sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Esse Norte é de morte

"Eu quero é rosetar".
Essa frase polêmica foi tema de uma jocosa história contada por Chico Anysio no seu ingênuo, porém sempre brilhante, programa Esse Norte é de morte.
Este era mais um daqueles inesquecíveis momentos, da programação noturna da Rádio Mayrink Veiga, quando o humor ficava por conta de comediantes geniais, dentre os quais o insuperável Zé Trindade.
Com um sotaque baiano e um jeito matreiro de lidar com os fatos, o Zé era uma figuraça, e sua voz provocava gargalhadas, mesmo quando repetia as mesmas frases já manjadas - "como disse, como disse?" - "mulheres, cheguei" - "dandá pra ganhar tentém", e por aí afora.
Era noite de uma quinta-feira, e o rádio estava sintonizado na Rádio Mayrink Veiga, quando o apresentador anunciou mais um Esse Norte é de morte, um programa que contava histórias do Norte, como era mais conhecido naquela época o Nordeste.
O script era de um dos mais ilustres filhos desse Norte, que fica meio para os lados do Leste, natural de Maranguape, chamado Chico Anysio.
A história daquela noite era simples como todas que, a cada semana, eram contadas pelo próprio Chico, que as relatava como se verdadeiras fossem, e nós acreditávamos, pois a crença ajudava a gargalhada fácil, que era a única intenção dos que sintonizavam o rádio naquela emissora.
A Rádio Mayrink Veiga, lá pelos idos da década de 50, era sinônimo de riso e diversão pois, noite após noite, havia um programa humorístico para a diversão das famílias.
Às segundas, era a vez do Vai da Valsa, às terças, Levertimentos, às quartas, não me recordo do programa, talvez fosse PRK-30, às quintas, Esse Norte é de morte e às sextas, bem às sextas, a atenção estava voltada para a Rádio Nacional, com o seu antológico Balança mas não cai.
Voltemos à história narrada no programa, e que tem como pano de fundo a frase "eu quero é rosetar". E nem preciso dizer quem era que repetia a todo instante, com aquele sotaque baiano e cheio de picardia, a frase que deixou as senhoras de Maranguape em pé de guerra.
O Zé era um caminhoneiro que resolveu escrever uma frase no parachoque do seu caminhão, pois afinal de contas, como ele dizia sorrindo, todos os caminhões trazem uma frase nos seus parachoques, e o dele não podia ficar sem dizer nada. E quando ele resolveu dizer "eu quero é rosetar", a cidade veio abaixo, procurou o prefeito, para que obrigasse o caminhoneiro a apagar aquela frase ofensiva, um verdadeiro palavrão. Onde já se viu, dizer que quer rosetar, na frente de senhoras decentes, e diante de crianças que não poderiam ficar expostas a essas frases obscenas.
O prefeito chamou o caminhoneiro, e pediu-lhe que mudasse a frase do parachoque do seu caminhão. Que ele colocasse uma frase menos pesada, sem aquele tom agressivo e desrespeitoso que estava maculando as famílias de Maranguape.
O caminhoneiro, naquele tom arrastado de falar do nosso saudoso Zé Trindade, argumentou com o prefeito que não havia nada de mal no fato dele querer rosetar, aquele era um direito do qual não abriria mão. E alegava ele, para fortalecer seus argumentos que, afinal de contas, ninguém nem sabia o que era rosetar. Nem ele mesmo sabia o que era rosetar, mas havia algo naquela afirmação que mexia com ele, e ele não iria tirar aquela frase do seu caminhão.
As mulheres foram ao padre da Matriz de Maranguape, e apelaram para o poder do vigário que, naquele tempo, era bem maior do que o do prefeito. O padre argumentou que não via nenhuma intenção maldosa na frase, mas se comprometeu a conversar com o caminhoneiro, e convencê-lo a escolher uma outra que as senhoras considerassem menos escabrosa. E assim fez.
O caminhoneiro pediu a benção ao vigário, se confessou um homem temente a Deus que jamais se negaria a atender um pedido da Igreja, e depois de muitas tentativas, entregou os pontos, e prometeu ao padre mudar a frase.
No domingo, durante a missa, o padre tranquilizou o povo da cidade, informando que a frase repudiada pelas senhoras e pelas famílias zelosas pela decência da paróquia seria apagada do parachoque do caminhão de nosso caminhoneiro, teimoso é verdade, mas um homem de bem. As palavras do padre caíram nas almas das paroquianas como um bálsamo sagrado, que as aliviava do convívio com o pecado, que para elas era a expressão mais clara da presença daquela afirmação maldosa à vista do povo da cidade.
Imagine, se um cidadão decente diz na frente de uma senhora que ele quer rosetar !
Mas, alguns homens ainda se atreveram a perguntar ao padre, o que era rosetar. O padre não soube responder, mas achou melhor, saindo pela tangente, dizer que não era coisa boa. As mulheres iam mais além, e afirmaram em alto e bom tom que era coisa do demônio. Os homens, meio que de lado, ouviam tudo, encolhiam os ombros, e preferiam não dar opinião.
Terminada a missa, o povo está saindo da igreja, quando se ouviu ao longe o ruído do caminhão do nosso frustrado roseteiro. Os olhos se voltaram para a estrada, onde se via a poeira levantar. Todos se puseram a tentar ler a nova frase escrita no parachoque.
Ah, foi uma exclamação geral, quase uma indignação coletiva, quando se ouviu a voz do Zé Trindade, com aquele sabor característico de quem adora uma molecagem, dizer a nova frase que agora ia estampada no parachoque do seu caminhão.
"Continuo querendo".
A voz de Chico Anysio fechava o programa com um comentário alusivo ao modo diferente de ser do povo do Norte, e convidava a todos que voltassem a sintonizar na próxima semana , no mesmo dia e no mesmo horário, para ouvirem uma outra história daquele Norte que é de morte.
A família achava graça, era uma história ingênua, é verdade, mas de um humor inteligente e com a malícia de quem sabe contar histórias. O rádio era desligado, pois era hora de dormir. Dormia-se cedo, lá pelas 10 horas, no máximo 10 e meia.
Quantos da nossa época não foram para a cama com aquela frase na cabeça, repetida inúmeras vezes pelo sotaque baiano do Zé Trindade, imaginando o que seria rosetar. Será que rosetar era uma coisa ruim ? Seria bom rosetar ?
A vida continuava, após cada programa, e depois de cada noite, deixando na memória da gente traços de um humor que valia a pena recordar. As risadinhas sarcásticas com o sabor de molecagem, que antecediam as tiradas de humor do Zé Trindade, permaneceriam em nossas memórias e atravessariam os tempos, para jamais serem esquecidas.
A eternidade parece ter tido o seu início naquela época, quando tudo começava num programa de rádio, para jamais ser esquecido. Assim era a Era do Rádio, um tempo que se foi, mas que permanece para sempre gravado na mente dos que tiveram o privilégio de pertencer àquela geração.







































