu, em sua fuga do Egito, tudo volta a ser como era antes.
Quem se importa com essas explicações ? Elas são técnicas demais para a fé moderna, que se satisfaz com o culto de meio de semana, missas aos domingos e os programas radiofônicos e televisivos dos padres e pastores.
Os shoppings ficam cheios de pais desesperados para encontrar os brinquedos cobrados pelos filhos. As lojas são decoradas com ovos de Páscoa, seduzindo a gula dos que ainda insistem com o falso jejum de não comer carne.
Pensando bem, meus nostálgicos leitores, na Era do Rádio curtíamos a nossa tristeza na semana santa, mas éramos muito mais felizes no resto do ano.
E creio mesmo que tínhamos mais fé e éramos mais respeitosos com a celebração da morte de Jesus.
Naquela época, na minha mente infantil, eu achava que não era certo ouvir rádio alto, se uma pessoa amada houvesse morrido. Eu não jogava o pão fora, sem antes beijá-lo, numa atitude de respeito com um objeto sagrado. Podia ser ingenuidade demais, mas havia pureza, o que tornava nossos atos mais dignos.
E a música, sempre a música, como pano de fundo de todos os nossos momentos.
"Jamais te esquecerei, por toda a minha vida, és tudo que eu sonhei, oh, minha querida..." Era o rádio do vizinho, sintonizado no programa de domingo, num domingo de Páscoa, na Era do Rádio.

sábado, 13 de março de 2010

O AMOR NOS TEMPOS DE CÓCEGAS

Eis-me de volta a esse aconchegante espaço, onde deposito meus tesouros da infância e juventude.
Outro dia, estava meditando sobre as diversas formas com que se está a falar de amor, e deu-me uma incontida vontade de rir ao comparar com o que se sentia naqueles tempos idos, da Era do Rádio.
A verdade, meu fiel leitor, é que se perdeu a verdadeira essência do amor, misturou-se alhos com bugalhos, como diziam nossos avós, e ninguém mais sabe dizer o que lhe vai no peito, se é amor ou desejo, amizade ou favor.
Lembro-me ainda hoje, como o coração disparava, quando via se aproximar a garota por quem sentia a minha paixão de criança. Desde muito cedo, eu alimentei minhas paixões, calado, é verdade, mas não menos ruidosas e intensas do que são as paixões de hoje em dia.
Ainda menino, desde os meus 7 anos de idade, ou até antes, passei a dar trabalho ao coração, e não lhe dava tréguas, apaixonando-me, às vezes, por duas ou até 3 meninas, todas ao mesmo tempo.
Se eu estava na escola, era uma colega da carteira em frente, se em casa, uma vizinha do outro lado da rua, e se saía a passeio, uma turista de ocasião. O coração crescia, para poder acomodar tanta paixão, e eu a controlar as emoções, quando delas me aproximava.
Sonhava com os meus amores, e suspirava no silêncio das minhas reflexões. Ninguém percebia nada. Meus pais não podiam nem sonhar que tantas bonitinhas e engraçadinhas tomavam conta da mente daquela criança envergonhada, que não gostava de confessar seus sentimentos.
Houve momentos da minha infância, em que quase perdia a respiração, só por me sentir próximo de uma grande paixão. Mas, eu não perdia a pose, não deixava ninguém perceber o que sentia por esta ou aquela menina.
Era amor puro, não havia maldade, não havia desejo de tocar, mas de estar perto, de admirar e de esperar um olhar, um sorriso ou algo que desse a perceber que ela estava notando a minha presença.
Assim caminhou a minha vida, ao lado do coração apaixonado. Éramos amigos inseparáveis, eu e o meu coração. Não podíamos viver, um sem o outro, pois se não estivesse amando, não me sentiria vivo.
Esses sentimentos me acompanharam por toda a infância e adolescência. Mas, tudo naquela época era diferente, o amor era sentido e reconhecido como amor mesmo. E flertar era um termo ingênuo, quase imaculado, de se definir aquela intenção de dar mais um passo adiante, mesmo sem saber onde se queria chegar.
O irmão mais velho do flerte era o namoro, que ao assumir a maioridade virava noivado e com a chegada da maturidade se transformava em casamento.
Os valores mudaram, faz muito tempo que ninguém flerta mais, e nem se sabe o que isso significa. Namorar é um verbo ultrapassado, fora de moda, e ninguém mais sabe namorar, ou ter a paciência de namorar alguém.
O namoro era um procedimento formal de demonstrar sentimentos e propósitos sérios de levar adiante o relacionamento amoroso. O noivado era o ápice do namoro e o casamento era o ficar de hoje em dia.
A gente só ficava depois de casados. Hoje, fica-se, e não se namora. Engravida-se, e não se ama o pai ou a mãe do filho que está para nascer. E tudo em nome da modernidade.
Trocou-se o platonismo pelo hedonismo, e o amor ficou com um jeito meio promíscuo de ser.
Ocorreu uma aproximação tão confusa entre o desejo e o amor, que os termos passaram a ser vistos como sinônimos. A transa, termo moderno para o ato sexual, passou a ser reconhecida como fazer amor.
Os referenciais foram perdidos, e acredita-se que esse modernismo seja saudável. Alguns, em nome da liberdade sexual, defendem o direito da moça de transar com diversos rapazes, para dar vazão ao seu libido. Os rapazes não vêm muita diferença nisso, a não ser a surpreendente facilidade que sentem de extravasar os seus instintos, sem nenhuma necessidade de dar uma cantada, como se dizia antigamente.
À primeira vista, isso parece bom, por atender ambas as partes. As meninas já não precisam fingir que não sentem desejos, os garotos podem botar para fora todos os seus hormônios. E tudo sem compromissos, sem precisar ao menos saber o nome da parceira da transa.
Acabaram-se os desejos reprimidos, que tantos males causavam às moçoilas de outros tempos. Os jovens varões que precisavam buscar ajuda de profissionais do sexo, para descarregar suas energias sexuais, passaram a conseguir de graça, o que antes demandava tempo e dinheiro.
Ah, meus liberais e jovens leitores, talvez estejam indignados com esta minha visão retrógrada e reacionária de encarar o amor nos tempos de hoje. Mas, não me julguem mal, nem me vejam como um tradicional conservador, que vive taxando de imoral, tudo que se pratica com maior liberalidade, no campo do amor e do sexo.
Estou muito distante de vestir a batina do clérigo acusador que, de bíblia na mão, ameaça a todos os jovens com o inferno, por suas ações libertinas e escandalosas. Creiam-me que sempre estive muito mais próximo do pai liberal, capaz de um papo aberto com os filhos e de ver a virgindade como uma propriedade de cada moça, para fazer com ela, o que julgar mais adequado na devida ocasião.
Mas, o que lastimo é a perda do sentido romântico do ato de amar. A minha tristeza é ver que a juventude perdeu a paciência para cultivar um verdadeiro amor. A pressa tornou a intimidade uma necessidade premente, para que não se perca tempo, entre as preliminares e o principal.
O ato de amor virou uma atividade meramente física, que pode ser praticada em qualquer corpo, sem que importe qual seja a alma que habita naquele corpo.
Os amantes estão mais felizes ? Os jovens se sentem mais saciados em sua sede amorosa ?