sábado, 26 de julho de 2008

O "happy hour" dos anos 50

Sexta-feira, 8 horas e 35 minutos de um dia qualquer dos anos 50, os rádios sintonizados na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, as famílias reunidas em silêncio aguardavam que a voz do locutor Wilton Franco invadisse os seus lares anunciando que "ergue-se em qualquer parte da cidade maravilhosa o Edifício Balança, Balança, Balança..." e o primo pobre Brandão Filho arrematava "...mas não cai".

Na era do rádio, "happy hour" não era uma reunião nas noites de sexta-feira num barzinho qualquer, para se tomar cerveja. Depois do trabalho, todos se apressavam para chegar logo em casa, tomar seu banho com calma, jantar, esperar o encerramento da Voz do Brasil, para só então ligar o rádio, ouvir a novela das 8 e se deliciar enfim com o humor brejeiro e ingênuo das piadas de Max Nunes e Paulo Gracindo.
O patrocínio era da Perfumaria Mirta Sociedade Anônima e os moradores do Edifício Balança mas não cai eram os comediantes da Rádio Nacional, que viviam situações cotidianas, quase sempre inspiradas nos acontecimentos da semana.
O Primo Rico e o Primo Pobre faziam a sua crítica social, com muito humor e inteligência. O Peladinho exaltava o seu amor pelo mengo, enviando suas mensagens para seus jogadores favoritos, como o Dr. Rubis, que era o alvo principal dos seus elogios e de suas críticas. "Mengo tu é o maior" ou "Mengo tu é uma desgraceira" se alternavam à medida que o mengo ganhasse ou perdesse.
Depois das lágrimas vertidas, após mais um capítulo de "O Direito de Nascer",
a família gargalhava unida com o som que vinha dos apartamentos localizados no Edifício Balança mas não cai. As dores e preocupações da Mamãe Dolores eram compensadas pelo riso fácil provocado pelo primo pobre, que tentava convencer o primo rico a soltar uma grana para matar a fome do seu pirralho, de quem o primo era padrinho.

Os estúdios da Rádio Nacional se tornaram um mundo à parte, ao longo daqueles já longinqüos anos 50, por criarem imagens nas mentes dos ouvintes que não há como reproduzir nos dias de hoje, pois cada qual viajava em mundos imaginários pessoais, que só têm registros na memória daqueles que viveram na era do rádio.
As músicas de abertura eram precedidas por locutores de vozes impostadas, que anunciavam o nome do patrocinador e dos autores dos programas ou das novelas. Os anunciantes, como os sabonetes Lever, Palmolive e Eucalol, e mais o trio maravilhoso Regina, eram apresentados com destaque, mas logo depois eram anunciados os nomes dos autores dos "scripts", fazendo-os conhecidos de todos, como acontecia com Moysés Weltman, autor do seriado "Jerônimo, o herói do sertão", e Álvaro Rangel, que escrevia as histórias das "Aventuras do Anjo".
Enquanto os meus pais se preparavam para o jantar, com a mãe na cozinha, batendo as panelas, e o pai na sala, mastigando torradas, os meus ouvidos estavam grudados no rádio, atento às ações do Anjo e do seu amigo Metralha.
Às 6 horas e 25 minutos, de segunda a sexta, ouvia-se aquele aviso sinistro : "Meliantes, tremei ! No ar, as Aventuras do Anjo". Durante os próximos 10 minutos, a minha fértil imaginação seguia os passos do Anjo e de seu parceiro, ou melhor, as vozes de Álvaro Aguiar e de Osvaldo Elias, que interpretavam o Anjo e seu enrolado parceiro Metralha.
Das 6 e 35 até às 7, era a vez do Jerônimo, do Moleque Saci e da Aninha, a noiva de Jerônimo. Milton Rangel, Cauê Filho e Ísis de Oliveira interpretavam as histórias do herói do sertão, que vivia às turras com o Caveira e seu capanga Chumbinho. O Caveira arquitetava planos diabólicos para liquidar com Jerônimo, que sempre escapava ileso, como todo mocinho que se preza.
"Chumbinho apresente o seu relatório", cobrava o Caveira. E Chumbinho sempre repetia : "Caveira, Jerônimo escapou mais uma vez". Caveira não tinha outra forma d
e manifestar a sua contrariedade, senão repetindo : "Maldição !".
Os tiros, os cascos dos cavalos à galope, o barulho do vento, o som das cachoeiras e dos rios se misturavam no ar, enquanto os atores dialogavam no estúdio, contando com a participação indispensável do sonoplasta, o responsável por inventar aparelhos que reproduzissem os sons naturais.
Os ensaios eram feitos em torno de uma mesa, antes do programa ir ao ar, e não havia como remendar um erro que viesse a ser cometido, pois toda a programação era transmitida ao vivo.
Mas, a nossa noite começava logo ao cair da tarde, com a leitura da oração da Ave-Maria, por Júlio Louzada, um momento sagrado em que até as crianças interrompiam seus folguedos para fazer o sinal da cruz.
A seguir, vinha a Pausa para Meditação, com temas adultos de amores e traições, quando o mesmo Julio Louzada, que antes rezara para a Virgem Maria, ainda imbuído de uma certa aura sagrada, tentava dar conselhos e amenizar as dores das ouvintes desconsoladas com seus parceiros, que escreviam para o programa pedindo ajuda.
A gurizada esperava, então ansiosa, para que aquelas desgraças amorosas se acabassem, e dessem espaço para a chegada do Anjo e do Metralha.
A noite só terminava para os mais velhos, depois das 10 ou das 11 da noite, com as duas últimas edições do Repórter Esso. A confiabilidade representada pela voz de Heron
Domingues fez do Repórter Esso, o noticiário oficial do povo brasileiro, de modo que uma notícia só tinha crédito se fosse anunciada pelo Repórter Esso, e na voz de Heron Domingues.