Sinto muito, por trazer à tona, essa triste realidade do amor nos tempos de cócegas. Um amor que não vai fundo na alma, mas fica pairando na superfície, mediante carícias e apertos que, quando muito, provocam pequenas e passageiras cócegas no corpo físico, mas nem chegam perto dos sentimentos e emoções que alimentam o verdadeiro amor.
Creiam-me, jovens leitores, já houve amor com sexo e sexo com amor. Mas, cá entre nós, isso é coisa do passado, de uma época que ficou conhecida por seu exagerado romantismo, e que foi chamada de Era do Rádio.
Naquele tempo, as músicas falavam de amor, e também até mesmo de um amor repleto de insinuações e provocações, mas não se abria mão de buscar nas esquinas , e até nos cabarés, a Deusa do Afalto, a Deusa da Minha Rua ou a Mulher que ficou na taça. As amantes eram lembradas e exaltadas, não por serem objetos de desejo, mas por terem provocado grandes paixões.
Tudo já foi bem diferente. O amor penetrava fundo na alma, não era superficial como nos dias de hoje, que só provoca cócegas, e nada mais.
"O amor é uma pérola rara", cantava o Cauby. Amélia não fazia muitas exigências, e por isso era cantada e decantada como a mulher de verdade. A normalista linda não podia casar antes de se formar, e o cantor se lamentava por que o pai da moça era zangado e ele estava apaixonado...mas o remédio era esperar.
Amar é um verbo transitivo... que pede sujeito e objeto. Mas, isso já não é mais estudado no colégio, como acontecia nos meus tempos de criança, na Era do Rádio.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

As marchinhas estão de volta





Há poucas semanas do carnaval, os rádios da vizinhança estão ligados nas marchinhas que serão cantadas nos blocos e nos coretos.
Estava saindo de casa para espiar o movimento na rua, em busca de uma bola de borracha e de alguns fominhas que, como eu, estão sempre prontos para jogar uma pelada. Mas, o que encontrei foi uma cantoria danada, vinda de todos os lados, e nada de bola ou de pelada.
Contentei-me com as marchinhas, e sentei-me na soleira da porta, sonhando com os dias de folia que estavam para chegar.