Assim eram aqueles meus tempos de menino, com jogo de botões pela calçada, com saudades da professorinha que me ensinou o beabá, quando eu era feliz ... e sabia.







sexta-feira, 18 de julho de 2008

Ninguém imagina a pressão nos alçapões

Nos meus tempos de criança, menino amante do futebol, alçapão não era uma armadilha para pegar pássaros, mas um pequeno estádio de futebol, onde ganhar do dono da casa era um combate de sangue, suor e lágrimas.
Eu morava muito perto de um desses alçapões, o da Avenida Teixeira de Castro, campo do Bonsucesso, onde assisti, em belas tardes de domingo, grandes zebras, co
m derrotas de Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo.
Ganhar do Bonsucesso, no alçapão de Teixeira de Castro não era tarefa fácil.
Um outro alçapão muito próximo dali era o da rua Bariri, campo do Olaria, onde uma vez o center half Olavo correu o cam
po todo atrás do juiz para agredi-lo, e mais tarde foi punido por isto com uma suspensão de 1 ano.
A torcida rubro-anil enchia as sociais de Teixeira de Castro e torcia como se o Bonsucesso fosse o seu time do coração, mas muitos mudavam de lado quando os adversários eram Flamengo, Fluminense, Vasco ou Botafogo.
A garotada recitava de cor e salteado as escalações dos clubes que fizeram história, nos meus tempos de menino. Passados mais de 50 anos, ainda sou capaz de lembrar uma das melhores equipes do Bonsucesso que pude ver atuar.
Julião, Bibi e Gonçalo Décio, Pacheco e Paulo Milton,Geraldo, Valter Prado, Jair e Nilo.
Com esta formação, o Bonsucesso venceu o Botafogo e o Vasco
, empatou com o Flamengo, e só perdeu para o Fluminense por 1x0, devido a um lance inusitado, em que o goleiro Julião, depois de defender um cruzamento, colocou a bola no chão, pensando que o juiz havia marcado uma falta. O centroavante do Fluminense Valdo, um matador imperdoável, não perdeu tempo, tocou a bola para dentro do gol, e foi comemorar com a torcida.
Nas tardes de domingo, assim que avistava a marquise do estádio enfeitada com as bandeiras de todos os clubes, num visual mágico, eu me deixava excitar e era tomado por uma ansiedade incontrolável, à medida que me aproximava do campo. A minha caminhada era a pé, já que morava bem perto do campo, na rua Bonsucesso, que desembocava logo no início da Teixeira de Castro.
O grito da torcida, o apito do juiz, o hino do Bonsucesso, tocado antes do jogo, eram sinfonias inacabadas, que pareciam se eternizar ao longo da semana, à espera do domingo seguinte, quando todo esse ritual se repetia.
O clímax do campeonato se dava com a visita do nosso time do coração ao alçapão perto da nossa casa.
Nessas ocasiões, torcia-se sem constrangimentos pelo time visitante, pois na era do rádio o que prevalecia era o amor que devotávamos ao nosso clube e o direito de expressá-lo sem medo de violências.
A camisa do Flamengo vestida por meus ídolos, cultuados em figurinhas e nos times de botões, fazia disparar o meu coração, e me deixava engasgado de emoção.

Garcia, Tomires e Pavão Jadir, Dequinha e Jordan Joel, Rubens, Índio, Benitez e Esquerdinha.
E aquele ataque inesquecível, formado por Joel, Moacir, Henrique, Dida e Babá, como se poderia esquecer !!!
Quando o time do Flamengo pisava o gramado de Teixeira de Castro, correndo como era tradição na época, os meus olhinhos brilhavam como se eu estivesse diante de um grupo de deuses.
Os alçapões de Teixeira de Castro, Bariri e Conselheiro Galvão, que ainda não havia mencionado, e que era o estádio do Madureira, nos permitiam ver os jogadores de muito perto, e quase tocá-los. E isto era emocionante para um bando de guris, numa era em que não existiam televisões, e os jogos eram acompanhados pelo rádio e no dia seguinte conferidos pelos jornais
, que estampavam fotografias de um gol ou de uma bela defesa do goleiro.
Ao vivo, só indo ao campo de jogo. E para uma visão mais próxima dos nossos ídolos, só se espremendo nos alambrados que cercavam os campos e aguardando a bola sair pela lateral, junto ao local onde a gente conseguia se enfiar.

A magia do futebol acabou, e só lembranças permaneceram nas mentes daquelas crianças que conheceram de perto a pressão exercida a cada domingo, dentro dos alçapões, quando os times grandes corriam o risco de cair na armadilha do time pequeno que jogava em casa.
Com o surgimento dos grandes estádios, a partir do Maracanã, tudo mudou. Hoje em dia, ninguém
pode imaginar como era a pressão sofrida nos alçapões dos subúrbios.

sábado, 28 de junho de 2008

A simplicidade na arte de ser feliz


"Tá com medo tabaréu, é de linha de carretel".

Com esse desafio, a molecada na rua provocava o dono da pipa que fugia do embate, com medo de cruzar.

Quem se preocupava por saber o que era tabaréu ? Aquele era um grito de guerra repetido por todos, como um guerreiro fazendo pouco de um inimigo confuso, sem traquejo e despreparado para a batalha.

A linha de carretel era uma alusão ao cordonê, um barbante resistente que muitos utilizavam para cortar e aparar as pipas alheias, e que era imbatível na hora de embolar.
A linha de carretel era a tradicional linha 10, que quase todos usavam, muitas vezes envolvida em cerol ou cortante, para se tornar afiada e cortar a linha dos que cruzavam em seus caminhos.
Entre o inverno e a primavera, quando o vento se fazia mais presente nos céus do Rio de Janeiro, as pipas vagavam por entre nuvens, tenteando, dando de bico e voando. Como uma cobrinha elas tenteavam para a direita e para a esquerda. Como um raio, elas mergulhavam em direção ao chão, dando de bico, e voltavam a alçar vôo em direção às nuvens, como um avião de caça, durante as batalhas aéreas.
Assim, passávamos as tardes, manuseando pipas e carretéis de linha, que tinham técnicas apuradas de serem enrolados, num traçado em torno de um eixo de bambu que era enfiado de um lado ao outro do carretel.
Quanta ingenuidade naquelas violentas batalhas travadas nos céus do nosso bairro !
Quanto orgulho em cortar e aparar a pipa do inimigo !
Era indescritível a sensação de delírio, quando após uma série interminável de manobras, a nossa linha cortava a linha do outro, fazendo com que sua pipa fosse embora levada pelo vento, enquanto no seu rastro se lançava uma turba de meninos a fim de capturar a pipa que voou.
No fim de tarde, já de banho tomado, ficava-se no portão à espera da janta.
O som do parque de diversões que ficava montado lá na esquina trazia aos nossos ouvidos a melancolia de um chorinho ou o ritmo carnavalesco de uma marchinha. Na Era do Rádio, não se poderia imaginar uma lembrança a ser guardada sem um registro musical, sem um som mágico que num futuro distante nos conduziria de volta àqueles tempos de menino.
A roda gigante toda iluminada convidava-nos a espiar lá do alto, as ruas do bairro com suas casas simples de luz mortiça. Como pano de fundo, o morro enfeitado de luzinhas suaves, vindas dos postes e das janelas das casas humildes, mas que em nada se assemelhavam aos barracos de hoje em dia. O bonde iluminado circulava em direção a Ramos ou a caminho de Higienópolis. E, de repente, um trem bonito, com máquina
soltando fumaça puxando vagões de madeira, levava os trabalhadores de volta para casa.
Aos sábados, podíamos ter a alegria de saber que haveria um show de marionetes no parque, e lá íamos eu e o meu irmão assistir os bonecos representando o Lobo Mau e o Chapeuzinho Vermelho ou o Blecaute cantando "Hoje é Dia dos Namorados".
Às 6 horas, todos ligavam seus rádios para ouvir com respeito, na voz de Júlio Louzada, a oração da Ave Maria, o que era mais uma tradição do que um ato de fé.
Meu pai costumava chegar do trabalho, em torno desse horário, trazendo debaixo do braço o jornal O Globo, que era disputado por mim e por meu irmão, ansiosos por ler as nossas histórias em quadrinhos, publicadas em tiras e acompanhadas com o mesmo fervor com que os adultos se ligavam na novela O Direito de Nascer, uma unanimidade nacional daquela época.
Na minha casa, o jantar era servido rigorosamente às 7, quando todos se sentavam à mesa, orquestrados por minha mãe que nos servia, como era costume na época, em regime de prato feito.
Novela das 8, um programa humorístico da Nacional ou da Mayrink Veiga e um jogo de futebol noturno, quando jogasse o Flamengo, e lá íamos todos para a cama. Assim terminava mais um dia de rotina, um dia simples, que precisava de muito pouco para me fazer feliz.








sábado, 31 de maio de 2008

Vamos trocar figurinhas ?


As figurinhas carimbadas eram difíceis de se encontrar. A gente bem que tentava, comprando 5 ou 10 balas de cada vez, o que para a época era um exagero. Mas, qual não era a nossa decepção, quando ao retirar o invólucro, víamos se repetirem algumas das figurinhas que já faziam parte do nosso álbum.


A emoção ao se encontrar uma figurinha difícil, a figura carimbada, era indescrítivel. Corria-se para casa, abria-se o álbum e colava-se aquela preciosidade no quadradinho vago, que estava à espera daquela que era uma das raridades da coleção.