Era um sábado, e já passavam das 3 da tarde. O Programa César de Alencar já estava no ar, e o animador anunciou o Roberto Paiva, que cantou a Marcha do Conselho, um sucesso garantido naquele carnaval de 1952. O meu colega Nilo adorava aquela música, que falava de uma provocação da mulher do melhor amigo, que mandava bilhetes todo dia. A solução era apelar para Julio Louzada, que era o grande conselheiro sentimental da época.
A tarde era modorrenta, mormacenta, meio quante, meio úmida, que convidava para coisa nenhuma. Eu decidi ficar ali, pachorrento e bocejante, ouvindo as marchinhas que vinham das casas vizinhas.
O Programa César de Alencar dominava a audiência daquele horário, mas consegui ouvir uma sonorização diferente, vinda dos nossos vizinhos da casa II. A Marlene cantava Lata dágua, em que a Maria subia o morro com uma lata dágua na cabeça e uma criança pela mão. Gostei da marchinha, e também registrei-a como futuro sucesso nos dias de folia.
A Virgiania Lane começou cantando Sassaricando, e o som vinha da casa em frente, do seu
Betinho, que era louco pelas pernas da vedete, que ele acompanhava pela televisão nos Espetáculos Tonelux. A música até parecia ter sido feita para ele, quando falava dos velhos sassaricando na porta da Colombo, já que também ele era bem velhinho.
Espera lá, o som do Programa César de Alencar voltou a ser
sintonizado pela minha mente, e quem eu ouço ? A grande Dalva, cantando Estrela do Mar, uma beleza de poesia, falando do céu e do mar, com uma rara sensibilidade. Um pequenino grão de areia que se apaixonou por uma estrela, e dessa paixão nasceu a estrela do mar. É muito lindo !
Está muito acima de tudo que se compõe hoje em dia, e já nem falo de músicas para o carnaval, pois ninguém mais se dá ao luxo de perder seu tempo compondo para os
blocos cantarem. Afinal, que blocos ?
As Escolas de Samba fizeram muito mal para o carnaval, por monopoliz
arem as atenções para os seus desfiles, com a conivência das estações de TV, acabando com o carnaval de rua. Ninguém mais, após a organização apoteótica dos desfiles das Escolas, teve coragem de colocar o seu bloco na rua, com medo de ser chamado de fora de moda, careta e outros modismos, que mais tarde assumiu a expressão americana OUT, e hoje já nem sei como se diz.
Sem blocos, as marchinhas sairam de moda. Sem marchinhas, o
carnaval também foi saindo de moda. E hoje o que existe, pode ser chamado de tudo, menos de carnaval.
Em lugar das marchinhas, os sambas enredos. No lugar dos blocos, os trios elétricos. E no lugar do carnaval, uma encenação pomposa e luxuosa. O carnavalesco saiu da rua e foi para as arquibancadas do sambódromo, e o carnaval gratuito do meio de rua, dos blocos de sujo, tornou-se um espetáculo de palco, taxado e com entradas disputadas a tapa.
As lanças-perfumes acabaram, pois o povo pegou a danada da mania de transformar tudo em vício, e a ingênua e perfumada lança Rodo virou um tóxico, um negócio para traficantes e viciados. As fantasias perderam a razão de ser, pois se não há um tema para inspirar um crioulo doido a fazer o seu samba, não se consegue mais criar uma fantasia original.
Mas, ainda bem que eu tenho a minha memória musical, e me transporto para os tempos idos de 1952, quando posso ouvir a programação radiofônica das rádios Nacional, Mayrink Veiga e Tupi, caitituando as marchinhas e fazendo tudo para que seus cantores contratados saíssem vencedores do concurso que premiava a música mais cantada nas ruas d
o Rio.
Eu fico com a Estrela do Mar, uma beleza de canção, um encanto de poesia.
Perdi a noção do tempo, enquanto divagava entre o passado e o futuro, e já está anoitecendo
, é hora de entrar.
Amanhã tem mais, pela manhã o programa saudosista do nosso vizinho da casa II, que tem a valsa Branca como sua abertura musical. Com a proximidade do carnaval, as marchinhas têm vez, e pode-se ouvir Francisco Alves, Orlando Silva, Carlos Galhardo e ou
tros cantores de renome, cantando sucessos de outros carnavais.
Desculpem-me os mais jovens, amantes das Escolas de Samba, mas o carnaval morreu, e como não foi enterrado, foi mumificado, para que tivéssemos a impressão de que ainda permanece vivo.

As marchinhas, para quem gosta, estarão sendo ressuscitadas no carnaval de São Lourenço, uma cidade mais carioca do que mineira, graças a uma iniciativa de um secretário paulista, que decidiu dar um jeito no carnaval local. Entre o trio elétrico e o bloco, ele optou pela tradição carioca, e vai botar o bloco na rua, pelo segundo ano consecutivo.
Aqui sim, na minha cidade mineira, ainda sobrevive o carnaval de rua, os blocos não tão sujos assim e as maravilhosas e inspiradoras marchinhas. Afinal de contas, sempre é tempo para a gente reviver o passado, e mesmo fora do Rio se transportar para a Era do Rádio.


quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Almanaques Infantis




E por falar em fim de ano, nada melhor do que recordar o tempo em que os Almanaques eram aguardados ansiosamente por toda a meninada.
Almanaques, para quem não viveu na Era do Rádio, eram edições especiais, daquelas tradicionais revistas publicadas o ano inteiro. Quando chegava o final do ano, as Editoras caprichavam no visual, aumentavam o tamanho das revistas, davam-lhes uma capa dura, brilhante e colorida, e chamavam-nas de Almanaques.
O Almanaque da Vida Infantil era um colírio para os olhos da garotada, com as histórias ingênuas e puras
de Lourolino e Remendado, Raposino, Pituca e outros personagens que encantaram os meus tempos de menino. Essas histórias, nos Almanaques, ganhavam um colorido todo especial, com seus quadrinhos em tamanho maior e com aquela capa lustrosa e cheirosa, com cheiro de Natal.
Quem ainda se lembra de Laura Jane e Tiquinho ? Ela, uma menina comum, ele, um menino miudinho. Quando ela queria ficar do tamanho dele, jogava por sobre a cabeç
a uma areia mágica, e recitava : "Areia da grossa, areia da fina, areia me faça ficar pequenina". A revista era o Mindinho, que no final do ano também tinha o seu maravilhoso Almanaque. E nas suas páginas desfilavam o Hortelino Trocaletra sempre perseguindo o coelho Pernalonga, que comia as cenouras da sua horta, o Gaguinho, o Frajola e o Piu-piu e muitos outros que serão eternamente lembrados na memória do tempo.
Os dois mais antigos Almanaques, dos que fizeram parte da minha infância, foram o do Gibi e do Tico-Tico, este com os antológicos Reco-reco, Bolão e Azeitona. Não dá para esquecer essa turma!
Entre os Almanaques dos herois da época, não posso deixar de mencionar os dois grandes ídolos, cultuados até hoje e jamais esquecidos - o Fantasma e o Mandrake. Quem consegue esquecer da figura do Fantasma, de capa e chapéu, para esconder aq
uele uniforme colado no corpo, que ele usava na selva, junto aos seus amigos pigmeus ! E a Diana Palmer, sua eterna noiva, e o Capeto, o seu cão e fiel companheiro ! E tudo isso, num Almanaque, não com uma só história, como era comum nas revistas de meio de ano, mas com diversas e emocionantes novas histórias.
Um outro heroi inesquecível era o Mandrake, que com um gesto de mão, imobilizava os bandidos, transformava armas em buquês de flores e iludia a todos com o seu mágico poder hipnótico. Acompanhado por seu parceiro, o truculento Lotar, e tendo, a ex
emplo do Fantasma, também uma noiva, a Narda, o Almanaque do Mandrake prendia a nossa respiração e nos transportava a um encantador e inesquecível mundo de fantasias.
Lembro-me também dos mocinhos, os famosos herois do bang-bang, montados em seus cavalos velozes e dominando os bandidos pela rapidez com que sacavam suas armas. Moci
nho que se prezava, nunca matava, só atirava na arma do inimigo, fazendo-a voar longe. Ah, bons tempos aqueles, em que os atos mais violentos eram socos no queixo e tiros certeiros que desarmavam os bandidos !
Aí, Mocinho! era uma revista que desfilava os herois do faroeste das telas
de cinema da época, como Tom Mix, Tex Ritter, Roy Rogers, Gene Autry, Audie Murphy, Hopalong Cassidy, Randolph Scott e muitos, muitos mais. O Almanaque do Aí Mocinho! era uma festa, com tantas histórias numa revista só, deixando-nos a manhã inteira, sentados num canto, calados e com os olhos pregados naquelas páginas eletrizantes.
O Cavaleiro Negro era outra revista que se transformava num elegante Al
manaque, a cada final de ano. O Dr. Heron Robledo e o seu personagem vestido de negro e com uma máscara no rosto, que o transformavam no Cavaleiro Negro, eram acompanhados com uma atenção que ninguém conseguia dispensar aos seus livros de colégio.
A revista do Rocky Lane foi por mim colecionada, desde o primeiro número,
e o seu Almanaque era aguardado com grande expectativa, a cada final de ano, para se incorporar à coleção das edições mensais, cuidadosamente guardadas numa maleta de couro, que havia sido usada por meu pai, até cair em desuso.
E os Almanaques não param por aí, eram muitos e por demais atraentes, deixando a criançada toda alvoroçada, com a chegada de cada final de ano. Super-Homem, Capitão Marvel, O Gibi e outras mais faziam a nossa festa de final de ano, sem fogos coloridos nas telas da TV, sem contagens regressivas e sem TV. Nem mesmo o rádio era ligado para acompanhar a passagem do ano, afinal tudo era muito mais simples naquela época, e o relógio era suficiente para anunciar que um novo ano havia chegado.
Muito antes da meia-noite, a gurizada já estava dormindo, pois ninguém era de ferro, depois de um dia inteiro de brincadeiras, correrias e algazarras. Mas, ao lado da cama, sempre havia um companheiro fiel, que zelava pelo nosso sono e nos despertava logo cedo, no dia seguinte : o exemplar do nosso Almanaque favorito.
Como era fácil ser feliz, naqueles tempos! Como a gente se contentava com tão pouco, e que nos parecia tanto!
Eu sei que não é fácil de se entender como isso era possível, para quem vive nos dias de hoje, em meio a tanto consumismo e insatisfações com o que se tem. Mas, não era assim que a gente sentia nos tempos idos dos anos 50.
E quando os Almanaques já tivessem sido lidos e relidos, ainda existia o consolo de se ligar o rádio e acompanhar mais um capítulo das Aventuras do Anjo e as emocionantes lutas do Jerônimo, o heroi do sertão, contra o seu eterno inimigo, o Caveira. A gente se arrepiava todo,
quando ouvia aquela voz grave ordenando ao seu parceiro de crimes, o Chumbinho : "Chumbinho, apresente o seu relatório". Entrava a música anunciando o fim do capítulo, e deixando-nos ansiosos para ouvir no dia seguinte a tradicional resposta do Chumbinho :"Caveira, Jerônimo não morreu !", seguida da exclamação do Caveira : "Maldição!".
Quem passar pelo sertão, vai ouvir alguém falar do heroi desta canção que eu venho aqui cantar... E ao som da canção que exaltava os feitos do nosso heroi, terminava
mais um capítulo de Jerônimo e o seu fiel amigo, o Moleque Saci.
Era assim que os dias se passavam em nossas vidas de menino, tão repletas de atividades e tão pródigas de conquistas, pelo menos em nossas mentes de criança. Almanaques, herois, revistas em quadrinhos, e como não poderia deixar de ser, os programas radiofônicos, com nossos herois ocupando a nossa imaginação e nos ajudando a sonhar! Era assim que cada ano chegava ao fim, nos meus tempos de criança, quando vivíamos na Era do Rádio.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Nos tempos de Papai Noel