As balas Ruth foram uma coqueluche, como se costumava chamar os fatos que ocupavam a atenção de muitos, durante um certo tempo. Quem não tivesse o seu álbum de figurinhas das balas Ruth não estava com nada, ninguém dava bola para o que dizia.


As balas eram vendidas nas bancas de jornais, e ninguém nem se dava conta se as balas eram gostosas para serem chupadas, o que contava mesmo eram as figurinhas que envolviam as balas. Muitos jogavam as balas no lixo, depois de desenrolar as figurinhas. Lembro-me que eu gostava da bala, mas não a compraria se não fossem as figurinhas.


Em cada bala vinham duas ou três figurinhas, já não me lembro bem.


Cada página do álbum tratava de um tema diferente, frutas, flores, esportes e por aí afora.


As figurinhas eram perseguidas pela criançada numa ansiedade que não se assemelha a nada que se possa comparar no mundo de hoje. Quando se sabia que alguém havia conseguido uma figurinha carimbada difícil, a notícia corria o bairro, e todos cobiçavam poder conquistá-la. Mas, só havia um meio de possuir aquelas raridades, seria trocando por outras raridades, ou jogando bafo-bafo, carimbadas contra carimbadas.


Quem possuísse aquela figurinha que ninguém ainda houvesse conseguido podia dar-se ao luxo de botar preço, que quase sempre superava os preços até então vigentes no mercado.


Os preços não eram cotados em moeda, apesar de existirem transações envolvendo dinheiro. O mercado de figurinhas tinha o seu câmbio regulado pelo grau de dificuldade de se obter uma ou outra determinada figura, num mecanismo tradicional inspirado pela lei da oferta e da procura. Mas, o padrão monetário era a própria figurinha, uma valia cinco, outra valia dez e daí em diante, sem limites.


Se o possuídor de uma figurinha carimbada fosse um sortudo que já tivesse tirado a mesma figurinha em duplicata, ele fixava o seu preço sempre em figurinhas, e abria a bolsa de negócios aguardando as primeiras ofertas.


Quando, porém, não se chegava a um acordo, e a cobiça sobre algumas figurinhas crescia muito, ainda que não fossem carimbadas, uma das soluções era o bafo-bafo.


De joelhos no chão, figurinhas na mão, os garotos pousavam as suas figurinhas com as imagens voltadas para baixo, e um de cada vez batia sobre os montinhos, com a mão em forma de concha, para criar um deslocamento de ar que permitisse virar as figurinhas com suas imagens para cima. Aquelas que fossem viradas passavam às mãos do autor da proeza, que cedia a sua vez ao próximo, para que tentasse um feito semelhante. Quando todas as figurinhas que tinham sido casadas fossem desviradas, começava-se uma nova rodada.


Os mais experientes saíam com os bolsos cheios de figurinhas, à semelhança do jogador que abandona a mesa do cassino repleto de fichas. Naturalmente, as carimbadas nunca faziam parte desses jogos mais descontraídos, que tinham como principal objetivo criar um fundo de reserva que pudesse ser negociado, mais tarde, com quem ainda estivesse começando a sua coleção. Para os novos colecionadores, era mais fácil investir em figurinhas abertas do que em balas fechadas. Com isto, dava para os colecionadores mais antigos conseguirem um trocado para ser investido em balas fechadas, na esperança de se conseguir, quem sabe, uma figurinha carimbada.





O bafo-bafo era, sem dúvida, uma forma de se criar um patrimônio para futuros negócios, negociando-se com quem estivesse entrando ainda inexperiente no mercado.


O sabonete Lifebuoy aproveitou a deixa e lançou um reclame, como era chamada a propaganda na época, em que os meninos ajoelhados no chão empoeirado ficavam expostos ao perigo das impurezas. E só o Lifebuoy era capaz de proteger a saúde das crianças com o seu ingrediente purificador.