Este Natal me fez lembrar os meus Natais de criança, quando Papai Noel ainda era vivo.
A família se confraternizou e
se presenteou, reunida na sala sob a iluminação de velas, não por decoração, mas por falta de opção. A CEMIG presenteou-nos com um longo apagão, daqueles que parece não ter mais fim.
O lado bom da escuridão foi a improvisação, à luz de velas e lanterna, com direito a holofote nos embrulhos, enquanto se desembrulhavam os pacotes.
Aquela alegria em torno de cada presente, todos baratinhos e originais, causando espanto e risos, me transportaram para os Natais da minha infância.
A minha ansiedade de criança era incontrolável à e
spera de Papai Noel, mesmo não tendo a menor idéia de como ele iria entrar na minha casa, já que onde eu morava não havia chaminé. Mas, as crianças da nossa época não perdiam tempo com esses detalhes banais, que só atrapalhariam as suas imensas fantasias.
Houve um Natal em que, sem conseguir pegar no sono, pensei ter ouvido um bar
ulho na sala, e lá encontrei meus pais em atitude suspeita. Ao me verem surgir, eles me disseram que quase que eu havia encontrado Papai Noel, que tinha passado por ali, mas que iria voltar mais tarde, ou coisa parecida.
A gente aceitava todas aquelas mentirinhas inocentes, pois sabia que era mais emocionante as
sim do que sair garimpando uma verdade desnecessária, que só provocaria o fim de um majestoso sonho infantil.
Por onde Papai Noel entra na nossa casa, mamãe? Como ele sabe dos presentes que eu quero ganhar, hein, pai? A que horas que ele costuma passar? Será que eu não posso ficar esperando por ele? Essas e outras questões surgiam e eram respondidas por nossos pais, de forma bastante convincente, e sem comprometer as suas imagens junto aos filhos.

A lembrança daqueles brinquedos muito simples, mas que me provocavam uma sensação de enorme euforia, surgiu na minha mente, quando me dei conta de que a mesma reação estava ocorrendo em nós adultos, a cada novo presente que era entregue e desembrulhado. Os presentes eram simples, a maioria comprada em lojas de 1 e 99, mas todos eram muito criativos e combinavam com os gostos e perfis de cada um de nós.

Viajei no tempo, e me senti ao lado de Papai Noel, dentro do seu trenó, vendo lá do alto a casa em que nós morávamos, na rua Bonsucesso. A sensação era de que eu iria ver, a qualquer momento, meus pais colocando os presentes na sala, debaixo da janela, com o Papai Noel me dizendo que era assim que o sistema funcionava.
O Papai Noel era somente o símbolo de tudo que nossos pais representavam na celebração do Natal. Quem passava o ano inteiro ouvindo os desejos dos filhos, tentando desco
brir o presente com que cada um sonhava, eram os pais. Na noite da véspera do Natal, o Papai Noel viajava pelos céus, abençoando os presentes e deixando por conta dos pais fazê-los chegar às mãos de seus filhos.
Assim eu e Flora ensinamos aos nossos filhos, jamais fantasiando que Papai Noel e
ntraria por um canto da casa e colocaria os presentes junto da árvore iluminada. Mas, também jamais negando a sua existência, mantendo viva a tradição do bom velhinho, que se ocupa o ano inteiro de preparar os presentes que serão distribuídos no Natal. Com isso, nossos filhos, desde crianças, sempre falaram de Papai Noel, sabendo que éramos nós que representávamos aquele bom velhinho, na entrega dos presentes. E isso, sem dúvida, repercute até os dias de hoje.

Lembrei-me daquele pião metálico, todo colorido, que tinha de ser "bombeado" como se a gente enchesse um pneu de bicicleta, para que ele ficasse girando e emitindo um zunido maravilhoso e que ainda ressoa até os dias de hoje. E as pedrinhas de madeira, para montar castelos, casas e igrejas ! E o pega-varetas, o jogo de ping pong, o iô iô e o dominó, quanta emoção ! E o caleidoscópio, com aquelas figuras coloridas e mágicas, que loucura !


Mas, nada se comparou ao ano em que ganhei uma bola de couro. O cheiro daquele "courinho", como chamávamos as bolas de couro naquela época, até hoje está presente na minha memória.
Que som maravilhoso, o quicar da bola no chão ! Que sentimento de poder
, quando no dia seguinte, apareci na rua com a bola debaixo do braço ! Nem me importa, o triste fim que ela levou, cortada em pedacinhos, por uma vizinha que não gostou da reação dos meus colegas de pelada, que agiram com certa violência, quando ela ameaçou não devolver a bola que caíra na casa dela.
A tristeza da perda não foi nada, quando comparada com o deslumbramento de ter abraçado, cheirado e acariciado aquela que foi a minha primeira bola de couro... e última.

Nada se compara, nos dias de hoje, à euforia das crianças daquela época, na manhã do dia de Natal, cada uma exibindo o seu troféu. Presentes simples, mas que tinham
um significado inestimável, para quem passava o ano inteiro aguardando aquele momento de ganhar o presente da sua vida. Era assim que se pensava e sentia, diante da proximidade do Natal. A gente colocava todo o entusiasmo na lista dos presentes e ficava na expectativa da entrega de cada um deles, como uma questão de vida e morte.

As canções de Natal embalavam os nossos sonhos, antes, durante e depois da
entrega dos presentes. Na Era do Rádio, cada época do ano tinha uma programação especial, para o Natal, o Carnaval e até para a Semana Santa. As estações de rádio não tinham essas programações despersonalizadas, como o que se vê nos dias de hoje. As músicas tocadas eram de acordo com as épocas e seguiam toda uma tradição protocolar, no Natal ouvia-se músicas natalinas, no período de Carnaval, as marchas, sambas e ranchos, e na Semana Santa, as músicas eram clássicas.