Ingênuo, não é verdade ? Mas, era assim que se procurava convencer os consumidores, naqueles tempos idos, da Era do Rádio. E era assim que nos divertíamos, de forma ingênua e simples, enquanto os nossos pais davam um duro danado sem reclamar do trabalho e nossas mães cuidavam da casa, achando a coisa mais sublime do mundo.

















terça-feira, 29 de abril de 2008

Um sábado perdido no tempo

O relógio marcava 3 horas da tarde, de um sábado qualquer da década de 50. Os aparelhos de rádio estavam todos sintonizados numa só estação, a RádioNacional.
A rotina da nossa casa não se alterava, mas a nossa atenção, pelas próximas 4 horas, estaria toda voltada para o som do rádio.
O locutor anunciava o patrocinador - Pastilhas Valda. A orquestra da Rádio Nacional, sob a regência do maestro Chiquinho, invadia nossos lares com a introdução de uma canção, cujos versos seriam cantados, logo a seguir, por um vocal muito afinado.
"Esta canção nasceu pra quem quiser cantar, canta você, cantamos nós até cansar. É só bater, e decorar. Pra recordar vou repetir o seu refrão. Prepare a mão, bate outra vez, este programa pertence a vocês".
A última frase era o sinal que todos aguardavam para saudar o maior animador de auditório de todos os tempos - César de Alencar.
"Alô, alô, alô." Com um entusiasmo contagiante e uma loquacidade verbal incontrolável, entrava por nossos ouvidos, a saudação inicial dirigida ao auditório, aos ouvintes de casa e ao patrocinador.

Durante as 4 horas seguintes, um auditório lotado com cerca de 600 pessoas, ficaria sob o efeito hipnótico da voz de César de Alencar, num matraquear incansável, dialogando com o auditório, conversando com seus convidados e apresentando os grandes cartazes do cast da Rádio Nacional.
Sucediam-se astros e estrelas famosos, os cantores da nova geração, os sucessos musicais da semana e o criativo e intelectual Romário, o homem dicionário.

O auge do programa, que levava o auditório ao delírio, se dava com a apresentação daquela que era "a minha, a sua, a nossa favorita - Emilinha Borba". A orquestra tocava o refrão do reclame das Pastilhas Valda - "Pastilhas Valda, Pastilhas Valda...", e o auditório, no mais puro êxtase, exclamava a todo pulmão - "Emilinha é a maior". A orquestra repetia a deixa, e o auditório não se fazia de rogado, e gritava ainda mais forte - "Emilinha é a maior".
A noite do sábado já havia chegado, quando os últimos acordes da orquestra davam por concluído mais um inesquecível Programa César de Alencar.
A lida da casa continuou por toda a tarde, com os últimos retoques da faxina de fim de semana, o jogo de botões no chão encerado, o lanche ritualístico na hora aprazada e todo o ritual familiar da época.
A minha mente de menino viajou pelas suas costumeiras fantasias. Os meus olhos de criança observaram a bolinha de rolha empurrada por um botão em direção ao gol. As minhas pernas correram atrás de uma bola ou pelos corredores da vila, simplesmente para queimar energia. Os meus ouvidos, porém, não conseguiam se desligar do som ambiente, vindo dos rádios de toda a vizinhança, que reproduziam as canções, as brincadeiras e os jingles ingênuos que buscavam vender os produtos dos anunciantes.
Às 7 horas da noite, desligava-se o rádio e sentava-se à mesa para o jantar. O sábado estava prestes a terminar, depois de mais um Programa César de Alencar.





sábado, 12 de abril de 2008

16 de julho de 1950 - um dia para ser esquecido






Era domingo, um dia cinzento e enfarruscado.




O tempo, desde manhã cedo, já parecia prenunciar o que estava por vir.




O ano era 1950, e o dia, 16 de julho.




Acordei ansioso, com um olho na missa e outro no rádio.




Desde 24 de junho, quando o Brasil estreara contra o México, a garotada não tratava de outro assunto, que não fosse futebol.




Os meus times de botão estavam engalanados, cada qual representando uma seleção. Os goleiros de caixa de fósforos ganharam roupagens novas, em papel colorido com os escudos das respectivas seleções estampados bem no centro. Em cima de cada botão estava colado o nome de um jogador.




Ajoelhado no chão do quarto, eu paletava os meus botões, chamando-os pelos nomes, irradiando o jogo, como se fosse um Oduvaldo Cozzi, numa cabine de rádio do recém inaugurado Estádio do Maracanã.




Entra em campo o Brasil, com Barbosa, Augusto e Juvenal; Bauer, Danilo e Bigode; Maneca, Zizinho, Ademir, Jair e Chico. Eu sabia o time de cor, com todas as alternativas possíveis. Sai o Maneca, entra o Friaça. Eli, Rui e Noronha, na defesa, Alfredo e Baltazar, no ataque, foram dando lugar para os que se firmavam em suas posições.




Os jogos, ou as pelejas, como se falava na época, foram acontecendo, e desde a estréia da nossa seleção, no dia 24 de junho, contra o México, a sensação era uma só - a Copa do Mundo é nossa.