A gente vivia, por isso mesmo, ao som do rádio, em ritmos diferentes, de acordo com cada época do ano. Pode parecer estranho para quem está acostumado à programação global de hoje em dia, mas era tudo muito natural para nós que vivemos a nosso infância na Era do Rádio.



quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Folguedos sem data

"Alô, alô, senhores aviadores que cruzam os céus do Brasil, aqui fala Jorge Veiga, diretamente da Rádio Nacional. Estações do interior, queiram dar os seus prefixos para guia das nossas aeronaves".
O som vinha do rádio do vizinho, sintonizado na rádio Nacional. A voz era de Jorge Veiga, que antes de qualquer apresentação, sempre recitava o mesmo refrão,
criado por Floriano Faissal, numa época em que as ondas sonoras das estações de rádio serviam para orientar os pilotos que percorriam os nossos céus mais azuis.
"Doutor de anedotas e de champanhotas, estou acontecendo no café soçaite...", a voz meio rouca do sambista tomava conta da calçada, por onde a molecada brincava, pés no ch
ão e cabeça no ar.

Havia um calendário no inconsciente coletivo da meninada que, no tempo c
erto, fazia com que todos fossem para as ruas com a brincadeira da época na cabeça, como se tudo tivesse sido combinado de véspera.
Pipa, pião, bola de gude, bafo-bafo e outras brincadeiras da moda tomavam conta das ruas por uns tempos, num rodízio constante, que parecia engendrado por uma mente articuladora dos folguedos infantis. Mas, hoje, quero falar dos folguedos sem data, daqueles que surgiam, de repente, vindos não se sabe de onde e nem por que.

Esses folguedos eram articulações meio misteriosas, dos quais somente participavam alguns iniciados, que respeitavam rigorosamente suas regras, apesar delas nunca terem sido escritas ou reveladas publicamente.
Existiam comunidades que se formavam entre os moradores de cada rua, assim co
mo grupos que se fechavam dentro dessas comunidades. A turma da rua Bonsucesso formava uma comunidade à parte da turma da Francisca Hayden e da Bias Fortes. Pareciam povos diferentes, vivendo em localidades distantes, com hábitos e costumes regionais. E, no entanto, eram ruas que se encontravam num largo, onde aconteciam as grandes peladas de domingo.
Uns, da rua Francisca Hayden, se tratavam por "coisórios", e tinham seus dialet
os próprios. Os da rua Bias Fortes eram mais fechados e bem mais ensimesmados. Os da rua Bonsucesso, onde eu morava, tinham também suas esquisitices, cultuadas, não por todos, mas por alguns grupos.
- Mandrake aí ! Com esse grito, os membros de um desses grupos se obrigavam a ficar parados onde estivessem, até que ouvissem a nova ordem: Pode sair, licença !
A licença era o salvo conduto para ficar a salvo de uma ordem semelhante à que havia obrigado os demais a permanecerem estáticos, sem se mexer. Mandrake era o mágico das histórias em quadrinhos, que hipnotizava os vilões e fazia-os ver objetos mudando de formas e ficarem assustados, permanecendo estáticos, até serem presos.
Outra dessas brincadeiras sem data, e que podia aparecer e desaparecer, sem previsão de época, era o buxuxu. Dentro do grupo, quem sentasse, e não gritasse : "Buxuxu licença!", corria o risco de levar um soco no meio da coxa, e não podia reclamar. Brincadeira meio bruta, às vezes bem violenta, mas coisas de garoto, que não têm muita explicação.
- Tato aí ! Quem estivesse comendo algum coisa teria de dar um pedaço ao que gritou. Para se preservar dessa parceria indesejável, era preciso gritar, ao ver um do grupo :"Tato, licença!". Coisas que os garotos levavam a sério, como se fizessem parte de uma fraternidade secreta, na qual todos têm os seus deveres e obediências, que não podiam ser rejeitados ou questionados.

Enquanto os folguedos sem data iam acontecendo, as brincadeiras de época se sucediam, ocupando a mente da meninada, que não tinha muito tempo para pensar besteira, além dessas besteirinhas que eram as próprias brincadeiras e folguedos da nossa época.

Bandeira, garrafão e carniça eram brincadeiras noturnas, durante o ano inteiro, sem data marcada. Essas eram brincadeiras de menino, e só para meninos, do tipo "menina não entra".
Estátua, anel e chicotinho queimado eram brincadeiras mista
s, que envolviam meninos e meninas, enquanto roda, pular corda e casamento japonês eram adoradas pelas meninas, e mal vistas pelos meninos. Coisas de homem e de mulher, que começavam bem cedo, desde os folguedos de rua e de quintal, e que afastavam os sexos para só voltar a reaproximá-los lá pela adolescência, quando a sexualidade começava a lançar suas iscas.

Era assim que acontecia naqueles tempos idos, quando vivíamos os anos 50, uma época mágica de Mandrakes e buxuxus, de pique bandeira e garrafão, e quando em qualquer terreno baldio ou meio de rua podia-se ver duas pedras marcando o gol, da pelada que ia acontecer no meio da tarde.