Ganhamos do México de 4x0, e um leve tropeço contra a Suiça, um empate de 2x2, não abalaria o nosso entusiasmo, até porque o melhor ainda estava por vir.




A bola de couro rolava no gramado do Maracanã, a bolinha de rolha deslizava pelos tacos encerados do meu quarto, antes de estufar a rede e provocar um entusiasmado grito de Goooollll!!!!




A seleção do Brasil era absoluta nas duas canchas, como os locutores denominavam o campo de jogo.




Os adversários foram sendo batidos, um a um, a Iugoslávia por 2x0, a Suécia por 7x1 e a Espanha por 6x1.




No sábado, dia 1 de julho, tive a minha primeira frustração na competição, ao ficar de fora do grupo de vizinhos, dentre os quais meu pai, que foi assistir à vitória sobre a Iugoslávia. Bem que eu apelei, mas foi em vão.




Os dois resultados seguintes, vitórias de goleada sobre a Suécia e a Espanha, deixaram em todos a certeza do título.




O Maracanã, no dia 13 de julho, recebeu uma multidão de fanáticos torcedores, que aos berros, numa euforia sem precedentes em jogos de futebol, comemoram a goleada de 6x1 sobre a Espanha, cantando Touradas de Madri, que havia sido um sucesso no carnaval de 37.




"Eu fui às Touradas de Madri,




E quase não volto mais aqui,




Pra ver Peri beijar Ceci,




Eu conheci uma espanhola,




Natural da Catalunha,




Queria que eu tocasse castanhola,




E pegasse touro à unha"




Os gols se sucediam e a cantoria não parou, enquanto o jogo não terminou.




Os jogadores de todas as seleções eram citados e recitados por mim, fanático por futebol, que projetava nos meus times de botões a fantasia de vê-los tocando a bola e fazendo gols, como jogadores de verdade.




A seleção espanhola goleada pelo Brasil era escalada de cor e salteado com Ramallets, Alonso e Gonzalvo II; Gonzalvo III, Parra e Puchades; Basora, Igoa, Zarra, Panizo e Gainza.




Após a vitória sobre a Espanha, a decisão seria com o Uruguai, no domingo, dia 16, mas as favas já estavam contadas. Quem iria temer o Uruguai, depois de enfiar 7 a 1 na Suécia e 6 a 1 na Espanha?




Na minha casa um balão verde e amarelo já estava pronto para subir aos céus, assim que o jogo terminasse. Meu tio caprichou na colagem de cada gomo daquela balão histórico, que deveria alçar vôo, enquanto todos nós gritaríamos a uma só voz : Brasil, Brasil, Brasil.




O Brasil perdeu e o balão pegou fogo. Uma tragédia !




O rádio contava a história da partida, e eu acompanhava cada palavra, criando imagens na mente, nas quais a bola rolava de pé em pé, de Zizinho para Jair e daí para Ademir que, a qualquer momento, estufaria a rede, num golaço espetacular.




O gol só saiu aos 2 minutos do segundo tempo, e foi o Friaça, e não o Ademir, quem me fez pular de alegria. O empate daria o título ao Brasil. Agora era só esperar o tempo passar, e quem sabe ainda fazer mais um ou dois, para que a nossa superioridade não deixasse dúvida.




Os gols sairam, mas não foram do Brasil. Schiaffino empatou aos 21 minutos e, aos 34, Ghiggia decretou a desgraça nacional. O Maracanã emudeceu, e depois chorou. O país vestiu luto, e lamenta até hoje a morte do sonho de ser campeão do mundo, dentro da própria casa.




Ainda me lembro do silêncio, depois do rádio desligado, com minha família atônita sem saber o que fazer.




O balão meio desconsolado aguardava-nos dobradinho num canto. Decidimos soltá-lo assim mesmo, mas o infeliz não suportou o peso da derrota, e se negou a subir, até que pegou fogo.




Era 16 de julho do ano de 1950, um dia que entrou para a história como o dia mais triste para o futebol brasileiro, um dia para ser esquecido.




Seria injusto para os vencedores, não deixar aqui registrados os nomes dos jogadores uruguaios que venceram na bola e na raça, capitaneados pelo xerife Obdulio Varela, que intimidou, gritou, ameaçou e saiu com a Taça debaixo do braço.




Maspoli, Matias Gonzales e Tejera; Gambetta, Obdulio Varela e Andrade; Ghiggia, Julio Perez, Miguez, Schiaffino e Moran.