Na rua, a meninada, e nos lares, o rádio ligado na programação vespertina. "Alô, alô, senhores aviadores..." Era assim que, a gente brincava e se divertia muito, na Era do Rádio.


terça-feira, 17 de novembro de 2009

Um saxofone em hi-fi com Sandoval Dias

Na Era do Rádio, anúncio era reclame, dança era bolero e música para dançar era a que saía do sonoro saxofone de Sandoval Dias.
Ah, meu nostálgico leitor, eu também concordo que essas danças m
odernas, em respeito aos grandes dançarinos, como Fred e Ginger, Gene Kelly e Cyd Charisse, deveriam ser chamadas de outros nomes, menos danças.
E poucos músicos brasileiros souberam conduzir com tamanha maestria a linha melódica de uma dança, como Sandoval Dias com o seu sax-tenor. As festas ficav
am mais românticas ao som do bolero que saía do sax de Sandoval. Os casais suspiravam baixinho, e se deixavam levar pelo salão, no embalo suave e sereno do conjunto de Sandoval Dias.
Muito poucos músicos souberam marcar de forma tão harmoniosa o ritmo da música dançante, como Sandoval.
O disco que analiso hoje, Um saxofone em hi-fi, considero o melhor de toda a discografia de Sandoval Dias, em parte por uma seleção de primeira linha, mas principalmente pelas interpretações de altíssimo nível desse mestre da música dançante.

Na capa, o charme da artista de cinema da época, Jayne Mansfield, uma rival da Marylin, mas que nunca chegou a ameaçar a fama da mais famosa loura do cinema.
O meu tio Sandoval costumava lançar seus LPs com mulheres nas capas, mas isso não era uma jogada comercial só dele, mas de quase todos que lançavam dis
cos dançantes naquela época.
A mulher era um chamativo a mais, para a venda dos álbuns fonográficos. Mas, tenho certeza que, se alguém comprou este disco somente por causa da estrela da capa, foi agraciado com um dos melhores discos da época.

As interpretações para No Rancho Fundo e Pensando em ti são fenomenais. No entanto, nada se compara à magistral técnica com que a música Czardas é interpretada, quando o sax de Sandoval parece esquecer que é um instrumento de palheta, e se transforma num virtuoso violino.
Os violinistas se sentem desafiados, diante dessa obra musical difícil de ser executada, e não são poucos que tropeçam em suas variações melódicas, que ex
igem muita sincronia de movimentos.
O sax de Sandoval parece desconhecer todas essas aparent
es dificuldades, e oferece-nos uma oportunidade rara de ouvir o que um músico é capaz de fazer com o seu instrumento, quando ele sabe o que faz. Num determinado trecho, quando todos os músicos se sentem mais desafiados, pela vibração constante e muito veloz que tem de ser imprimida a interpretação, é ali que Sandoval se sente mais à vontade e dá uma lição de destreza e técnica apurada, fazendo o baile parar, para que todos possam apreciar e acompanhar melhor a beleza do som da música.
Uma vez, tive essa experiência num baile em que tocava o
famoso 7 de Ouros, quando os pares foram parando de dançar e olhando para o palco, embevecidos pelo que estavam ouvindo, até que coroaram o final da apresentação com uma interminável salva de palmas.
Sandoval Dias tinha essa genialidade para tirar do saxofone dourado,
uma sonoridade melodiosa que não parecia vir de um instrumento musical, mas de um coral de anjos celestiais.
Em nenhum outro de seus LPs, Sandoval Dias foi tão brilhante qua
nto neste Um saxofone em hi-fi. As músicas que compõem o disco são Pensando em ti, Love Letters in the Sand, Maria La ô, Encabulado, Dejame en paz, Neptuno, Nereidas, No Rancho Fundo, Autumn Leaves, Czardas, Around the World e Deixa o meu coração cantar.
Sambas, boleros, choros, fox, são diversos os ritmos, mas to
dos feitos para dançar.
Era assim que se animava as festas, na Era do Rádio. Uma radio-vitrola ou eletrola, uns discos LPs e música dançante da melhor qualidade.
A vizinhança não reclamava, mas, pelo contrário, pedia para que tocasse um pouco mais alto. E o som suave e melódico atravessava a janela, percorria o jardim e che
gava aos ouvidos do vizinho da casa ao lado, que de olhos fechados tirava uma casquinha da festa que não pôde ir, mas que pôde receber em casa.
Era assim que se dançava na Era do Rádio. Todos se sentiam um pouco Fred e um pouco Ginger.
E ao fundo, a virtuose de Sandoval Dias e seu sax dourado.